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Carmo Vicente: “O 25 de Abril começou logo em Fevereiro de 1927”

Dois dias antes das eleições legislativas de 76, chegou, inesperadamente, o meu "Mandado de Soltura". Cá fora brilhava um radioso sol de Abril, tal como dentro de mim... Por Carmo Vicente.
Carmo Vicente, sargento paraquedista, Militar de Abril, e membro da ADFA - Associação de Deficientes das Forças Armadas

Desci as escadas do Forte, aquelas mesmas escadas por onde durante tantos anos desceram e subiram homens que lutaram pela liberdade. Homens que acreditavam que valia a pena correr o risco de serem presos, torturados ou mesmo mortos, por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Desci aquela escada devagar, a pensar em quantas lágrimas teriam caído naqueles degraus de subir e de descer. Quanta coragem, quanto desânimo, quanta raiva, quanta esperança e desesperança dos prisioneiros... e quanto ódio e estupidez de carcereiros e pides estariam impregnadas naquelas paredes... naqueles muros que me tinham cercado naqueles últimos meses.

À saída encontrei o velho escuta dos telefonemas dos presos.

"O homem já não ouve nada", dissera-me uns dias antes um dos carcereiros.

Olhei para ele, mas nem deu por mim, embrenhado na sua faina diária... de ouvir conversas alheias.

Ele há cada profissão!

Finalmente a porta abriu-se e dei por mim a cantar baixinho: Ó liberdade, como é bom, é bom, é bom...Ó liberdade, como é bom viver...

Cá fora brilhava um radioso sol de Abril, tal como dentro de mim...


Falar do 25 de Abril 45 anos depois... não é tarefa fácil e, ainda mais, quando existem por aí tantos a reivindicar a sua participação activa no evento, que nunca foram vistos nem no dia nem nos meses que se seguiram.

Primeiro, tentaram ser heróis de Novembro e até tiveram alguns seguidores. Proclamavam aos quatro ventos que o 25 de Novembro é que foi o dia em que Portugal ganhou a tão sonhada liberdade... o 25 de Abril tinha sido apenas um golpe de estado feito por alguns militares de baixa patente com o simples intuito de melhorar as suas carreiras e uma melhor retribuição salarial. O resto tinha sido obra dos comunistas que se apropriaram do poder.

Como a propaganda não pegou... viraram-se novamente para Abril! E, de repente, todos tinham tomado parte nas conspirações de antes e depois. Pelas rádios, canais televisivos, e sobretudo nas redes sociais, surgiram "militares de Abril" que nunca tinha visto nem ouvido falar, que nunca encontrei durante os meses da revolução, passaram a falar, a escrever sobre o assunto, enquanto os verdadeiros feitores de Abril são completamente esquecidos e até vilipendiados.

Mas, afinal, quem se empenhou para que Abril se tornasse revolução foi uma pequena minoria de militares, não tivessem sido esses poucos e o 25 de Abril não passaria de mais uma revolta militar, que Spínola conduziria a seu belo-prazer, continuando a guerra nas colónias até à derrocada final e mais umas dezenas de milhar de mortos dos dois lados do conflito.

A chamada Junta de Salvação Nacional saída do 25 de Abril cheirava a naftalina, todos velhos filhos e leais servidores do Regime deposto, atesta bem a ingenuidade da maioria dos capitães. E, não fosse essa pequena minoria mais esclarecida, que queria mesmo acabar com o fascismo, continuaríamos cantando e rindo num poder musculado, comandado por Spínola que queria apenas mudar o suficiente para que tudo ficasse na mesma...

O general do monóculo aceitou as imposições do MFA [Movimento das Forças Armadas] porque a sua ânsia de poder era ainda mais forte que as suas convicções, e porque pensou que o desenrolar dos acontecimentos lhe seria favorável, ganhando assim tempo para conseguir conduzir as coisas no sentido desejado. Alguns dos capitães, e o povo com que de todo não contava, ditaram a sua sorte. A tal "Maioria Silenciosa" por si mobilizada para acabar com os ímpetos revolucionários de uma parte do MFA afinal era muito minoritária, e o levantamento popular fez o resto, o que o conduziu rapidamente à demissão do cargo de Presidente da República a que o golpe dos capitães o tinha guindado.

Vencido mas não convencido, o "Homem do Mato" como gostava de se intitular, nunca cheguei a perceber porquê, foi fazendo o seu trabalho de sapa, servindo-se de alguns fieis que o seguiam sem fazer perguntas, como era o caso do Comandante dos para-quedistas e outros. E, em 11 de Março de 1975, tenta novo golpe com o ataque ao RALIS, que teve o desfecho conhecido... e o obrigou a desertar para Espanha, desviando helicópteros da Força Aérea para se transportar e à sua comitiva, deixando por cá muitos dos seus fieis servidores entregues à sua sorte.

Foi a partir do 11 de Março que a Revolução deu um salto no sentido de modificar o rumo. Fizeram-se as Nacionalizações da Banca e dos Seguros, a Reforma Agrária reforçou-se, o povo trabalhador, através da luta e dos sindicatos, ganhou poder reivindicativo.

Spínola fugiu, mas deixou por cá muitos dos seus seguidores incrustados nos mais altos cargos com poder de influência e decisão. O Grupo dos Nove, formado por militares, ditos moderados, agrupou à sua volta todos os reaccionários existentes no território nacional e os que, devido ao "Grande Cagaço" provocado por Abril, se tinham passado com armas e bagagens para o Brasil e outras paragens... Todos juntos, com o PS de Mário Soares a marcar o ritmo, e a ajuda do ciático Frank Carlucci, começaram a contar as espingardas para dar o xeque mate na revolução de Abril. Pelo Norte do País, as sedes dos partidos de esquerda, MDP-CDE, PCP, UDP eram assaltadas em plena luz do dia por arruaceiros ao serviço da contra-revolução, perante a passividade das FFAA [Forças Armadas] ali instaladas em que pontificava Pires Veloso, o tal vice-Rei do Norte, e das Forças de Segurança, que, em vez de evitarem o problema, eram, por vezes, parte dele, dando protecção aos assaltantes, não esquecendo o Cónego Melo a marcar o compasso do Clero mais reaccionário do mundo. Acrescentemos a este bando o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) de Alpoim Calvão e Spínola, e o ELP (Exército de Libertação de Portugal) que integrava a chamada Rede Bombista, não esquecendo o altamente protegido bombista mor, Ramiro Moreira, e temos completo o ramalhete.

As provocações aos revolucionários e à chamada esquerda militar não ficariam por aqui, há que juntar-lhe outras como a destruição à bomba da Rádio Renascença por bombistas encartados, a mando do governo, pela calada da noite, e sob escolta de uma Companhia de Para-quedistas, com a informação de que os emissores da Buraca estavam altamente protegidos por guerrilheiros tupamaros e por centenas de operários da Cintura Industrial de Lisboa, o que se veio a verificar ser mais uma torpe mentira, que poderia ter tido consequências graves não fosse o alto sentido de responsabilidade dos militares que ali foram enviados.

A ordem do Chefe do Estado Maior da Força Aérea, General graduado Morais da Silva, para desactivar a Base Escola de Tropas Para-quedistas e a consequente "deserção dos 123 de Tancos", a falta de organização da chamada esquerda militar, que acreditou numa chefia sem estofo nem capacidade militar ditaram a sorte da Revolução.

Ufanos da sua vitória, os dias que se seguiram ao 25 de Novembro foram de vingança. Os Nove organizaram uma espécie de caça aos seus camaradas vencidos e, em escassos quatro dias, enfiaram em Custóias, Santarém e Caxias mais de duzentos oficiais sargentos e praças. Seguiu-se um fartar vilanagem de interrogatórios, tentando pôr camaradas a delatar outros camaradas em troca da liberdade. No que respeita aos para-quedistas, cerca de 150 sargentos foram afastados do serviço activo e até proibidos de entrar em instalações militares, o que, em alguns casos, chegou aos sete anos, e depois expulsos da Unidade a que tinham dedicado toda a sua juventude para o Exército, o que implicou uma expulsão da Força Aérea. Outros tiveram ainda menos sorte, foram passados à reforma compulsiva pelos Conselhos Superiores das Armas, que funcionaram como uma espécie de tribunais plenários salazaristas.

É claro que nunca houve julgamento, os vencedores, tendo chegado à conclusão que sairiam dele como réus, safaram-se com uma Amnistia, que lhes serviu mais a eles que aos vencidos.

Eu tenho muita honra de ter sido um dos vencidos.

Os vencedores do 25 de Novembro são em minha opinião os percursores do (como disse Salgueiro Maia) Estado a que isto chegou.

Apesar de tudo, não sou dos que dizem que isto está pior que antes. Mudou muita coisa, entre as quais podermos estar aqui a falar sem medo de poder ser preso à saída, ou de algum vampiro, pela noite calada, nos ir buscar a casa, mas não nos iludamos: a liberdade de expressão só funciona para quem não tem de ganhar o pão nosso de cada dia. O medo do chefe, do patrão, o medo de perder o emprego, o medo de ser sindicalizado, está presente em todos os que trabalham por conta de outrem. E se já não existe um qualquer coronel de lápis azul em riste, existe uma outra censura, imposta pelo medo que faz debitar apenas a voz do dono, a que muitos poucos conseguem escapar.

Os velhos da minha aldeia já não têm de trabalhar até morrer... ou viver a expensas dos filhos, como antigamente. Os 300 euros de reforma vão chegando para sobreviver, embora, muitas vezes, tenham de optar entre comprar os medicamentos para continuar vivos e o frango para guisar.

Finalizo dizendo que o 25 de Abril de 1974 começou logo em Fevereiro de 1927, e foi-se construindo nas revoltas que se seguiram como a da Sé, de Beja, dos marinheiros, dos vidreiros e muitas outras, construiu-se nas prisões fascistas do Aljube, Caxias, Peniche, no Campo de Concentração do Tarrafal, S. Nicolau e Ataúro, com os assassinatos de Humberto Delgado; Dias Coelho, Alex, Ribeiro Santos, e muitos outros, nos milhares de mortos da Guerra Colonial de um e outro lado do conflito, nos milhares que por lá deixaram parte dos seus corpos e das suas mentes.

Esses são os meus heróis de Abril.


Intervenção de Carmo Vicente nas comemorações do 25 de Abril na ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas

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