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Córdova: direita faz regressar franquismo aos nomes das ruas

A Câmara de direita de Córdova, na Andaluzia, anunciou como primeira medida do seu mandato a recuperação dos nomes franquistas que tinham sido retirados, no âmbito da lei da memória, pelo executivo do PSOE e Esquerda Unida.
Rua Cruz Conde em Córdova.
Rua Cruz Conde em Córdova. Foto de justojosemm/wikicommons

O simbolismo é claro. A primeira medida do executivo de coligação entre PP e Ciudadanos (Cs): a recuperação dos nomes franquistas em duas ruas e uma das praças que o anterior executivo do PSOE e Esquerda Unida tinha mudado em aplicação da lei da memória.

Miguel Ángel Torrico, do PP, justifica que se pretende recuperar “nomes populares e históricos”. Assim, a rua do Foro Romano, regressa ao nome de Cruz Conde, a avenida do Flamenco, volta a ser de Vallellano e a Praça dos Direitos Humanos torna-se outra vez Praça de Cañero.

Cruz Conde, ex-alcaide de Córdova, foi um militar fascista que participou num golpe de estado promovido pelo general José Sanjurjo. O conde Vallellano foi ministro das Obras Públicas do governo golpista de Franco. O toureiro Antonio Cañero foi conselheiro municipal mas antes disso chefiou uma milícia fascista dedicada a chacinar opositores na cidade e arredores.

O PP local sublinha que a medida estava já no programa eleitoral do partido e foi uma das 23 medidas acordadas com os Cs para os primeiros 100 dias de governo municipal. Torrico diz que interpreta, com isso, “o sentir maioritário dos córdoveses” e que encerra assim “os debates estéreis da etapa anterior”.

No início de 2018, os votos da esquerda tinham mudado o nome de 15 ruas. PP, Cs e um partido local criado por um empresário, a Unión Cordobesa, concordaram em dez dos casos mas foram contra noutros cinco. Na altura, o PP insistiu em fazer um referendo. Conseguiu até juntar sete mil assinaturas para esse efeito mas a proposta de referendo acabou derrotada. A alcadesa socialista, Isabel Ambrosio, alegou que a Câmara “não pode nem quer consultar os munícipes sobre se deve ou não cumprir a lei”.

Rai(v)a política

Carlos Carujo

A lei andaluza da memória implica a aprovação de um regulamento posterior para tratar da retirada de simbologia franquista. Para a esquerda, a lei implica naturalmente a mudança de nomes das ruas batizadas com altos responsáveis do regime fascista. A direita tem uma visão diferente da lei que aprovou no parlamento autonómico.

Madrid, a capital do ataque simbólico da direita

Depois da reconquista da Câmara de Madrid, a direita apressou-se, também aí, a fazer mudanças simbólicas em temas-chave.

Foi suspenso o apoio a um concerto solidário com os refugiados no espaço comunitário La Gasolinera que já tinha sido decidido pelo executivo anterior e foi anunciado que a Câmara de Madrid não terá mais a faixa “Refugees Welcome” que tinha ostentado. Dizem os novos responsáveis municipais que querem combater a “utilização demagógica de um problema que existe nesta cidade”.

Para além disso, as mensagens contra a violência machista em edifícios municipais vão deixar de ter lugar na nova Madrid, o que fez parte também das primeiras medidas anunciadas.

Para já, desta ofensiva ideológica parece escapar a bandeira LGBTI no dia do orgulho. Isto apesar de parte da campanha institucional que já tinha sido aprovada para comemorar esta data ter sido eliminada. Tratava-se de uma campanha protagonizada por ativistas LGBTI e que homenageava quem lutou contra a repressão no passado: “aqueles que levantaram os nossos direitos”, “aqueles que estavam quando não estávamos”, “aqueles que se mantiveram firmes”, eram algumas das frases utilizadas.

O Vox, que faz parte do executivo, tratou de expressar a sua oposição a que a bandeira arco-íris fosse hasteada na sede do município considerando que assim se celebra “um lóbi que odeia todos os que não pensam como eles”. E o próprio presidente da Câmara advertiu quem participe nos eventos que não deve procurar “nem o conflito, nem a divisão, nem a politização”.

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