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Carme da Silva: “Estacionar um carro não é um direito, é um privilégio”

A dirigente do Bloco Nacionalista Galego passou por Braga no âmbito do Roteiro Pela Justiça Climática. Falou sobre a revolução na mobilidade em Pontevedra, na Galiza: as pessoas passaram a estar no centro em vez dos carros. Há 11 anos que não há mortes por atropelamento nem acidentes rodoviários graves e a população aumentou 33%.
Carme da Silva, dirigente do Bloco Nacionalista galego. Fotografia: Facebook Carme da Silva

Situada na Galiza, Pontevedra é uma cidade com cerca de 82 mil habitantes. Em 1999, o Bloco Nacionalista Galego ganhou as eleições autárquicas e Miguel Anxo Fernández Lores assumiu o lugar de presidente da Câmara. Desde então, tem vindo a operar-se uma revolução na mobilidade desta cidade. 

Carme da Silva, do Bloco Nacionalista Galego, integra o executivo de Pontevedra e é coautora do livro “Pontevedra, outra mobilidade, outra cidade. A experiencia de transformación 1999-2015” da Fundación Pons.

No início de julho, esteve em Braga a convite do Bloco de Esquerda, no âmbito do Roteiro pela Justiça Climática. 
 

Pontevedra: uma cidade sem carros

“Pontevedra é uma cidade conhecida internacionalmente como uma cidade sem carros” começou por referir Carme da Silva, acrescentando que têm unicamente “os carros que a cidade precisa para funcionar. Com isso, 70% dos carros desaparecem”. 

“As cidades do século XX estão pensadas para o carro particular, designadamente para homens, de 40/45 anos que saem de casa de carro e voltam a casa de carro. Não estão desenhadas para as crianças que têm que ir à escola, nem para as pessoas idosas, nem para as mulheres” afirmou, exemplificando que as mulheres, mesmo quando se deslocam de carro para o trabalho, fazem várias outras coisas ao longo do dia: “vão às compras, levam a criança ao colégio, levar as pessoas mais idosas ao médico, fazem muitas outras coisas”. 

“Quando damos a volta a uma cidade pensada a partir deste pensamento patriarcal, invertemos este paradigma e damos uma visão de género ao desenho urbano, conseguimos fazer cidades que servem os homens que vão de carro para trabalho e voltam a casa, mas que também servem as crianças que vão para a escola, que servem as mulheres que vão seguras pela rua, que servem as pessoas idosas, que servem as pessoas que se deslocam em cadeira de rodas. É uma inversão do paradigma patriarcal”.

Uma cidade para todas as pessoas

As transformações operadas em Pontevedra ao longo dos últimos anos começaram com uma preocupação: “colocar as pessoas no centro” refere Carme da Silva. E clarifica que a atenção às pessoas significa reconhecer o usufruto da cidade para todas as pessoas, ou seja, os peões (que se deslocam na cidade) mas também disponibilizar a cidade “a quem passeia, namora, está sentado. Fazemos muito mais nas cidades do que deslocar-nos”.

Do ponto de vista da mobilidade, “a prioridade devem ser sempre as pessoas, depois as bicicletas, os transportes públicos coletivos e só depois o carro e apenas os que forem precisos. Com esta medida consegue-se uma cidade muito mais segura” refere a dirigente, lembrando que “Pontevedra foi a primeira cidade a ter a velocidade máxima de trinta quilómetros hora. Agora temos vias de vinte, dez e cinco quilómetros”.

“Conseguimos uma cidade mais igualitária, que serve para todas as pessoas. Mais justa, porque o espaço público tem melhor qualidade e não está ocupado pelos carros privados” disse, acrescentando que “num espaço público assim, todas as pessoas têm os mesmos direitos. É uma cidade feminista, as mulheres são protagonistas; podemos fazer a nossa vida em igualdade de condições. Quando vamos para casa, não temos que ser valentes. Os homens não têm que pensar qual o caminho irem para casa; vão pelo mais curto. Nós temos que pensar em qual é o caminho mais seguro”.

Com estas medidas, a cidade de Pontevedra mudou e a qualidade de vidas das pessoas também.

Desde 2011 não há nenhuma morte por atropelamento. Não há acidentes rodoviários graves. A população aumentou 33%. A emissão de CO2 diminuiu em 60%. O uso de carro privado baixou 70%. 72% das deslocações na cidade são feitas a pé e 80% das crianças vão a pé para a escola. A qualidade do ar é boa todos os dias do ano.

Um projeto político para melhorar a vida das classes populares

“Muitas vezes perguntam-nos: como foi isto possível em Pontevedra. E nós dizemos: está a ser possível em Pontevedra por causa do Bloco Nacionalista Galego. Dizemos com orgulho e porque é preciso um projeto político que queira transformar a realidade para melhorar a qualidade de vida das classes populares, de todas pessoas. Nem conservadores, nem liberais nem sociais-democratas, que há anos governam muitas cidades, puseram em prática um projeto com estas características. Convidam-nos muitas vezes a fazer fóruns e debates, mas na hora da verdade, não fazem”.

Carme da Silva explicita que este é um processo de transformação da cidade e do sistema e não apenas para “por as cidades mais bonitas e fazer umas ruas pedonais”. 

A dirigente galega destaca também a importância do debate com as populações: “Quando se propõe à sociedade uma mudança tão radical no paradigma do espaço urbano, é preciso debater, para bem da sociedade”. 

Este sistema faz com que algumas pessoas tenham que “renunciar a privilégios e não fazê-lo facilmente” concluiu Carme da Silva, exemplificando: “estacionar um carro não é um direito, é um privilégio”.

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