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Chile: Esquerda e extrema-direita na segunda volta das presidenciais

O candidato da extrema-direita ficou ligeiramente à frente e procura agora apoios na restante direita para chegar à presidência. À esquerda, Gabriel Boric apela à esperança contra o medo, numa “disputa pela democracia, pela inclusão, pela justiça e pelo respeito e dignidade de todos e todas”.
 Gabriel Boric no encerramento da primeira volta da sua campanha. Foto de Alberto Valdes/EPA/Lusa.
Gabriel Boric no encerramento da primeira volta da sua campanha. Foto de Alberto Valdes/EPA/Lusa.

Com 93,86% do escrutínio realizado, José Antonio Kast, o candidato da extrema-direita, está na frente da contagem da votação para a eleição do novo presidente chileno com 27,99%. O candidato da esquerda, Gabriel Boric, está ligeiramente atrás com 25,67%, uma diferença de apenas 151.000 votos. É já certo que se voltarão a defrontar nas urnas no dia 19 de dezembro numa segunda volta imprevisível.

Este resultado é uma implosão esperada das candidaturas dos partidos dominantes do centro esquerda e da direita. O candidato apoiado pelo atual presidente Piñera, Sebastián Sichel, ficou apenas em quarto lugar com 12,58% e a candidata Yasna Provoste, apoiada pelo Partido Democrata-Cristão, pelo Partido Socialista, pelo Partido pela Democracia, pelo Partido Radical, pelo Cidadãos e pelo Partido Liberal, obteve 11,74%.

Acima deles, aliás, ficou ainda um outro candidato que surpreendeu. Franco Parisi, economista ultraliberal, do Partido de la Gente, alcançou 13% sem sequer ter estado no país durante o período eleitoral e apenas participando nos debates que pudesse fazer online. O candidato tem uma dívida milionária por pagar, devido a uma pensão de alimentos, e um processo judicial pendente.

Num cenário destes, as declarações de apoio para a segunda volta atraíram as atenções. Ainda antes da candidata que apoiaram falar, já o Partido Socialista apelava publicamente ao voto em Boric “sem ambiguidades”, nas palavras de Álvaro Elizalde, o seu presidente. O candidato da esquerda obteve também o apoio imediato do sexto candidato mais votado, Marco Enriquez Ominami, que obteve 7,6% dos votos.

Por sua vez, o candidato da direita, Sebastián Sichel, sem ter declarado apoio expresso a nenhum deles, não deixou de ser claro sobre o que prefere a direita liberal que até agora conduziu o país: “não vou votar em Boric e tenho diferenças programáticas com Kast, sobre as quais estou disposto a conversar”.

Os olhos ficam postos, portanto, em Parisi. A porta-voz do candidato da extrema-direita, Macarena Santelices, veio a terreiro na noite eleitoral para afiançar que vão ocorrer reuniões entre os dois partidos para “chegar a acordos e incorporar os melhores nomes nesta segunda volta”.

As eleições presidenciais aconteceram ao mesmo tempo que as eleições para as duas Câmaras do Parlamento chileno, mas a contagem destes resultados está a ser mais lenta. Segundo os resultados contabilizados até ao momento, na câmara baixa, a esquerda alcançaria maioria com 35 deputados para o Apruebo Dignidad que apoiou Boric, o mesmo número para o Nuevo Pacto Social, a coligação que apoiou Provoste, três para o Dignidad Ahora e também o mesmo número para o Partido Ecologista Verde. A direita teria já conseguido 56 deputados da coligação Chile Podemos e a Frente Social Cristiano 14. Resultados que contrastam com a Câmara Alta. Para o Senado, o Chile Podemos + estará com 24 senadores, a Frente Social Cristiano com 23, o Nuevo Pacto Social com 18 e o Apruebo Dignidad com cinco.

A esperança vai ganhar ao medo”

Gabriel Boric, um deputado de 35 anos, que tinha ficado conhecido como dirigente estudantil, é o candidato presidencial que irrompeu pela cena política chilena à esquerda. A coligação Apruebo Dignidad, que junta Frente Ampla e Partido Comunista, vê-se assim como a única barreira à eleição de um presidente de extrema-direita.

Desta forma, na noite eleitoral, Boric apelou à “unidade dos democratas” pretende “contagiar de energia e esperança” o campo anti-fascista, acreditando que “a esperança vai ganhar ao medo”. Para ele, o “mandato e a responsabilidade” “tremenda” recebida este domingo é que este campo político lidere “uma disputa pela democracia, pela inclusão, pela justiça e pelo respeito e dignidade de todos e todas”.

As 227 páginas do programa eleitoral que apresenta centram-se numa mudança face ao neoliberalismo, na aposta pela distribuição de rendimentos, nomeadamente através de uma reforma fiscal, na reforma do sistema de pensões, na criação de um sistema nacional de saúde e num desenvolvimento económico que supere o modelo de exportação de bens como o cobre e o salmão que passa pela criação de um Banco Nacional de Desenvolvimento. Feminismo, ambientalismo e promoção da saúde mental fazem ainda parte importante da sua plataforma. Bem como a despenalização da canabis.

O autoritarismo liberal quer voltar ao poder

Kast é o candidato deste medo de que fala Boric. O candidato do Partido Republicano-Frente Social-Cristã no seu discurso de domingo deixou isso claro ao associar aos adversários os fantasmas do “comunismo” e do “terrorismo”, junto com a delinquência e o narcotráfico. Para ele, estes “querem indultar os vândalos que destroem”, “reúnem-se com terroristas assassinos e nunca estiveram do lado das vítimas do terrorismo e da delinquência”.

Trata-se de uma extrema-direita abertamente neoliberal e autoritária na sequência de Pinochet. No programa eleitoral propõe cortar (ainda mais) no Estado e defende “austeridade”, o que junta com as tradicionais guerras culturais deste campo político, prometendo fechar o Instituto dos Direitos Humanos e sair do Conselho de direitos humanos da ONU, encerrar o Ministério da Mulher, acabar com a lei do aborto e proibir o casamento entre pessoas do mesmo género. À moda de Trump, não prometeu um muro para impedir os migrantes de entrarem no Chile mas sugeriu uma vala na fronteira com a Bolívia para o mesmo efeito.

O aspeto repressivo deste projeto político não é escondido, propondo-se uma “coordenação internacional anti-radicais de esquerda” para “identificar, deter e julgar agitadores radicalizados” e atribuir ao presidente, em caso de Estado de exceção, a competência de “intercetar, abrir ou registar documentos e qualquer forma de comunicações e deter pessoas nas suas próprias casas ou em lugares que não sejam prisões nem estejam destinadas à detenção”.

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