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Comédia Financeira - um sonho de euros

O Novo Banco foi adquirido por um “equity fund” norte-americano. Estes fundos compram empresas à beira da falência, reconstroem-nas e depois, se assim o entenderem, vendem-nas inteiras, em peças, ou cortadas aos bocadinhos. Texto de Paulo Pina da Silva
No dia em que soubemos que o Estado Português injectou 850 milhões no Novo Banco, soubemos também que este ano já procedeu à colecta de mais de 500 milhões de euros dos contribuintes – Foto de Paulete Matos
No dia em que soubemos que o Estado Português injectou 850 milhões no Novo Banco, soubemos também que este ano já procedeu à colecta de mais de 500 milhões de euros dos contribuintes – Foto de Paulete Matos

Assistimos a uma cena de teatro no cenário político português muito invulgar, uma espécie de comédia-trágica. Comédia porque o surrealismo tem muitas vezes um efeito humorístico. Trágico porque envolveu 850 milhões de euros do dinheiro dos contribuintes.

Esse espetáculo a que assistimos pareceu-nos um espetáculo de política nacional com actores que conhecemos bem. Não é bem assim. Porque só vimos os actores. Mas houve encenadores, directores de actores, técnicos de luz e de som e mais, toda uma peça baseada em factos reais.

Quais são os factos reais?

O Tribunal Constitucional alemão acaba de negar a autoridade do Tribunal de Justiça da União Europeia por causas meramente financeiras. Tribunal Constitucional de um país cujo executivo tem acusado todos os outros países, de formas diversas, de não cumprimento com as normas europeias, e exigido sempre que o façam.

A causa financeira é simples: O Banco Central Europeu fez o que o Eurogrupo, e o seu Presidente Mário Centeno, não conseguiram: Integrou a dívida pública alemã no seu arsenal, só que sem lhe chamar “Coronabonds”.

Para explicar melhor: Viram o “Pretty Woman?” Lembram-se da personagem do Richard Gere? É isso. Ele comprava, refazia, vendia, e pelo meio metia uns milhões no bolso dele e da sua equipa

Outro facto real: o Novo Banco quando era uma “instituição tóxica” foi adquirido por um um “equity fund” norte-americano. Há vários tipos de “funds”, ou seja fundos. Independentemente do que os distingue têm algo em comum: compram empresas que estão à beira da falência, reconstroem-nas e depois, se assim o entenderem vendem-nas. Inteiras, em peças, ou cortadas aos bocadinhos. Para explicar melhor: Viram o “Pretty Woman?” Lembram-se da personagem do Richard Gere? É isso. Ele comprava, refazia, vendia, e pelo meio metia uns milhões no bolso dele e da sua equipa.

O golpe do BCE fez com que as negociações no Eurogrupo da Alemanha e países que têm muita preocupação com o seu regime financeiro – Holanda, etc. fossem uma perda de tempo. Porque esses países vivem disso. Do dinheiro dos outros.

O espetáculo em Portugal foi só um desenvolvimento destes e outros factos reais nos quais se baseou esta peça.

No dia em que soubemos que o Estado Português injectou 850 milhões num banco que está nas mãos de um fundo, soubemos também que este ano já procedeu à colecta de mais de 500 milhões de euros dos contribuintes.

No fim do dia quem tinha o papel principal disse que tudo ficava na mesma. Show must go on.

E continuaremos a ver mais espetáculos. Destes. Porque os artistas cuja arte e ofício é mesmo performativa não podem actuar e passam fome, como toda a gente sabe.

Há um professor Grego de Direito Constitucional que costumava dizer “A União Europeia será destruída por dentro”.

O Bloco de Esquerda tem sido apontado muitas vezes como antieuropeísta. Convido-vos a verem o Nosso programa eleitoral de 2019 e refletirem sobre o ponto 5 “Garantir lá fora o que queremos cá dentro”.

E depois expliquem-me quem está a destruir a Europa…

Texto de Paulo Pina da Silva

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