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Catarina escreve a Ulrich sobre o email anti-Syriza aos clientes do BPI

"Se o povo quiser e o Syriza ganhar, muito mudará na Grécia e na Europa. E os mercados financeiros aguentam. Ai aguentam, aguentam", diz a porta-voz do Bloco ao banqueiro.
Foto Paulete Matos

O email que o BPI enviou esta semana aos clientes, alertando-os para o "espectro" de uma vitória do Syriza, teve resposta de Catarina Martins, que estará esta quinta-feira em Atenas no maior comício da campanha eleitoral grega.

Em carta dirigida a Fernando Ulrich, a porta-voz do Bloco congratula-o pela "fidelidade aos amigos" do governo grego, dirigido pela Nova Democracia e o Pasok, os mesmos que fizeram a restruturação da dívida que provocou perdas de 339 milhões de euros ao BPI em 2012. Leia aqui a carta de Catarina Martins:

Caro Dr. Fernando Ulrich,

Descobri hoje que temos alguém em comum: uma boa amiga minha é cliente atenta do seu banco.

Ora, essa minha amiga recebeu do BPI um email alarmante sobre as eleições na Grécia e pediu-me explicações sobre os perigos que uma vitória do Syriza representa para Portugal. Não sei se o Dr. Ulrich sabe, mas o Syriza e o Bloco de Esquerda têm posições comuns sobre questões económicas e de política europeia e, sabendo isso, a minha amiga pediu-me contas na volta do correio (o tal email do BPI, que reencaminhou para mim).

Confesso que li com preocupação o que o BPI enviou aos seus clientes sobre a situação na Grécia. A missiva transmite algum desassossego sobre a possibilidade de o Syriza ganhar as eleições e eu, depois de sossegar a minha amiga, senti-me na obrigação de lhe escrever também, Dr. Ulrich.

Queria em primeiro lugar garantir-lhe que, ao contrário do que afirma o mail do BPI (certamente por falta de informação), o Syriza não é um partido "anti europeísta". Pelo contrário, é um partido europeísta.Tão europeísta que sabe que ou se muda de vida e se acaba com a austeridade, ou o que acaba é qualquer ideia de União Europeia. Em segundo lugar, assegurar-lhe que o tal "contágio" gerado por uma mudança na Grécia não é peste, é remédio. O Syriza propõe uma conferência europeia para a renegociação da dívida dos países da periferia do euro, para que assim as suas economias se relancem e se crie emprego. Ou seja: não querem soluções à nossa custa, querem um caminho para tirar a Europa da sua crise. Estamos mesmo a precisar deste contágio. Não lhe parece?

Esclarecidos estes pontos, não posso deixar de acrescentar, abusando da sua paciência, uma nota de felicitação. Congratulo-o pela fidelidade aos amigos, pela sua constância, mesmo nos tempos difíceis. Em 2012, o governo da Nova Democracia e do Pasok impôs ao BPI, que detinha dívida grega, uma perda de 339 milhões de euros, numa reestruturação conduzida pela troika em troca de mais austeridade. Hoje, no momento da aflição destes governantes gregos, o BPI não hesita em defendê-los junto dos seus clientes: Samaras e Venizelos são afinal quem "está mais em linha com Bruxelas". Amigo do meu amigo, meu amigo é. Antes reincidir num governo fracassado que dar a vez a quem defenda um Banco Central Europeu que apoie os Estados e não os bancos privados. E sabe-se lá onde mais pode levar a febre deste contágio...

Compreendo que, para um banqueiro, isto da democracia deve ser desgastante, com a possibilidade de ser mesmo o povo a escolher e de até poder fazê-lo contra "os mercados". Asseguro-lhe, Dr. Ulrich, que daí não vem mal ao mundo. Se o povo quiser e o Syriza ganhar, muito mudará na Grécia e na Europa. E os mercados financeiros aguentam. Ai aguentam, aguentam.

Saudações cordiais,
Catarina Martins

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