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Brasil: Vitória de Lula pode ser já na primeira volta

Se ganhar com mais de 50% dos votos válidos, não haverá segunda volta. Sondagens mostram que essa hipótese é real. Apoios na reta final dão impulso a Lula. Bolsonaro tropeça em denúncias de desvios de dinheiros públicos para a sua família. Por Luis Leiria.
Lula no comício de campanha em Grajaú, São Paulo. Foto publicada na página de campanha/Facebook

Na entrada da reta final das eleições gerais de 2 de outubro no Brasil, voltou a abrir-se a possibilidade de o ex-presidente Lula da Silva vencer a corrida presidencial logo na primeira volta, por ter mais de 50% dos votos válidos (descontados brancos e nulos). Ambas as sondagens dos prestigiados institutos DataFolha (ligado ao jornal Folha de S. Paulo) e Ipec (criado por executivos do famoso Ibope) apontam nesta direção. A primeira prevê a vitória de Lula por 50% dos votos válidos, contra 35% do atual presidente Jair Bolsonaro. A segunda, feita dias depois, atribui 52% a Lula, contra 35% de Bolsonaro.

Os resultados vieram dar novo impulso à campanha presidencial do líder do Partido dos Trabalhadores e seus aliados, aumentando a esperança de que, quanto à presidência da República, a corrida termine no próximo dia 2. O segundo turno ficaria assim reservado à disputa pelos governos dos Estados em que nenhum candidato tenha obtido 50% dos votos.

A extrema polarização da campanha para a Presidência entre Lula e Bolsonaro está a ter como consequência uma antecipação, na prática, do segundo turno já para este dia 2, com os eleitores de Ciro Gomes, Simone Tebet e outros a mudarem de opção e escolherem ou Lula ou Bolsonaro. A “terceira via” fracassou de vez, e Ciro Gomes, que atacou tanto Lula quanto Bolsonaro na sua campanha, corre o risco de ter um resultado pífio, muito abaixo dos 9% que as sondagens chegaram a dar-lhe. Ciro retrocede até no seu reduto, o estado do Ceará, onde, segundo o Ipec, caiu de 14% para 10%.

Episódios de violência

À medida em que se aproxima o dia da votação, a tensão aumenta e episódios de violência perpetrada por bolsonaristas já causaram pelo menos três mortes de partidários de Lula. No dia 7 de setembro, no Mato Grosso, o bolsonarista Rafael de Oliveira matou com 70 facadas Benedito Cardoso dos Santos, na sequência de uma discussão sobre as eleições. O criminoso tentou sem sucesso decapitar a vítima e ainda filmou o cadáver. 

Em 26 de setembro, na cidade de Cascavel, estado do Ceará, o bolsonarista Edmilson Silva entrou num bar e perguntou quem votava em Lula. O caseiro Antônio Lima, de uma quinta próxima, levantou-se e declarou o seu voto no candidato do PT. Foi esfaqueado pelo primeiro, e morreu sendo levado para o hospital. 

E ainda estão na memória as imagens de um vídeo de vigilância que registou o polícia Jorge José Guaranho disparando e matando o guarda municipal Marcelo Arruda na festa do seu próprio aniversário, na noite de 9 de julho.

Disparos contra residências com bandeiras do PT, agressões diversas contra militantes da esquerda e até um ataque a um pesquisador do DataFolha são exemplos do dia-a-dia da campanha, com pelo menos um caso de agressão diário.

Origem da violência é Bolsonaro

O clima de tensão e violência que se espalha pelo país tem origem no próprio Jair Bolsonaro, que nunca perdeu uma oportunidade de pronunciar discursos de ódio contra a esquerda, o Supremo Tribunal Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal, as mulheres, os gays, os trabalhadores e uma enorme relação de inimigos, todos identificados invariavelmente com o “comunismo”.

Em julho, o PT enviou à Procuradoria-Geral da República uma petição acusando o presidente da República de incitar à violência política no país. O documento especifica seis momentos de incitação à violência, mas poderia citar muitos mais. 

Os seis escolhidos começam com o famoso discurso no Acre, na campanha de 2018, em que Bolsonaro, agarrando o tripé de uma câmara de TV, simulou estar a disparar uma metralhadora e gritou: “Vamos fuzilar a petralhada!” (referindo-se aos militantes do PT). O último citado é o de uma live na Internet, em maio deste ano, em que Bolsonaro atacou as urnas eletrónicas, consideradas como instrumentos de fraude, mas afirmou que “os eleitores sabem como se preparar”, em referência à invasão do Capitólio por partidários do ex-presidente Donald Trump, numa tentativa de impedir a posse de Joe Biden, que vencera as eleições.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro

Entretanto, o grande lema da campanha bolsonarista de 2018, o ataque à corrupção, passou a ser assunto quase proibido na campanha à reeleição do atual presidente. Isto porque desde há uns anos que as denúncias só têm um alvo: ele próprio e a sua família. 

O caso que monopolizou as atenções durante a campanha foi a denúncia, feita por uma cuidadosa investigação do portal UOL, que concluiu que 51 imóveis dos 107 negociados pelo presidente e seus familiares foram pagos com dinheiro vivo. O uso desta forma de pagamento não é ilegal, mas constitui um indício seguro de que ocorreu lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. As compras, registadas em cartórios com a forma de pagamento em “moeda corrente nacional” totalizaram 13,5 milhões de reais (2,67 milhões de euros).

Bolsonaro justificou-se jurando que nada tinha a ver com uma parte desses imóveis, atribuindo-os a um “ex-cunhado” com quem não teria relações. Ao mesmo tempo, a campanha do Presidente conseguiu, mas apenas por umas horas que a reportagem do UOL fosse retirada da Internet; só que a censura foi derrubada pelo STF, aliás, por André Mendonça, o juiz do Supremo indicado pelo atual Presidente.

Ainda Bolsonaro procurava defender-se da denúncia sobre compra de imóveis, de forma nada convincente, já a Folha de S. Paulo informava que um dos principais assessores do presidente, o tenente-coronel Mauro César Barbosa Cid, teve o seu sigilo bancário quebrado, a pedido da Polícia Federal. A PF encontrou no seu telemóvel a alusão ao pagamento de contas pessoais da primeira-dama e de outros familiares do presidente, mencionando o levantamento de verbas em dinheiro. A investigação procura apurar se esses pagamentos particulares foram feitos com dinheiro público.

Apoios de peso a Lula

Que o feitiço se virou contra o feiticeiro, que o tema corrupção passou a ser uma arma contra Bolsonaro ficou demonstrado pelo apoio do juiz reformado Joaquim Barbosa à candidatura de Lula. Barbosa foi relator no processo do mensalão, que abalou seriamente o governo de Lula e o Partido dos Trabalhadores, provocando a demissão, entre outros, do então ministro da Casa Civil José Dirceu. Em vários vídeos de apoio enviados à candidatura de Lula, Barbosa adverte que Bolsonaro representa um risco à democracia e afirma que Lula é o único que pode derrotar o atual presidente, justificando o seu voto como uma forma de proteger a democracia. 

O apoio de Barbosa foi acompanhado, nos dias seguintes, por outros juízes reformados do STF e pelo ex-ministro da Justiça Nelson Jobim.

Que fará Bolsonaro?

A possível vitória de Lula da Silva no primeiro turno deixará Bolsonaro numa situação complicada: se afirma que a eleição foi fraudada, porá também em causa outras eleições que decorrem simultaneamente: para senador, para os governos dos Estados, para deputados federais e estaduais. As pressões para que aceite o resultado poderão assim vir dos seus próprios aliados, empenhados em garantir os resultados destas outras eleições.

Que fará ele? As ameaças de golpe (ou autogolpe) parecem não ter eco nas Forças Armadas, apesar de haver um setor bolsonarista forte no seu interior. Mas é difícil imaginar os militares brasileiros embarcando num golpe sem o apoio do governo e dos militares dos Estados Unidos, e sem o apoio de uma grande parte da elite do país, dos banqueiros e grandes industriais. Que fará Bolsonaro? Não irá protagonizar uma tentativa de inviabilizar a vitória de Lula com alguma ação semelhante à que os partidários de Trump realizaram no dia 6 de janeiro?

Uma coisa é certa: a derrota eleitoral do atual presidente não será o fim do seu movimento neofascista. Bolsonaro já demonstrou que pode mobilizar nas ruas dezenas de milhares de fanáticos. Derrotá-lo passará pelo regresso do povo às grandes mobilizações da esquerda, exigindo a investigação e prisão do ex-presidente e dos seus filhos envolvidos em corrupção, e a revogação da legislação que Bolsonaro fez aprovar nos últimos 4 anos, contra o povo, em todas as áreas. 

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Jornalista do Esquerda.net
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