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Brasil: Temer ordena repressão aos camionistas

Cinco dias de greve contra os aumentos abusivos dos preços dos combustíveis paralisam o país. Aeroportos sem gasolina, postos de gasolina fechados, transportes públicos reduzidos são o panorama atual. Apesar dos incómodos, a greve conta com simpatia por parte da população. Por Luis Leiria.
Foto de Valter Campanato/Agência Brasil.

Nesta sexta-feira o presidente do Brasil, Michel Temer, ordenou ao exército que reprima a greve dos camionistas, desbloqueando as principais rodovias que estão há cinco dias com o trânsito praticamente interrompido pelas filas de camiões parados. O anúncio foi feito depois de se verificar o fracasso do acordo fechado entre o governo e representantes dos camionistas que estabelecia uma trégua de 15 dias para negociações mais aprofundadas. Uma das entidades presentes, a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam), saiu da reunião afirmando discordar do que ficara estabelecido.

Os vídeos de camionistas irados, gravados pelos próprios com telemóveis e postos a circular nas redes sociais (a imprensa não tem feito qualquer cobertura no terreno), denunciando que eles não tinham sido ouvidos, espalharam-se como rastilho de pólvora e o resultado foi que os efeitos da paralisação aumentaram: eram 402 os bloqueios de estrada no final da manhã de quinta, passaram a ser 521 pontos bloqueados um dia depois. No terreno, a trégua não chegou a existir.

Nas cidades, a greve estendeu-se a outros setores afetados pela alta dos combustíveis, como os motoristas do transporte alternativo (as famosas vans) e também os motoboys, estafetas que na sua maioria são trabalhadores autónomos.

Os camionistas protestam contra o aumento descontrolado do preço dos combustíveis e pedem medidas, como a redução das portagens ou a desoneração de alguns impostos que incidem sobre o diesel. Desde julho de 2017, o preço da gasolina subiu 50,04% e o do diesel 52,15%. No ano passado, o gás de cozinha teve um aumento de 67,8% nas refinarias para as garrafas de 13 quilos, que são usados nas residências.

País à beira da paralisação total

Num país que depende quase exclusivamente do transporte rodoviário, bastaram estes cinco dias de paralisação dos camionistas e de bloqueios das rodovias para se instaurar o caos. Já falta combustível em muitos postos de gasolina e começa a haver desabastecimento de alimentos nos grandes centros de distribuição. O transporte público nas cidades está a ser reduzido e há já 12 aeroportos, incluindo o de Brasília, sem combustível. Dez universidades federais suspenderam as aulas. O presidente da câmara da cidade de S. Paulo, a maior do país, decretou Estado de Emergência.

O aumento galopante dos preços dos combustíveis é explicado pela depreciação do real face ao dólar, pela subida dos preços internacionais do petróleo, mas também pela mudança de política de preços implementada pela Petrobrás desde julho do ano passado. Nessa data, os preços dos derivados de petróleo, que incluem a gasolina, o diesel, o gás de cozinha e até o asfalto passaram a sofrer reajustes diários, refletindo a variação internacional do preço do barril de petróleo. Pedro Parente, o presidente da empresa nomeado por Temer, argumentou que era preciso evitar interferência política e prejuízos financeiros à empresa, o que transmitiria credibilidade aos investidores.

Guilherme Boulos denuncia

“A Crise dos Combustíveis é fruto de uma política desastrosa de Temer e Pedro Parente na Petrobrás”, denuncia Guilherme Boulos, pré-candidato do PSOL à Presidência do Brasil, num vídeo divulgado esta sexta-feira. “Para dar lucro aos acionistas lá fora, eles liberaram os preços e têm utilizado inclusive uma capacidade inferior do que as refinarias nacionais têm.” O resultado, denuncia Boulos, é que parte do petróleo bruto é mandado refinar no exterior, aumentando os custos. O candidato do PSOL culpa também a política tributária do Brasil, que “cobra mais impostos do consumo e da produção e menos da renda e da propriedade” pelos altos preços. Boulos e o PSOL estão a exigir a demissão de Parente e de Temer e a revogação dos aumentos abusivos.

Na hora em que escrevíamos este artigo, estavam para começar em S. Paulo e no Rio de Janeiro manifestações em defesa dos camionistas e contra a repressão à sua greve.

Entretanto, os trabalhadores da Petrobrás também estão mobilizados e apontam para uma grande greve nacional contra o que consideram ser o “desmonte” da Petrobrás por parte do governo.

Nos próximos dias saberemos se o governo de Temer, o que menos apoio popular tem em toda a história do Brasil, sobreviverá a mais esta crise.

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