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Brasil: Bolsonaro quer estrangular universidades

Novo ministro da Educação anuncia corte geral dos orçamentos das universidades federais brasileiras, depois de desistir de um corte seletivo a apenas três. Por Luis Leiria.
O atual ministro da Educação, Abraham Weintraub (de pé) e o seu antecessor, Ricardo Vélez Rodríguez. Foto de Divulgação/MEC
O atual ministro da Educação, Abraham Weintraub (de pé) e o seu antecessor, Ricardo Vélez Rodríguez. Foto de Divulgação/MEC

Em duas semanas consecutivas, o novo ministro da Educação do Brasil, Abraham Weintraub, mostrou que em matéria de trapalhadas não deixa nada a dever ao seu antecessor, Ricardo Vélez Rodríguez, demitido no início de abril. Vélez foi aquele ministro que orientou as escolas para porem os alunos a cantar o hino nacional e filmá-los, entre outros disparates que a sua mente febril ia inventando. Nomeação proposta pelo guru de Bolsonaro, o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, Vélez acabou por cair ao fim de apenas três meses quando até aquele que o indicara se arrependeu. O novo ministro é também um “olavete”. Ex-executivo de banco, especialista em mercado financeiro, a sua única experiência em educação foi dar aulas de Ciências Contábeis.

Ex-executivo de banco, especialista em mercado financeiro, a sua única experiência em educação foi dar aulas de Ciências Contábeis.

As suas decisões desastradas não se fizeram esperar. Primeiro, foi o anúncio, no dia 26 de abril, de que haveria uma redução dos investimentos nos cursos universitários de filosofia e de sociologia para priorizar áreas que, na visão dele, “geram retorno de facto”, como enfermagem, veterinária, engenharia e medicina.

O problema desta decisão, como ficou claro logo depois, é que ela era inconstitucional, porque a autonomia universitária, um princípio constante na Constituição, dispõe que cabe às universidades decidir sobre a distribuição das verbas destinadas aos cursos. Além disso, a medida seria quase irrelevante, do ponto de vista financeiro. Segundo os dados do Censo da Educação Superior de 2017, dos 1.283.431 alunos de licenciatura das universidades federais, 25.904 estão em cursos de filosofia ou sociologia, isto é, apenas 2% do total.

Universidades da “balbúrdia”

Quatro dias depois, tentando fazer esquecer a trapalhada anterior, criou uma nova: anunciou o bloqueio de 30% do orçamento de três universidade federais – a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade de Brasília (UNB). A justificativa dada foi a “balbúrdia” que reinaria nessas universidades: "em vez de procurar melhorar o desempenho académico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas. A lição de casa precisa estar feita: publicação científica, avaliações em dia, estar bem no ranking”, disse o ministro. Exemplos dessa “balbúrdia” dados pelo ministro: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”.

O problema desta decisão era duplo: a justificativa ideológica para os cortes discricionários, totalmente inconstitucional, por um lado; e o facto de essas universidades estarem entre as 20 melhores universidades do país na última edição do RUF (Ranking Universitário Folha) e de as três estarem também entre as 11 instituições brasileiras que mais ampliaram o número de artigos científicos de 2008 a 2017. Isto é, os motivos que o ministro invocara para os cortes eram falsos.

Para disfarçar esta segunda trapalhada, o governo retrocedeu e anunciou a extensão do bloqueio dos recursos a todas as universidades federais.

Política de retrocesso, de pensamento único”

Para Antonio Gonçalves, presidente do ANDES-SN (Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior – Sindicato Nacional), “o governo, para impor sua política educacional, que é uma política de retrocesso, de pensamento único, e de ataque aos direitos fundamentais, elege como prioridade o contingenciamento de verbas das universidades, usando uma argumentação ilegal e inaceitável politicamente”, explica. Gonçalves sublinhou a importância social das universidades federais, destacando que esse novo corte terá impacto em todas as áreas, inclusive no acesso e permanência dos estudantes. “Consideramos fundamental, diante de todos esses ataques, que a categoria adira à greve geral da educação no dia 15 de maio, como preparatória para a greve geral de todos os trabalhadores e trabalhadoras do país”, exortou.

Os comunistas estão no topo do país”

Pode parecer estranho que Weintraub, que segue as ideias do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, tenha uma sanha tão grande pelas faculdades de filosofia e de ciências sociais. Mas o facto é que o guru, que nunca frequentou uma faculdade, odeia todas as universidades. “Educação universitária no Brasil é PALHAÇADA”, escreveu Carvalho do Facebook. “E ninguém venha me dizer que isso é só nas ciências humanas. Quem quer que apareça com um diploma universitário de física ou de biologia é, em cinquenta por cento dos casos, um analfabeto funcional – o que não quer dizer que os outros cinquenta por cento saibam ler além do mínimo indispensável.”

Weintraub já assumiu como missão “vencer o marxismo cultural nas universidades”, num país que vê dominado pelo comunismo: “Os comunistas estão no topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras. Eles são os donos dos jornais. Eles são os donos das grandes empresas. Eles são os donos dos monopólios”. Não, ele não se refere à Coreia do Norte. Refere-se ao Brasil de hoje.

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Jornalista do Esquerda.net
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