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COP27, uma cimeira ganha pelo capital fóssil

Ao contrário das anteriores cimeiras do clima, desta vez ninguém ousou dizer que a COP, "embora dececionante", foi no entanto "um passo em frente". Por Daniel Tanuro.
Delegação saudita na COP27. Foto UNclimatechange/Flickr

"Queremos insistir que a Convenção (a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas) tem de tratar das emissões e não da origem das emissões".

Isto foi dito pelo representante oficial da Arábia Saudita na última sessão plenária da COP27 no Egipto.

Tradução da citação: Deixem-nos explorar e queimar combustíveis fósseis, não há necessidade de endurecer os objetivos sobre o assunto, vamos concentrar-nos em como remover o CO2 da atmosfera, "compensando" as emissões (captura e armazenamento geológico, plantações de árvores, compra de "direitos a poluir", etc.).

Quase todos os observadores da COP27 centram-se na criação de um fundo para as "perdas e danos" dos países do Sul, alguns falam disso como um acontecimento histórico, etc.

Eu não diria que este fundo não é importante.... Sim, é uma vitória para os países mais pobres, mas é apenas uma decisão de princípio, levará anos para perceber quem vai pagar, quanto e, acima de tudo, quem vai receber o dinheiro....

Em todas estas questões, haverá duras batalhas, nas quais alguns dos maiores criminosos climáticos do mundo, como a Rússia e as monarquias petrolíferas, recorrerão à demagogia "anti-ocidental" para tentar manipular os países pobres e assim evitar contribuir para o fundo (ou mesmo tentar beneficiar dele: como lembrete, a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados são classificados como países em desenvolvimento pela Convenção-Quadro...).

Entretanto, embora a situação seja urgente, o essencial é que esta COP não "elevou as ambições" sobre as alterações climáticas, não decidiu nada para começar a reduzir as emissões até 2025, o mais tardar, e a presidência egípcia, ao mesmo tempo que afirma falar em nome de África, conspirou deliberadamente com os combustíveis fósseis (países produtores e multinacionais - mais de 600 lóbistas no terreno!)

A COP26 tinha adotado um "programa de trabalho de mitigação" que a COP27 era suposto implementar. Contentou-se em decidir que o processo seria "não prescritivo, não punitivo, (...)" e "não conduziria a novas metas". Além disso, o objetivo máximo de 1,5°C adotado em Glasgow esteve muito perto de ser explicitamente contestado (e foi, "off record").

A proposta da Índia, aceite por 80 países, tanto "desenvolvidos" como "em desenvolvimento" (como se diz) para mencionar como meta a eliminação progressiva de todos os combustíveis fósseis (e não apenas do carvão), foi ignorada pela presidência. Mais uma vez, o termo "combustíveis fósseis" não aparece sequer no texto final. Pouco importa "de onde vêm as emissões", não é?

Pensávamos já ter visto tudo no que respeita ao greenwashing, mas não: novas fasquias foram alcançadas em Sharm el-Sheikh. Quanto à "compensação", as decisões tomadas abrem a possibilidade de os direitos de poluição serem contados duas vezes como "reduções de emissões" (uma pelo vendedor e outra pelo comprador!). E isso não é tudo: nos acordos bilaterais de redução de emissões, os países poderão decidir que os meios utilizados são "confidenciais"... e, portanto, não verificáveis!

No seu discurso, citado no início deste texto, o representante da Arábia Saudita agradeceu à presidência egípcia em nome do seu país e da Liga Árabe. Há uma boa razão para isto: esta COP foi ganha pelo capital fóssil e pelos seus representantes políticos incondicionais (especialmente o eixo Arábia Saudita - Emirados Árabes Unidos - Rússia, com a China em segundo plano). Exploraram habilmente a conjuntura geoestratégica e o - legítimo - descontentamento dos países pobres com o imperialismo ocidental, o principal responsável pelo aquecimento do planeta.

Ironia do destino: a vitória dos fósseis é tão clara que a COP27 é também, ao contrário do que escrevi antes da cimeira, um fracasso... dos representantes mais entusiastas do capitalismo verde: a União Europeia esteve à beira de bater com a porta, tal como a Grã-Bretanha. Os neoliberais verdes foram apanhados na sua própria armadilha: tecem loas ao mercado? bem, os fósseis, que dominam o mercado, dominaram a COP.

O tempo dirá se isto é apenas um pequeno sobressalto na história. A curto prazo, a COP28 será presidida pelos Emirados Árabes Unidos. Tiveram mais de mil delegados em Sharm el Sheikh e fizeram um grande alarido para promover o "petróleo limpo" (com o CO2 utilizado maciçamente para aumentar a extração de petróleo). Isto promete!

Desta vez ninguém ousou dizer que a COP, "embora dececionante", foi no entanto "um passo em frente". De facto, uma coisa é agora cristalina: não haverá verdadeiros "passos em frente" sem medidas anticapitalistas e antiprodutivistas radicais. Elas não sairão das COP, mas das lutas.


Daniel Tanuro é engenheiro agrónomo e nasceu na Bélgica. Fundou a associação “Clima e Justiça Social”. Tem artigos escritos sobre questões ambientais em várias revistas e jornais. É também autor de vários livros, nomeadamente “O impossível capitalismo verde” que se encontra traduzido em português pelas edições Combate.


Artigo publicado a 23 de novembro de 2022 na página Facebook do autorlink is external). Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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