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China: uma batata quente chamada Chen Guangcheng

Ativista que procurara abrigo na embaixada americana em Pequim pede agora asilo político aos EUA. Obama preocupa-se principalmente com as relações comerciais com Pequim.
Chen pediu asilo político aos EUA depois de ter sido afastado da embaixada americana em Pequim

Na sequência de más notícias que abalam a tranquilidade do governo chinês, agora os líderes comunistas tem em mãos uma batata quente chamada Chen Guangcheng.

Apenas alguns dias de sossego após o recente escândalo Bo Xilai, um dos altos dirigentes chineses, caído em desgraça pelo facto de a sua mulher ser acusada de participação no assassinato de um empresário inglês, o governo tem de conviver com esta desagradável complicação.

No final de abril, Chen, um importante ativista pelos direitos humanos, buscou refúgio na embaixada americana em Pequim. A verdade sobre o que realmente aconteceu e como aconteceu continua obscura. O que sabemos é que Chen Guangcheng, de 40 anos, um homem cego, teve de saltar o muro construído ao redor da sua casa, onde se encontrava em prisão domiciliar. Ajudado por apoiantes, esteve nalgumas casas até conseguir entrar na embaixada americana, permanecendo lá durante seis dias.

Isto ocorreu dias antes da visita da secretária americana Hillary Clinton para a abertura das conversações bilaterais em Pequim. A permanência de Chen na embaixada americana foi definida pelos burocratas chineses, através do seu ministro de relações exteriores, que disse: “A China está muito descontente com isso. A ação dos EUA é uma interferência nos assuntos internos da China e a China não pode aceitá-la!”

Na quarta-feira, através de um obscuro acordo para remediar o impasse criado, Chen foi levado a um hospital para tratamento, acompanhado pelo embaixador americano. Por seu lado, o governo chinês prometeu assegurar condições para que Chen permaneça no país, num recanto isolado da China.

Parecia que o assunto seria contornado, até que Chen se pronunciou na quinta-feira, fazendo um apelo de asilo político nos EUA. Segundo Chen, “Sinto que não há segurança. Os meus direitos e segurança não podem ser garantidos aqui.” Segundo a Reuters, que tem seguido o caso, a decisão de Chen é apoiada pela sua família. Natural do vilarejo de Yinan, na província de Shandong, Chen tem dois filhos e a sua mulher, Yuan Weijing, tem sido ameaçada pelas autoridades chinesas.

O pedido de asilo feito por Chen, cujo desdobramentos não conhecemos, transformou-se numa imensa fonte de dores de cabeça, inclusive para Obama, que está em campanha eleitoral pela reeleição. Não poder falar duro contra a China abre os flancos para que o seu adversário Mitt Romney possa atacá-lo. Mas, no caso da eleição americana, apenas estamos a discutir se será eleito o cancro ou a sida para governar a principal potência imperialista.

EUA pressionam a CHINA?

A situação de Chen revela claramente a situação dos direitos humanos na China. Basta lembrar que Liu Xiabo, Nobel da Paz, continua detido. Ai Weiwei, outro destacado dissidente, bem como milhares de ativistas, estão sobre ameaça permanente. O paradeiro de muitos ativistas é completamente desconhecido.

Apesar de alguns argumentarem que os EUA pressionam a China, o que vemos é exatamente o oposto. O facto de Obama não ter garantido asilo político a Chen Guangdong demonstra claramente que, mais do que a defesa dos direitos humanos, o que importa a Washington são as relações comerciais com a China. Se, após a Revolução Chinesa, a China era uma espécie de quisto que deveria ser extirpado, com a fenomenal ascensão económica, o que era um quisto transformou-se no segundo órgão mais importante no corpo capitalista.

A única defesa de Chen, que após este episódio deu mais motivos para os dirigentes comunistas o aniquilarem, é o apoio da opinião pública mundial.

Clinton fez um discurso abstrato em Pequim dizendo que a China deve garantir os direitos humanos, mas absteve-se de mencionar a situação de Chen.

O presídio amigo

Obviamente, não somos favoráveis à intervenção americana em nenhum pais, já que ela sempre obedece, em primeira instância, aos interesses imperialistas. Mas não podemos deixar de ver que os EUA toleram tranquilamente o Presidio Amigo, já que a China é hoje a maior prisão do planeta. A história americana mostra todo uma série de intervenções militares em diversos países sob o argumento demagógico da defesa da democracia. Mas, quando se trata da China, o principal parceiro comercial americano, são utilizados dois pesos e duas medidas. Ao amigo chinês tudo é perdoado.

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