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Cientistas alertaram para uma pandemia de coronavírus, mas ficaram sem financiamento

Foram anos de alertas dos cientistas para a chegada do coronavírus. E foram anos de falta de fundos. Para além disso, quando mais necessitamos da colaboração internacional, a geopolítica impede-a. Artigo de Alberto Sicilia.
Disseminação do coronavírus. Ilustração de Maggie Talal/Flickr.
Disseminação do coronavírus. Ilustração de Maggie Talal/Flickr.

"A presença de uma grande reserva de vírus em morcegos juntamente com a cultura de comer animais exóticos, no sul da China, é uma bomba relógio". Com estas palavras terminava um artigo publicado, em 2007, por uma equipa de virólogos da Universidade de Hong Kong, na revista científica "Clinical Microbiology Reviews". Não seriam os únicos a dar o alerta.

Entre os anos 2002 e 2003, uma doença causada por um coronavírus (o chamado vírus de SARS) tinha morto mais de 700 pessoas. Naquela ocasião, detetaram-se e isolaram-se todos os infetados. Assim, conseguiu-se controlar o vírus e evitou-se uma pandemia como a que agora vivemos.

Em 2012, apareceu outro coronavírus em humanos: o vírus de MERS. Morreram mais de 800 pessoas mas a transmissão humano-humano era muito limitada e o assunto desapareceu rapidamente das manchetes.

Passava o tempo e os investigadores dos coronavírus contemplavam alarmados como os governos do mundo não estavam conscientes do risco de uma pandemia.

Esta era a conclusão de um artigo publicado na revista "Nature", em 2013:

"Os nossos resultados proporcionam a prova mais sólida, até à data, de que os morcegos de ferradura chineses são hóspedes naturais de coronavírus como o SARS-CoV e que os hospedadores intermédios podem não ser necessários para a infeção humana direta."

"Queremos ressalvar a importância dos programas de investigação de agentes patogénicos em grupos de animais selvagens em regiões críticas para doenças emergentes como estratégia de preparação face a uma pandemia."

O título deste outro artigo científico, publicado em 2015, era ainda mais direto: "O [coronavírus] WIV1-CoV está preparado para passar para os seres humanos".

Ou este outro, publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA, em 2016: "Os coronavírus que circulam entre os morcegos mostram o seu potencial para passar para os humanos".

Em setembro de 2019, o governo dos EUA decidiu cortar o financiamento ao programa de vigilância de doenças emergentes "Predict. EcoHealth Alliance" Dirigido pelo Dr. Peter Daszak, era um dos projetos que se apoiavam no Predict.

Durante mais de uma década, a EcoHealth Alliance tinha enviado equipas à China para apanhar morcegos, recolher amostras e procurar coronavírus nelas. O projeto tinha identificado centenas de coronavírus, incluindo um muito similar ao que provoca a covid-19.

Mas se o que vos contei até agora é preocupante, esperem porque a situação atual é ainda pior.

Durante uma conferência de imprensa, no passado 17 de abril, Donald Trump decidiu rever e cancelar qualquer programa de investigação em que cientistas norte-americanos colaborem com investigadores do Instituto de Virologia de Wuhan.

Trump justificou a sua decisão explicando que o vírus podia ter saído de um laboratório chinês, uma teoria rigorosamente desacreditada pelos cientistas.

Em resposta, o governo da China anunciou o cancelamento de qualquer projeto de investigação com os EUA para encontrar a origem do SARS-CoV-2.

Anos de alertas dos cientistas e falta de fundos. Quando mais necessitamos da colaboração internacional, a geopolítica impede-a.


Alberto Sicilia é doutorado em Física Teórica e jornalista free-lancer.

Publicado no blogue Principia Marsupia. Traduzido por António José André para Esquerda.net.

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