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Contadores de histórias

Ouçamos Xerazade que não disputava o poder, mas a sua vida, a sua liberdade. Uma vez mais, torna-se decisivo ousar contar outras histórias, narrar outras possibilidades de vida-em-conjunto. Texto de David Santos
“Ouçamos Xerazade que não disputava o poder, mas a sua vida, a sua liberdade” - Imagem: Rainha Xerazade pintada no século XIX por Sophie Anderson - wikipedia
“Ouçamos Xerazade que não disputava o poder, mas a sua vida, a sua liberdade” - Imagem: Rainha Xerazade pintada no século XIX por Sophie Anderson - wikipedia

Conhecemos a fábula de Xerazade. Tinha a vida em suspenso, a vida capturada, pelas estórias que contava ao Sultão, se estas o cativavam ou não, se a permitiam viver mais um dia ou não. Nas noites do poder – onde, de dia para dia, o rei se decide a matar ou a deixar viver – Xerazade intencionalmente deixava uma estória a meio para a retomar na noite seguinte. A princesa não era livre porque estava dependente da arbitrariedade do poder, mas cativava-o, e, ao fazê-lo, utilizava a fome insaciável do poder contra ele mesmo, para o desafiar sem o ter de confrontar fisicamente. Por meio da narração das suas estórias Xerazade ensinava uma outra forma de poder, um poder que não mata, nem suspende a vida, mas um poder que faz viver, um poder democrático. O Sultão é o poder, e o poder é, mais do que tudo, o poder sobre a narrativa; o poder, mais do que sobre a história, sobre a capacidade de contar histórias. Xerazade é a plebe, não a vítima, mas o Outro da dominação, o contrapoder, aquele que limita e enfraquece o corrente exercício da dominação.

A narrativa dominante, tal como o nosso Sultão, mata ou pode matar, e, sem dúvida, mantém as nossas vidas em suspenso. Neste mundo atual em que procuramos fazer a nossa vida, neste mundo que compartilhamos com os nossos concidadãos, o Poder domina fortemente as narrativas. O Poder quer fazer-nos acreditar que não restam mais estórias para contar e por contar, que a sua narrativa é a única possível, que a história possível é só uma, e que, a existirem outras narrativas, estas já não conseguem envolver, nem seduzir, ninguém. Mais, o Poder é capaz de tudo para manter o domínio sobre a narrativa, até de matar (i. é, de silenciar, descredibilizar, ocultar, inviabilizar, retirar do espaço público…), contra o espírito da democracia, quem quer e pode contar outras histórias. Bem vimos, a propósito dos recentes acontecimentos em torno do Bairro da Jamaica, como o Poder institucionalizado, uma vez mais, não se permitiu a ouvir aqueles que nos poderiam contar outras histórias, que são outros contadores, outros nossos companheiros na caminhada democrática. Os habitantes do Bairro da Jamaica, os ativistas antirracistas, todos aqueles a quem, ocupando a Avenida da Liberdade, lhes foi recusado o atrevimento de se manifestarem no espaço público, de afirmarem que também contam e que têm coisas para nos contar: a nós, democratas.

A União Europeia conta-nos também que não há história possível para os que ousam confrontar os ditames do seu diretório (recordemos a Grécia e o seu referendo sobre a aplicação das medidas da troika), nem, quanto mais, para os que se atrevem a encetar caminho para uma outra história fora do seu espaço (veja-se a fortaleza que a UE ergueu diante da hipótese do Brexit). Do mesmo modo que a globalização ou é neoliberal ou não o é, e o populismo ou é nacionalista ou não o é; as narrativas estão contadas como se de espingardas se tratassem, e, nestes dias cinzentos, às vezes nos parece que já não vivemos em democracias, mas em autênticas antecâmaras de guerras civis, de divisionismo guerrilheiro.

Ouçamos Xerazade que não disputava o poder, mas a sua vida, a sua liberdade. Uma vez mais, torna-se decisivo ousar contar outras histórias, narrar outras possibilidades de vida-em-conjunto. Afinal, é da nossa vida que se trata, da vida dos socialmente e economicamente mais desfavorecidos, da vida dos renegados pelo poder. Xerazade é uma mulher.

Texto de David Santos

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