Catalunha: vitória soberanista com Governo penalizado

26 de novembro 2012 - 2:56

A Convergência e União, do atual presidente Artur Mas, voltou a vencer as eleições, mas sem a maioria ambicionada. A Esquerda Republicana duplicou a representação parlamentar e ultrapassou os socialistas como segunda força. À esquerda, a ICV ganhou mais três deputados e a CUP estreia-se no parlamento catalão, na eleição mais participada de sempre.

PARTILHAR
Catalães penalizam austeridade do Governo e aumentam a confiança nos partidos independentistas à esquerda. Foto Bernard.../Flickr

Mais de 5,4 milhões de eleitores (69,5% do total) votaram este domingo nas eleições autonómicas catalãs, batendo assim o recorde absoluto de votantes, estabelecido em 1984, quando votaram 64,4% dos eleitores. O interesse pela decisão política quanto ao futuro da Catalunha disparou 11 pontos em comparação com as últimas eleições autonómicas em 2010. O resultado deu uma vitória com sabor amargo para Mas e no discurso de reação aos resultados, o líder da Convergência e União (CiU) reconheceu que já não tem a força necessária para avançar sozinho com o seu modelo de autodeterminação. Artur Mas procurou corresponsabilizar a oposição pelo futuro não apenas do processo, como da governação da Catalunha.

Quando convocou as eleições para reforçar o seu poder na definição do processo de autodeterminação da Catalunha, o presidente da Generalitat - o governo autonómico catalão - não esperava por este resultado. A CiU passou de 62 para 50 deputados e afastou-se ainda mais da maioria absoluta no parlamento, só alcançada com 68 deputados. A oposição aos cortes e às medidas de austeridade do governo catalão acabaram por ser determinantes na decisão do eleitorado, que não permitiu a transformação de Artur Mas na figura incontestada para fazer frente a Madrid no braço de ferro político sobre um futuro referendo acerca da ligação da Catalunha ao Estado espanhol. Embora o conjunto das forças que apoiam um referendo para a autodeterminação catalã seja maioritário na nova composição do parlamento, ele manteve-se quase inalterado em relação a 2010 e continua aquém dos dois terços do total de deputados.



Esquerda independentista sai reforçada



O apelo de Mas foi lido pela imprensa como dirigido sobretudo à Esquerda Republicana Catalã (ERC), a formação que passou de 10 para 21 deputados e ultrapassou a bancada socialista, apesar de ter menos alguns milhares de votos que o PSC. "O processo para a independência saiu claramente reforçado", afirmou Oriol Junqueras, o líder da ERC, sublinhando o apoio maioritário expresso nas urnas aos partidos soberanistas e independentistas. Citado pelo 'El Periodico', Junqueras prometeu buscar acordos "com as restantes forças políticas e também com as organizações sociais e económicas" catalãs, porque a proposta independentista "só poderá ter êxito se for assumida por todos".



Uma novidade no discurso de Jonqueras foi a referência à Candidatura de Unidade Popular (CUP), a quem felicitou pela entrada no parlamento. Esta formação da esquerda independentista, que já tinha presença autárquica com mais de uma centena de eleitos, apresentou-se pela primeira vez a votos, conseguindo três deputados pelo círculo de Barcelona e 3,5% no total dos votos. Celebrando a "entrada do cavalo de Tróia das classes populares" no parlamento, David Férnandez assumiu como uma das prioridades da CUP a concretização das condições sobre as quais se realizará um referendo sobre o futuro da Catalunha. Férnandez recordou ainda os três objetivos da candidatura: Acabar com os despejos, os cortes e o pagamento das dívidas ilegítimas.



Com 13 deputados eleitos (mais 3 que em 2010), a Iniciativa pela Catalunha - Esquerda Unida e Alternativa (ICV-EUiA) congratulou-se com os melhores resultados da história da coligação ecosocialista, apelou a uma frente contra a austeridade e apontou baterias a Artur Mas. Joan Herrera afirmou que "a vitória da CiU é a derrota dos seus objetivos políticos" e que os catalães expressaram com o seu voto que "não querem um governo de insensíveis". Herrera quer que as formações da esquerda no parlamento catalão dificultem ao máximo a investidura de Mas.



Socialistas sofrem nova derrota histórica



O Partido Socialista Catalão saiu claramente derrotado destas eleições e até ultrapassou a queda sofrida em 2010, que já tinha sido o pior resultado da história. Desta vez, a bancada perde mais oito deputados, ficando reduzida a 20. Para Pere Navarro, o candidato do PSC, a única consolação deste resultado desastroso é que foi, apesar de tudo, menos mau do que previam as sondagens. "Nós estávamos num momento complicado, de reencontro com a sociedade. Numas eleições com tanta tensão, é possível que tenha custado fazer passar a nossa mensagem de sensatez", declarou Pere Navarro aos jornalistas.



Apesar de ter obtido a melhor votação de sempre em eleições autonómicas, o Partido Popular baixou para quarta força do parlamento catalão, com 19 deputados e acusou Artur Mas de ser o grande perdedor destas eleições, instando-o a abandonar "a sua postura separatista". O movimento Ciutadans também obteve uma vitória histórica, passando de 3 para 9 deputados. Esta formação defensora da união com Madrid foi uma das supresas da eleição, ao conseguir um grupo parlamentar próprio, para o qual são necessários 5 eleitos. Albert Rivera exigiu a demissão de Artur Mas e anunciou logo na noite eleitoral a apresentação de uma moção de censura caso o líder da CiU avance para um novo mandato à frente do Governo autonómico.

Resultados das eleições



CiU - 30.68% - 50 deputados - 1.112.341    votos

ERC - 13.68% - 21 deputados - 496.292 votos

PSC - 14.43% - 20 deputados - 523.333 votos

PPC - 12.99% - 19 deputados - 471.197 votos

ICV - 9.89% - 13 deputados - 358.857 votos

CIUTADANS - 7.58% - 9 deputados - 274.925 votos

CUP - 3.48% - 3 deputados - 126.219 votos