Está aqui

Câmara do Porto condena censura à exposição no Conde de Ferreira

O voto proposto pelo Bloco de Esquerda foi aprovado com os votos contra do PSD. Depois de fechar a sala onde se expunham obras alusivas ao passado esclavagista do homem que dá o nome ao hospital, a Misericórdia do Porto retirou as que mais a incomodavam.
Cravo junto a uma das obras que escaparam à censura da Midericórdia do Porto.
Artistas apelam aos visitantes para levarem cravos e fotografá-los junto às obras que sobraram da exposição censurada. Foto publicada no Instagram de Dori Nigro.

O executivo municipal do Porto aprovou o voto proposto pelo Bloco de Esquerda a exprimir a "condenação veemente da atuação da Santa Casa da Misericórdia do Porto ao encerrar, de forma inusitada, o espaço expositivo patente no Centro Hospitalar de Conde Ferreira, relativo à instalação Adoçar a alma para o Inferno III, da autoria de Dori Nigro e de Paulo Pinto".

No voto aprovado apenas com os votos contra dos vereadores do PSD, a Câmara Municipal, que co-financia a exposição, faz a sua "demarcação veemente de qualquer ato vexatório da liberdade artística, particularmente quando tal ato é cometido no quadro de uma iniciativa financiada pela CMP".

O ato de censura ocorreu em plena inauguração da exposição a 19 de maio. Meia hora depois de ser inaugurada, uma das salas foi encerrada por ordem do administrador executivo do centro hospitalar tutelado pela Santa Casa da Misericórdia do Porto (SCMP), Ângelo Duarte. O administrador não terá gostado de uma das obras da instalação Adoçar a alma para o inferno III, em particular dos espelhos com inscrições alusivas ao passado esclavagista de Joaquim Ferreira dos Santos (1782-1866), o primeiro Conde de Ferreira que deixou em testamento as verbas que serviram para construir o hospital e mais 120 escolas primárias.

“Quantas pessoas escravizadas valem um hospital psiquiátrico? Quantas pessoas escravizadas valem 120 escolas? Quantas pessoas escravizadas valem os títulos de nobre e benfeitor?”, são as perguntas inscritas um dos espelhos que poucas pessoas tiveram a oportunidade de ver antes que um funcionário da SCMP aparecesse com tábuas e um berbequim para selar a porta da sala. Na semana passada, a Misericórdia mandou reabrir a sala e retirar as peças da instalação Adoçar a Alma para o Inferno III com referências ao passado esclavagista do Conde de Ferreira.

No debate da proposta bloquista, o presidente da Câmara juntou-se à iniciativa, considerando a intervenção da Misericórdia "um ato de censura inaceitável". À Misericórdia do Porto, deixou um conselho: “Se tinha dúvidas, devia ter-se inteirado previamente. Quem vai à guerra dá e leva”, afirmou o autarca, socorrendo-se da sua experiência pessoal. "Já tivemos exposições organizadas pela câmara em que sou exibido como ‘o Selminho’ e coisas do género e nunca exercemos actos censórios desta natureza. Não devemos permitir que, naquilo em que apoiamos, haja censura, independentemente de podermos concordar ou não com a expressão artística", disse Rui Moreira, citado pelo Público.

Apenas o PSD se opôs à condenação deste ato de censura, com a vereadora Mariana Ferreira Macedo a afirmar que a frase ‘quantos escravos valem um hospital psiquiátrico’ é uma "provocação" e “colocava em causa o trabalho do próprio hospital”, pelo que “no limite, estamos a justificar a arte para dizer coisas que fora dela não são legítimas e agradáveis”.

Nas redes sociais, Dori Nigro reagiu ao novo ato de censura com um apelo a "toda gente que defende a democracia e o direito inalienável à liberdade de expressão" que ao visitar a exposição "Vento(A)Mar" leve um cravo e faça uma imagem dele na sala onde deveria estar a obra completa "Adoçar a Alma para o Inferno III" e depois poste a imagem nas redes sociais com a hashtag #cravaracensura.

Termos relacionados Cultura
(...)