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Brexit: Johnson busca concessões na Europa, parlamento combate saída sem acordo

Com o prazo de saída da UE cada vez mais próximo, Boris Johnson procurou concessões junto de Merkel e Macron, pouco recetivos. No parlamento, multiplicam-se manobras de sucesso incerto para impedi-lo de impor saída sem acordo.
Boris Johson em visita a Angela Merkel, Berlim, 21 de agosto de 2019. Foto: Clemens Bilan/EPA/Lus
Boris Johson em visita a Angela Merkel, Berlim, 21 de agosto de 2019. Foto: Clemens Bilan/EPA/Lus

Com o prazo do final de outubro cada vez mais próximo, as manobras em torno do Brexit sucedem-se rapidamente no Reino Unido. O primeiro-ministro Boris Johnson está num périplo pela Europa, tendo reunido com Angela Merkel e Emmanuel Macron em busca de concessões no acordo de saída. Entretanto, a proposta de Jeremy Corbyn para liderar um governo provisório que adie o Brexit e convoque novas eleições está a colocar pressão sobre os setores pró-UE e centristas, divididos entre o medo do Brexit e a aversão que têm a Corbyn.

Boris Johnson reuniu com Angela Merkel na quarta-feira e com Emmanuel Macron na manhã desta quinta-feira. O mecanismo de salvaguarda na fronteira irlandesa, o já célebre backstop, dominou as atenções. À saída da reunião com Merkel em Berlim, Johnson afirmou que não pode aceitar o backstop, pois "terá efeitos graves num país democrático". "Simplesmente tem de sair", reiterou; e nesse caso "há ampla margem para um bom acordo". Ao mesmo tempo, tentou aplacar os receios de um cenário de saída sem acordo, em que muitos o veem apostado: "Quero ser absolutamente claro com os nossos amigos alemães e com o governo alemão: o Reino Unido quer um acordo".

A chanceler alemã, por seu turno, disse que "o que pode levar dois ou três anos pode também resolver-se em 30 dias. Porque não?". A ambiguidade das suas palavras foi lida na imprensa como um desafio para o governo britânico apresentar dentro de um mês uma proposta sobre o backstop aceitável para todas as partes — tudo o que não foi possível nos últimos dois anos.

Já na manhã desta quinta-feira em Paris, Johnson reuniu com Emmanuel Macron. Em conferência de imprensa no final, Macron também apoiou a ideia de dar 30 dias ao Reino Unido para propor uma solução, mas ressalvou que os princípios por trás do backstop, garantir a estabilidade na Irlanda e a integridade do Mercado Único, são "indispensáveis".

Entretanto, no Reino Unido, todas as atenções se viram para os alinhamentos parlamentares concebíveis para evitar uma saída sem acordo. Os conflitos entre parlamento e governo têm sido um fator central em toda a saga do Brexit, trazendo à tona a grande ambiguidade na divisão de poderes existente na ordem política do país, devido à falta de uma constituição escrita. Uma coisa parece certa: a maioria do parlamento é contra o Brexit sem acordo. Toda a oposição em bloco e boa parte da bancada conservadora querem evitar esse cenário. A questão é de que forma podem impedir Boris Johnson de o impor, caso opte por ele.

Neste momento, a proposta de Jeremy Corbyn de liderar um governo provisório que adie o Brexit e convoque novas eleições, com a promessa de um referendo final a qualquer decisão sobre o Brexit com possibilidade de votar remain, parece a única via legalmente sólida para deter uma saída sem acordo. Mas o cenário de Corbyn em Downing Street, mesmo que provisoriamente, dá calafrios a todo o establishment conservador, centrista, e mesmo a boa parte da bancada parlamentar trabalhista, um bastião da oposição interna a Corbyn pela direita.

Os setores centristas preferem a hipótese de um governo de unidade nacional liderado por uma figura da ala "moderada", trabalhista ou independente. Mas essa possibilidade está a revelar-se impraticável. Corbyn é líder da oposição e não cede no direito de liderar uma hipotética frente contra o no deal. Por outro lado, não há votos suficientes para impor uma cara alternativa. Com a sua proposta, Corbyn aumentou a pressão sobre os setores pró-UE, que fizeram do Brexit o centro de toda a sua política nos últimos anos e também de ataque a ele mesmo. O dilema do centro agudizou-se: se quer evitar um Brexit sem acordo, ou qualquer Brexit, tem de colocar Corbyn no poder. Entretanto, fruto da constituição não-escrita do país, setores conservadores opostos ao no deal procuram ainda um artifício legal que permita fugir ao dilema, impedindo Johnson de seguir essa via sem o tirar do poder.

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