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Com salários reais em queda, patrões dizem que Portugal paga “cada vez melhor"

Em termos reais, remuneração bruta total média diminuiu 2% e foi nas grandes empresas que recuou mais. Quase 3,3 milhões de pessoas, dois terços do total de trabalhadores por conta de outrem, já perderam poder de compra.
Foto de Paulete Matos.

Durante o 31.º Digital Business Congress da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), António Saraiva, presidente da  Confederação Empresarial de Portugal (CIP), citado pelo jornal Expresso, afirmou que "Portugal está a pagar cada vez melhor".

O que os dados oficiais demonstram, pelo contrário, é que, em termos reais, ou seja, tendo em conta a inflação, a remuneração bruta total média diminuiu 2% e tanto a regular como a base diminuíram 2,5%. Acresce que, nas grandes empresas, com 500 e mais trabalhadores, os trabalhadores viram mesmo a sua remuneração total recuar 0,6%.

Salários reais em queda

“A remuneração bruta total mensal média por trabalhador (por posto de trabalho) aumentou 2,2% no primeiro trimestre do ano em relação ao mesmo período de 2021, para 1.258 Euros. A componente regular daquela remuneração aumentou 1,7%, situando-se em 1.127 Euros, e a remuneração base subiu 1,6%, atingindo os 1.058 Euros”, indica o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Tendo em conta a inflação, isto implica que, “em termos reais, tendo como referência a variação do Índice de Preços do Consumidor, a remuneração bruta total média diminuiu 2,0% e tanto a regular como a base diminuíram 2,5%”.

Estes resultados “abrangem 4,3 milhões de postos de trabalho, correspondentes a beneficiários da Segurança Social e a subscritores da Caixa Geral de Aposentações”, esclarece o INE.

Conforme destaca o INE, nas grandes empresas, com 500 e mais trabalhadores, os trabalhadores viram mesmo a sua remuneração total recuar 0,6%: “Em relação ao período homólogo (março de 2021), as maiores variações positivas da remuneração total foram observadas nas empresas com 1 a 4 trabalhadores (6,2%) e com 5 a 9 trabalhadores (4,8%), enquanto a única variação negativa foi registada nas empresas com 500 e mais trabalhadores (0,6%)”.

O mesmo padrão foi “observado na remuneração regular e na remuneração base: os acréscimos homólogos mais elevados ocorreram nas empresas de menor dimensão - de 1 a 4 trabalhadores (5,5% e 5,4%, respetivamente) e de 5 a 9 trabalhadores (4,0% e 3,7%) – e o único decréscimo homólogo ocorreu nas empresas de 500 e mais trabalhadores (0,5% e 0,3%, respetivamente)”.

Gráfico do Destaque do INE sobre Estatísticas do Emprego - Remuneração bruta mensal média por trabalhador - 1.º trimestre de 2022

Quase 3,3 milhões de pessoas já perderam poder de compra

Quase 3,3 milhões de pessoas já perderam poder de compra, o equivalente a 66% do total de trabalhadores por conta de outrem. Os cálculos são do Dinheiro Vivo, com base nos dados do INE.

O salário médio líquido registou uma subida de 4,3% no primeiro trimestre, para 1.024 euros, mas a inflação homóloga média do mesmo período fixou-se nos 4,3%, o que implica que o crescimento salarial foi anulado pela subida de preços e a consequente quebra de poder de compra. Tal não se verificava desde o início de 2014, com o governo PSD-CDS e a intervenção da troika.

Se for tida em conta uma inflação como a de abril, de 7,2%, e com a atual progressão salarial, a perda de poder de compra pode ascender a mais de 80% do universo de trabalhadores por conta de outrem, alerta o jornal digital.

A perda de poder de compra não é igual para todos os trabalhadores. No primeiro trimestre, o aumento médio de 0,1% nos salários dos "especialistas das atividades intelectuais e científicas", nos quais se incluem profissionais de educação e saúde equivaleu a uma perda de poder de compra de 4%. Os cerca de 600 mil "trabalhadores qualificados da indústria e construção" também sentiram nos bolsos a queda do poder de compra, com uma quebra salarial líquida real superior a 1,4%.

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