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Catalunha: Novo governo deve excluir partido de Puigdemont

Faltam quinze dias para se esgotar o prazo legal de formação de um executivo. Rompidas as negociações com o Juntos pela Catalunha, a Esquerda Republicana procura agora um acordo com os Comuns.
Pere Aragonès
Pere Aragonès tenta formar governo na Catalunha. Foto publicada na sua conta Twitter.

As eleições de fevereiro vieram reforçar a maioria absoluta dos partidos independentistas no Parlamento catalão, com a Esquerda Republicana (ERC) a chegar à frente do Juntos pela Catalunha (JxCat) em número de deputados deste bloco - 33 contra 32. Pere Aragonès assumiu-se como candidato a liderar a Generalitat, mas as negociações com o atual parceiro de governo terminaram este sábado sem acordo. Caso não se alcance maioria para a investidura até 26 de maio, os catalães terão de voltar às urnas.

Na base da discórdia está o papel determinante que o JxCat quer conferir ao Conselho pela República, presidido por Carles Puigdemont a partir do exílio belga, no processo da mesa de diálogo com o Governo espanhol. Uma proposta  que Aragonès considera inaceitável, por vir introduzir na prática uma tutela exterior sobre o Governo.

Apesar da rotura negocial, o JxCat diz que não pretende obstaculizar a formação de um Governo minoritário da ERC e disponibilizou-se a ceder quatro votos para a investidura, proposta que o líder da ERC aceitou.

Esses votos serão suficientes caso os republicanos consigam os votos favoráveis das bancadas da CUP - com quem já têm acordo - e dos Comuns, com quem agora negoceiam. Fora destes cenários está o PS catalão, que foi o mais votado na eleição de fevereiro, após o veto anunciado pelos partidos independentistas à sua presença num futuro executivo. Os Comuns tentaram que os socialistas dessem o apoio a um governo minoritário da ERC, tornando dispensáveis os votos do JxCat na investidura, mas Salvador Illa insiste em apresentar-se ele próprio como líder da Generalitat, enquanto candidato mais votado na eleição, apelando ao apoio das restantes forças da esquerda.

Terminadas as negociações com o JxCat, Pere Aragonès começou esta segunda-feira a ronda de reuniões com os Comuns, que junta o Podemos catalão a outras forças e alcançou oito deputados. A líder do En Comú Podem, Jessica Albiach, diz que vê com bons olhos esta “emancipação” da ERC em relação ao JxCat e que há vontade para um entendimento, se a sua força política puder ser “a garantia que o JxCat não governará pela porta das traseiras”, uma vez que o seu programa económico, diz Albiach, é parecido com o de Isabel Díaz Ayuso, que acaba de vencer as eleições na região de Madrid pelo PP. Na primeira sessão de investidura, o En Comú Podem votou contra, argumentando que a ERC tinha preferido um acordo com o JxCat em vez de negociar à esquerda.

Também o líder parlamentar da bancada que junta a Unidas Podemos e as suas confluências no parlamento espanhol, Jaume Asens, disse esta terça-feira à TVE que a reunião com a ERC correu bem e que um acordo deve centrar-se “à volta de cinco pontos: recuperação económica, feminismo, transição ecológica, diálogo e liberdade”. A imprensa catalã fala na vontade desta formação em chegar a um “pacto-relâmpago”, à semelhança do acordo de governo com o PSOE a nível nacional, selado em menos de 48 horas de negociação.

Do lado da CUP, a formação anticapitalista pró-independência que viu reforçada para nove deputados a sua bancada em fevereiro, teme-se por um lado que o impasse deite por terra a vitória histórica dos 52% de votos independentistas, mas por outro a falta de vontade dos Comuns em aceitar a possibilidade de celebrar um novo referendo à independência, proposta que integra o acordo já assinado com a ERC. No entanto, veem com naturalidade a falta de acordo entre as duas principais forças independentistas do governo cessante, cujo mandato ficou marcado pela permanente tensão entre os parceiros. “A ERC e o JxCat têm de clarificar quais são as suas estratégias, quais são as suas diferenças. Esse desconhecimento apenas gera mais frustração”, afirmou esta terça-feira a deputada Eulàlia Reguant à TV3.

Os próximos dias serão decisivos para se conhecer o desfecho deste impasse político e se o eventual acordo ERC-Comuns incluirá a presença destes no Governo. Nesse cenário, não é seguro que o JxCat mantenha a sua “oferta” dos quatro votos necessários para viabilizar a investidura. A única certeza é de que à falta dessa maioria, o eleitorado catalão voltará a ser chamado às urnas na segunda quinzena de julho.

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