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Carlos Cardoso foi morto há dez anos

A 22 de Novembro de 2000, o jornalista Carlos Cardoso foi assassinado a tiro numa rua de Maputo quando seguia para casa após um dia de trabalho. Moçambique perdeu um jornalista sem medo, comprometido com a verdade e a justiça. Tinha 48 anos. Por Nuno Milagre.
Mural na Avenida Mártires da Machava, assinalando o local onde Carlos Cardoso foi assassinado a tiro. Foto de Vasco Costa.

Estava na altura empenhado na investigação de uma fraude de 14 milhões de dólares relacionada com a privatização do Banco Comercial de Moçambique, que implicava proeminentes homens de negócios.

Cardoso fundou e dirigia o jornal de distribuição por fax, Metical, onde publicava as suas investigações sobre temas incómodos, assuntos que a restante imprensa não ousava aprofundar. O seu assassinato foi um claro aviso aos jornalistas para que não interferissem nos interesses dos poderosos.

Filho de pais portugueses, Carlos Cardoso nasceu na Beira, cidade do centro de Moçambique. Permaneceu no país após a independência onde desempenhou cargos médios no Governo ligados aos media; foi conselheiro de Samora Machel e trabalhou como editor na agência noticiosa estatal, a AIM, que deixou em 1989.

Coração independente*
 
Abandonou o jornalismo por três anos, mas em 92 voltou à imprensa escrita. Integrou a Mediacoop para lançar o mediaFAX, jornal de assinatura distribuído por fax, que rapidamente se tornou numa referência da imprensa moçambicana pelo seu rigor e interesse noticioso num cenário quase generalizado de informação previsível sob controlo governamental.

A sua intransigência em publicar não só com rigor, mas com total independência levou-o a deixar o mediaFAX, entretanto estagnado pela aura adquirida, e fundou o Metical em 1997, onde viria a publicar nomes de beneficiários da fraude do BCM e desafiar a justiça a fazer cumprir a lei, o que desencadeou a conspiração para o matar.
 
Os autores materiais do homicídio foram presos, e perante o tribunal, prestaram depoimentos implicando no caso, como mandante do crime, o empresário Momade Assife Abdul Satar, que por sua vez, implicou Nyimpine Chissano, filho do então Presidente da República, Joaquim Chissano. Novas acusações fizeram abrir o processo autónomo ao “caso Carlos Cardoso”. Em ambos os processos, as audições a réus e testemunhas engrenaram numa infindável rede de testemunhos contraditórios, assim como mudanças nas versões de acontecimentos por parte de vários depoentes em tribunal. O julgamento do assassinato do jornalista foi repetido após a recaptura de Aníbal dos Santos, conhecido como Anibalzinho, o homem que foi pago para organizar e pôr em prática o crime e que por três vezes se evadiu da prisão; fugas improváveis, sempre com evidência de ajuda externa, duas das quais da cadeia de máxima segurança da Machava, nos arredores de Maputo.
 
Seis pessoas foram condenadas em 2003 a penas superiores a vinte anos de prisão. Anibalzinho e os outros dois homens que se encontravam no carro de onde saíram os disparos que mataram o jornalista, assim como Momade Satar, o seu irmão Ayob Abdul Satar e Ramaya Vicente, como autores morais e mandantes do crime; os três estavam envolvidos na fraude do BCM. Mas quase oito anos depois da abertura do processo autónomo ao caso Cardoso, a justiça não conseguiu condenar nem absolver os acusados neste processo, tendo entretanto morrido duas figuras centrais deste caso, Nyimpine Chissano em 2007, e a empresária Cândida Cossa, há duas semanas, no início de Novembro.
 
A fraude no BCM atraiu a atenção internacional dos media para a corrupção em Moçambique. A insuficiência da justiça no julgamento do assassinato de um jornalista manteve a atenção sobre a falta de liberdade de imprensa e a debilidade dos tribunais perante os poderes político e económico do país.

Carlos Cardoso personificou a integridade como cidadão e jornalista, colocou a verdade e a justiça acima de todos para o bem de Moçambique. Moçambique não conseguiu apurar toda a verdade nem fazer-lhe toda a justiça.


* Carlos Cardoso Coração Independente é o título do documentário sobre Carlos Cardoso realizado pelo sul-africano Rehad Desai, produzido por João Ribeiro (2001 Cool/Uhuru Pictures, 33 min).


Artigo de Nuno Milagre.

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