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"Censurámos o Governo em nome das gerações sacrificadas"

Em nome das gerações sacrificadas. Assim apresentou o Bloco a moção de censura que marcou esta semana parlamentar. Censuramos uma política injusta e irracional que empobrece o país e o arrasta para uma espiral de recessão.
Semana Parlamentar marcada pela apresentação de uma moção de censura ao Governo pelo Bloco. Pelo líder parlamentar bloquista José Manuel Pureza

Censuramos o Governo porque, diante de uma crise provocada pela voragem do capital, decidiu que a receita era punir o trabalho e desproteger ainda mais os que são atirados para a margem da sociedade. Censuramos uma política injusta e irracional que empobrece o país e o arrasta para uma espiral de recessão que alimenta mais e mais a especulação e o ataque aos direitos sociais.

Censuramos uma política irresponsável porque entretida em disfarçar-se de patriótica quando se verga sem fim diante dos diktats de quem manda na Europa. Enfim, censuramos uma política de crise porque é na disputa entre quem privatiza mais, entre quem corta mais nos salários ou nas pensões, entre quem embaratece mais os despedimentos que PS e PSD se vão diferenciando ao mesmo tempo que tentam apagar da nossa memória a sua união para aprovar os PECs sucessivos e o orçamento.

O Bloco censurou o Governo em nome de uma alternativa. A de uma economia decente que aposte na redução do défice, cortando no desperdício e tributando os lucros, nomeadamente do sector financeiro, que insistem em escapar aos sacrifícios exigidos a todos os trabalhadores. Que não deprima o consumo interno, com a redução de salários e aumento de impostos, mas que anule os apoios fiscais injustificados às maiores empresas. Que tenha a decência de assumir que o trabalhador com funções permanentes não pode ser precário.

O debate da moção de censura apresentada pelo Bloco teve dois resultados essenciais. Em primeiro lugar, forçou uma clarificação dos alinhamentos políticos – CDS e PSD correram entre si, ainda o texto da moção não era conhecido, para garantir condições ao Governo para se manter em funções (“é tempo de o governo governar”, esclareceu Passos Coelho.

Em segundo lugar, forçou uma clarificação dos caminhos políticos – de um lado a prioridade da defesa concreta e efectiva do Estado Social, do outro o “austeritarismo” sem fim, extremista e radical, fundado em caprichos ideológicos. As “medidas adicionais” de austeridade anunciadas pelo Governo poucas horas após o fim do debate da moção de censura – com cortes nas pensões, no Serviço Nacional de Saúde ou nas indemnizações por despedimento – deram, a posteriori, razões também adicionais para a censura política. E na semana que agora entra o Bloco aí estará a interpelar o Governo para exigir responsabilidades por esta deriva de medidas anti-sociais.

Definitivamente, a precariedade das vidas ocupa agora o centro do debate político. Há quem, como o Presidente da República, prefira não a referir sequer e trocar a sua centralidade pela ilusão de um empreendedorismo de sucesso para todos. O sobressalto cívico a que apelou em vista de horizontes como esse veio a ter resposta bem diferente na rua este sábado: centenas de milhar a assumir que “precários nos fizeram, rebeldes nos terão!”

 

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
Termos relacionados Política, semana parlamentar
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