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Casas em Lisboa são quase três vezes mais caras do que nos arredores

Nos últimos três anos, registou-se um aumento considerável do valor das casas, principalmente no centro da cidade. O preço do metro quadrado subiu, em alguns casos, mais de 37%.
Neste contexto, torna-se difícil encontrar um imóvel de setenta metros quadrados - um T2, por exemplo - por menos de 238 mil euros, ou um T3 com cem metros quadrados por menos de 300 mil euros.. Foto de Paulete Matos.

Segundo dados facultados pela Confidencial Imobiliário ao DN/Dinheiro Vivo, no final de 2016, o preço médio por metro quadrado na cidade de Lisboa era de 3404 euros. Já em Cascais, o valor descia para 2293 euros por metro quadrado e, em Oeiras, para 1865 euros. Em Sintra pagava-se 1219 euros por metro quadrado.

Se tivermos em conta os preços de compra de casa na margem sul, a discrepância é ainda maior.

No Barreiro, o preço médio por metro quadrado rondava os 884 euros, o equivalente a quase quatro vezes menos do que em Lisboa, e no Montijo os 879 euros.

Neste contexto, torna-se difícil encontrar um imóvel de setenta metros quadrados - um T2, por exemplo - por menos de 238 mil euros, ou um T3 com cem metros quadrados por menos de 300 mil euros.

A freguesia de Santo António, que abrange a Avenida da Liberdade e o Príncipe Real, é a mais cara, com o metro quadrado a ascender a 5254 euros. 4000 euros é o preço por metro quadrado em Santa Maria Maior, Avenidas Novas e freguesia da Misericórdia.

A zona com os preços menos elevados é Santa Clara, que engloba as antigas freguesias da Charneca e Ameixoeira. Os valores atingem os 1531 euros por metro quadrado. Em Marvila e Beato rondam os 2000 euros por metro quadrado.

Um estudo da JLL citado pelo DN/Dinheiro Vivo assinala que o mercado de luxo tem crescido. Em 2016 a consultora imobiliária registou 800 novos fogos, com preços entre 3500 e 8000 euros por metro quadrado, nas principais zonas da capital. Neste segmento, o aumento do valor das casas nos últimos três anos é de 19%.

Entre maio de 2013 e maio de 2016, o número de casas para venda diminuiu. A quebra foi de 47% em Lisboa, 17% no Porto e 15% a nível nacional.

O aumento nos preços e a diminuição da oferta em Lisboa, com particular incidência no centro da cidade, são ainda mais flagrantes no que respeita ao arrendamento.

Entre maio de 2013 e maio de 2016, e segundo dados do Casa Sapo, a subida das rendas atingiu os 39% em Lisboa e os 45% no Porto. A nível do país o aumento alcançou os 39%.

Já a queda no número de casas para arrendar foi de 75% em Lisboa e 84% no Porto. Em duas freguesias lisboetas a diminuição registada nos últimos três anos superou os 90%: Olivais (94%) e Estrela (91%). Mas a tendência é comum em todo o país, que registou, na globalidade, uma redução de 71%.

A par dos moradores, também os proprietários de lojas históricas em Lisboa têm sentido na pele as consequências desta realidade.

Conforme avança a União das Associações de Comércio e Serviços (UACS), das 300 lojas que compunham o programa "Lojas com história", da Câmara de Lisboa, cerca de 120 fecharam, e está mais uma em risco - a loja de confeções Paris, na Rua Garrett.

O recorde de investimento estrangeiro em compra de habitação, a revbitalização do crédito à habitação, mas também o crescimento desmesurado de hotéis e hostels – lembre-se que, em 2014, o vereador do urbanismo, Manuel Salgado, referindo-se ao licenciamento que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) faz de hotéis, afirmou que não compete à CML “fazer uma regulação do mercado”, algo que, em seu entender, nem sequer seria “desejável”-, e a proliferação do Alojamento Turístico, com arrendamentos de curta duração, através de plataformas como a Airbnb, são apontados como algumas das razões que justificam esta tendência.

A nova Lei das Rendas, permitindo que um proprietário despeje os seus inquilinos alegando a necessidade de obras estruturais, para depois transformá-lo num hotel, hostel ou apartamento turístico, bem como a ausência de efetivas restrições à atribuição de licenças a unidades hoteleiras ou alojamento local, agudizam este fenómeno.

Carta aberta "Morar em Lisboa"

Na carta aberta “Morar em Lisboa”, que ainda está em fase de recolha de assinaturas, associações cívicas como Academia Cidadã, Associação de Inquilinos Lisbonense, Associação de Moradores do Bairro Alto, Coletivo Habita, Associação pelo Património e População de Alfama, Renovar a Mouraria e “Quem Vai Poder Morar em Lisboa?” e personalidades como o arquiteto Manuel Graça Dias exigem “uma nova política de habitação e de ordenamento do território”.

No documento, os signatários defendem mecanismos de controlo das rendas, impedimento de despejos sem ser assegurado realojamento, diferenciação fiscal para fins turísticos e incentivos para colocação de edifícios devolutos no mercado, assinalando que o apoio estatal ao investimento privado no ramo imobiliário aumentou drasticamente os preços da habitação e expulsou moradores do centro da cidade.

Os subscritores assumem-se ainda “profundamente preocupados” e pedem intervenção das autoridades públicos para que a “capital, que se pretende habitada, plural e diversificada, uma cidade para ser vivida por todos e não apenas aceleradamente consumida por alguns". 

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