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Brexit: radicalização conservadora ameaça agudizar da crise

Bases conservadoras estão dispostas a quase tudo para garantir o Brexit, cujo falhanço vêem como o fim do seu partido. Apenas um cenário as assusta mais: ver Jeremy Corbyn no poder. Uma dinâmica que favorece o candidato da direita populista Boris Johnson, cada vez mais próximo do poder.
Boris Johnson, o favorito à sucessão de Theresa May. Foto: Foreign and Commonwealth Office/Wikimedia Commons.
Boris Johnson, o favorito à sucessão de Theresa May. Foto: Foreign and Commonwealth Office/Wikimedia Commons.

Na luta pela sucessão de Theresa May à cabeça do Partido Conservador e do governo britânico, Boris Johnson segue na linha da frente, cenário que aumenta as hipóteses de uma saída da UE sem acordo e agudiza as tensões latentes no campo conservador a níveis explosivos. Apesar do "cenário Boris" assustar o grande capital e o establishment de Estado, dois pilares históricos do poder conservador, o impasse do Brexit está a alimentar uma dinâmica de radicalização nas bases do partido que o torna provável. A crise do Brexit promete continuar a agudizar-se.

Esta terça-feira, uma sondagem lançada pela YouGov dá sinais de como o Brexit e o espectro de Jeremy Corbyn no poder se tornaram uma dupla obsessão conservadora que determina todas escolhas e ao mesmo tempo alimenta todos os impasses e contradições. A sondagem perguntou a cerca de 900 membros do partido conservador se preferiam que o Brexit continuasse perante diversos cenários de risco: uma maioria declarou preferir que a Escócia ou a Irlanda do Norte declarassem independência (63 e 59%), que a economia sofresse sérios danos (61%), ou mesmo que o partido conservador desaparecesse (54%), em vez de abdicar do Brexit. Um único cenário faz uma maioria de 51% preferir abdicar do Brexit: ver Jeremy Corbyn e a esquerda trabalhista no poder.

Esta radicalização em torno do Brexit manifesta-se também na opinião de que não concretizar a decisão do referendo de 2016 será o fim dos conservadores: se o país ficasse na UE, 51% dos militantes conservadores acredita que o seu partido nunca mais seria poder, e 29% que não o seria por décadas. Em contrapartida, se o partido tirar o país da UE com um acordo, 52% acredita que poderia ganhar as próximas eleições. E mesmo uma saída sem acordo, cenário considerado impensável até há poucos meses e que assusta todos os setores do capital, dá para 44% dos inquiridos boas hipóteses de vitória nas próximas eleições. Além de Jeremy Corbyn no poder, a ameaça pela direita de Nigel Farage e o seu Brexit Party é o outro espectro que assombra os conservadores.

Perante estes dados, o cenário de Boris Johnson a primeiro-ministro, até há pouco tempo considerada uma figura caricata de recorte trumpiano, está a tornar-se mais plausível. Para um setor cada vez maior dos conservadores, Johnson com a sua popularidade entre as bases conservadoras representa a hipótese de aplacar a direita eurocética intransigente do partido, conter a ameaça de Nigel Farage, e garantir o Brexit e assim a sobrevivência do partido — mesmo que isso signifique uma saída sem acordo. Na primeira ronda de votações, Johnson conseguiu uma grande vitória com 114 votos entre os 313 deputados conservadores, deixando o rival mais próximo na casa dos quarenta votos. Esta semana, alguns dos candidatos eliminados deram-lhe o seu apoio.

Mas o dilema dilacerante dos conservadores parece agravar-se com Johnson: o partido tradicional das classes dominantes e das elites britânicas vê-se empurrado para uma política de Brexit a qualquer preço que choca cada vez mais abertamente com os interesses das mesmas. A volatilidade de Johnson representa um enorme desconforto e risco para as elites britânicas de recorte mais tradicional, como Trump do outro lado do Atlântico. Mas a ameaça de Jeremy Corbyn e de um governo de esquerda parece falar ainda mais alto, dispondo os conservadores a arriscar tudo, incluindo muito do seu legado institucional e de mecanismos de estabilização política ao centro, para o evitar. A crise do Brexit, tudo indica, vai tornar-se ainda mais aguda nos próximos meses.

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