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Breve história da família dos coronavírus (e uma pandemia que nos pode ter escapado)

Neste artigo, o investigador Burtram Fielding fala das várias estirpes conhecidas de coronavírus e volta a levantar a hipótese de a pandemia de 1890, desde sempre atribuída à influenza, possa afinal ter sido causada por um coronavírus.

Desde os anos 60 que os cientistas conhecem as estirpes de coronavírus que afetam os seres humanos. Mas foram pontuais as vezes que estas conquistaram um reconhecimento mais generalizado na última metade do século.

Um exemplo foi quando a síndrome respiratória aguda grave do coronavírus (SARS-CoV) foi identificada em 2003 como a causa de um surto de síndrome respiratória aguda grave (SARS) na China continental e em Hong Kong. Outro foi quando em 2012 o coronavírus da síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS-CoV) levou a um surto da síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS) na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos e na República da Coreia, entre outros países.

Os dois coronavírus foram uma novidade para a ciência. Felizmente, graças a uma combinação de intervenção humana e circunstâncias naturais ainda desconhecidas, ambos os surtos foram contidos.

Em 2020, o coronavírus tornou-se reconhecido em todo o mundo e por esta altura a maioria das pessoas já ouviu falar em síndrome respiratória aguda grave, coronavírus-2 (SARS-CoV-2) ou COVID-19. Mas alguns podem não estar cientes de que o SARS-CoV-2 pertence a uma família de vírus. E tememos que essa família esteja em expansão.

Os cientistas sabem muito sobre os coronavírus detetados em seres humanos. Mas não sabemos tudo. E há a possibilidade ds cientistas não terem identificado uma pandemia de coronavírus que ocorreu no século XIX.

Esta breve introdução analisa a crescente dinastia, bem como a que podemos ter perdido, que poderia ter muito a ensinar aos cientistas sobre o COVID-19 e também sobre a resposta imunológica do ser humano.

Relações familiares

O Comité Internacional para a Taxonomia de Vírus aprovou a nomeação de mais de 40 estirpes de coronavírus. A grande maioria afeta animais. O surto de COVID-19 elevou para sete o número de estirpes de coronavírus que afetam os seres humanos. Destes, quatro são adquiridos em grupos e têm circulado pela população de forma continua há muito tempo.

Os outros três – SARS-CoV, MERS-CoV e SARS-CoV-2 – parecem ter passado recentemente para a população humana. Estes três resultam, preocupantemente, numa alta taxa de mortalidade.

Os coronavírus são todos zoonóticos. Eles começam em animais e podem, depois de mutação, recombinação e adaptação, ser transmitidos aos seres humanos.

Muitos coronavírus detetados em animais causam infeções enzoóticas de longo prazo ou persistentes: eles infetam animais num local específico ou durante uma estação específica. Ao mesmo tempo, esses coronavírus co-evoluíram e adaptaram-se ao hospedeiro reservatório ao longo de muito tempo. Por esse motivo, os coronavírus zoonóticos geralmente não causam sintomas no hospedeiro reservatório. Mesmo se o fizerem, os sintomas são muito leves.

A preocupação, porém, é que esses períodos prolongados de infeção pelas estirpes de coronavírus presentes em animais – juntamente com uma alta taxa de recombinação com outros vírus e uma alta taxa de mutação – aumentem a probabilidade de uma mutação de coronavírus desenvolver a capacidade de infetar outro hospedeiro.

Especula-se que, quando um coronavírus animal entra nesse novo hospedeiro, a gravidade da doença aumenta significativamente, iniciando uma nova ronda de adaptação entre o coronavírus e o novo hospedeiro. Especula-se – mas ainda não está comprovado – que somente após um período muito longo de adaptação e co-evolução, o novo hospedeiro se poderá adaptar o suficiente ao vírus para poder combatê-lo de maneira mais eficaz. Isso resultaria em sintomas mais leves.

relatos de que as sete estirpes de coronavírus que afetam os humanos têm como hospedeiros intermediários e amplificadores os mamíferos domésticos e selvagens. Isso significa que fizeram a transição para os seres humanos, através de alguns outros animais, depois de provavelmente terem sido provenientes de morcegos e roedores.

Os quatro coronavírus presentes em humanos que são adquiridos na comunidade – o que significa que são adquiridos ou surgem na população em geral – geralmente causam sintomas leves, como a constipação comum. Dois deles, hCoV-OC43 e hCoV-229E, são responsáveis por 10% a 30% de todas as constipações comuns desde a década de 1960.

Embora esses coronavírus causem infeções ao longo do ano, ocorrem picos de infeções durante o inverno e os primeiros meses da primavera. Como em outros vírus respiratórios, como o vírus influenza, as razões para isso não são totalmente claras. Essa família de coronavírus que afetam os seres humanos, geralmente infetam todas as faixas etárias e são comuns múltiplas re-infeções durante toda a vida útil dos seres humanos.

Um que podemos ter perdido

Nas ciências biológicas, a datação molecular é usada para estimar a idade dos eventos evolutivos e tem sido frequentemente utilizada para investigar a origem de epidemias virais.

Em 2005, uma equipa de investigação da Bélgica postulou que o ancestral do hCoV-OC43 – um dos atuais coronavírus detetados em humanos responsáveis pela constipação comum – transitou do gado bovino para o ser humano, levando ao que eles descreveram como uma “pandemia de doença respiratória registada por volta de 1890”.

Os investigadores argumentam que, na segunda metade do século XIX, uma doença respiratória altamente infeciosa e com uma alta taxa de mortalidade, agora conhecida como pleuropneumonia contagiosa bovina, afetou manadas de gado bovino em todo o mundo. Embora a maioria dos países industrializados tenha realizado, no período entre 1870 e 1890, operações de despiste em grande escala e tenha sido capaz de erradicar a doença no início do século XX, é plausível que os trabalhadores dos matadouros, tratadores de animais e agricultores possam ter sido expostos ao coronavírus através das secreções respiratórias de gado bovino infetado com o vírus.

No mesmo período em que possivelmente ocorreu a passagem deste coronavírus da vaca para o ser humano, espalhou-se pelo mundo uma pandemia atribuída à influenza. Esta pandemia de 1889 a 1890 foi caracterizada por uma sensação geral de doença e desconforto, febre e sintomas fortes no sistema nervoso central. Durante essa epidemia, os sintomas observados no sistema nervoso central foram, estranhamente, mais acentuados do que em outros surtos de influenza.

A essa pandemia de influenza foram associadas mais de um milhão de mortes e foi noticiado que a taxa de letalidade era maior quanto mais avançada fosse a idade da pessoa infetada; isso significa que os idosos foram mais atingidos, conforme também sugerem os primeiros resultados sobre a COVID-19. Embora a investigação científica moderna tenha vinculado essa epidemia a um vírus influenza H2N2, nunca foram obtidas provas absolutas que vinculassem esse vírus à epidemia. Isso deriva principalmente da falta de amostras de tecido preservado desse período.

Portanto, se o vírus influenza não tivesse sido o responsável pela pandemia de 1889-1890, poderia haver outro culpado? Como o ancestral mais recente da estirpe de coronavírus presente no gado bovino e do hCoV-O43 também foi rastreado por volta de 1890, e sabendo agora que o hCoV-OC43 tem potencial para invadir e atacar o sistema nervoso, pode a pandemia de 1889-1890 ter sido o resultado da transmissão para os seres humanos da estirpe de coronavírus presente na vaca?

Se a resposta for “sim”, a próxima pergunta é a seguinte: pode a adaptação e a co-evolução nos 130 anos desde a pandemia, explicar por que o CoV-OC43 atualmente causa apenas sintomas leves como a constipação comum? Como é que o mesmo vírus que matou um milhão de pessoas na década de 1890 agora não causa mais do que alguns espirros desconfortáveis?

Este poderia ser um estudo de caso importante sobre a imunidade de grupo.

Burtram Fielding é diretor e investigador do Departamento Laboratorial de Biologia Molecular e Virologia da Universidade de Western Cape, na África do Sul.

Texto publicado originalmente no The Conversation a 24 de março.

Tradução de Luís Santos para o Esquerda.net.

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