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“A branquitude no Brasil é tão eficiente que vira critério de beleza”

Entrevista com a historiadora e antropóloga brasileira Lília Schwarcz, autora de “Brasil: uma biografia”. Por Tiago Ivo Cruz.
Lília Schwarcz. Imagem Café Filosófico CPFL/Youtube

Dois livros essenciais para compreender este aniversário: “Brasil: uma biografia” de Lília Schwarcz, e “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto.

O trabalho de Schwarcz abre com uma análise sobre o autoritarismo e passado escravocrata do Brasil a que poderíamos dar outro título igualmente verdadeiro: uma história de Portugal. É das leituras mais reveladoras sobre o nosso passado comum. Aqui fica um excerto de uma entrecvista com Lília Schwarcz.


Os primeiros capítulos desta biografia poderiam receber antes o título “Uma história de Portugal”. Ou pelo menos do Portugal moderno. Concorda?

Concordo e acho que a historiografia brasileira é uma área com enorme trabalho por fazer. Portugal, que tem uma cultura avançada, não tem uma crítica sobre o sistema de escravidão tão pouco sobre o colonialismo.  Esta biografia é um livro impactado pelos dois grandes pilares, o colonialismo e a escravidão.

Precisamente, estabelece a relação espantosamente clara entre os municípios com as famílias com maior riqueza acumulada e as maiores desigualdades sociais e económicas do Brasil, que só se agravaram nos últimos anos. Há alguma destas famílias que não tenha um passado escravocrata?

[No livro] mostro que temos os grandes mandões que vieram do campo, os grandes aristocratas primeiro da cana do açúcar e, depois, do café já no século XIX. Mas não me restrinjo aos grandes mandões urbanos. Diria que todos os grandes mandões rurais estavam vinculados ao sistema escravocrata. Foram todos grandes proprietários de escravizados e escravizadas. E muitos deles foram traficantes de escravos. Estas famílias não gostam de remexer neste passado brasileiro. Por isso a história do Brasil foi durante muito tempo uma história silenciada.

A agro-indústria são os novos mandões. Mineradores, madeireiros, que têm atacado diretamente as populações indígenas. A grande discussão no Brasil, é a discussão do marco temporal. Porque Bolsonaro quer defender a ideia de governo favorável aos grandes propritérios, quer defender que indígenas são os habitantes de tempos remotos naquelas terras, e não os que vivem atualmente. Esta é uma questão da agenda contemporânea.

Este ensaio foi escrito e publicado na ressaca da ascensão de Bolsonaro. Desde a sua publicação, com uma crise pandémica, crise económica, ambiental e social, o que mudou? Que padrões se agravaram? Falo por exemplo dos femicídios...

Trabalho com um conceito que se chama “marcadores sociais da diferença”. As marcas que a sociedade constrói e que funcionam de forma interseccionada. Não à toa, as grandes vítimas são as mulheres negras e pobres. Os marcadores são género, sexo, geração, região.

A questão do femicídio no Brasil atravessa gerações, regiões bem como a raça. O Brasil tem uma maioria de mulheres, e continua sendo um Estado machista e muito paternalista. A última declaração de Bolsonaro é particularmente elucidativa: disse que chorava muito à noite e na casa de banho, mas que a mulher nunca o vê a chorar e acha que é um machão dos machões. Esta é uma pérola que define uma cultura. Se olharmos para o congresso brasileiro, são todos homens brancos, supostamente heteronormativos de classe média.

Isto é fruto do nosso presente mas fruto do nosso passado também. Se olharmos para as raízes dos bolsonaristas, as pesquisas demonstram que têm em geral 20 a 45 anos. São esmagadoramente homens brancos de classe média e muito revanchistas. São vingadores como dizia o Rúben Fonseca. E acreditam que é culpa da redemocratização a entrada no cenário nacional a entrada de novos agentes sociais. Nomeadamente mulheres, negros e a população LGBT. O machismo atravessa tudo no Brasil.

Mas há mudanças...

O ano de 2020 foi marcado pela crise pandémica mas também será o ano da questão racial. Porque não foi só o ano do George Floyd, que teve imenso impacto no Brasil, como foi o ano do assassinato de Marlene Freitas, no dia da consciência negra, 20 de novembro.

Qual é a consequência do mito da democracia racial dos anos 30, 40, 50? É o mito da meritocracia. Por isso, as pessoas perguntavam-me, “onde está o mérito?”. E eu respondia, “mérito no Brasil é que nem na corrida de 100 metros rasos. Alguns estão 50 metros à frente, outros 50 metros atrás”. Que mérito você tem quando os estudantes vão prestar o vestibular [teste de entrada no ensino superior], onde as melhores escolas de ensino básico e fundamental são privadas? As escolas públicas foram todas sucateadas. Inversamente, as melhores universidades são públicas. O que acontece é que toda a gente passa pelo vestibular, que apaga as diferenças, mas parte da população tem vantagem à partida. É uma situação perversa que resulta no seguinte: na Universidade de São Paulo, onde dou aulas, até à entrada das quotas não tinha mais do que 3% de alunos negros. Agora, lentamente o cenário muda.     

A Educação é uma resposta de longa duração. Quando escrevi este livro não tinha ainda as respostas para a crise pandémica que provou como a pandemia entra com um discurso de ser muito democrática, e rapidamente provou não ser nada democrática porque quem mais morreu no Brasil, das 600 mil vidas desperdiçadas, são pessoas negras que moram nas periferias das cidades do Brasil. A vulnerabilidade não é biológica. É uma vulnerabilidade histórica, social e política.

Precisamos de um Brasil mais republicano, com mais investimento na educação e saúde para, na longa duração, combater as desigualdades quase perene no Brasil.

A recente publicação do triste fim de Policarpo Quaresma inclui uma introdução e notas suas onde descreve a reorganização do Rio de Janeiro, então capital duma república recente, que operou a uma expulsão agressiva das populações pobres para as novas perifeiras, ou os caixotins humanos na expressão do autor. Que Brasil era este de Lima Barreto?

Lima Barreto era um escritor negro que dizia fazer uma literatura negra. No Brasil, com este processo de branqueamento, há outros escritores negros que não diziam fazer literatura negra. Lima Barreto assume essa bandeira.

Os avós de ambos os lados eram escravos. Os pais já não eram. Isso fazia imensa diferença no Brasil imperial. Ambos os pais de Lima Barreto estudaram para serem livres. Sempre quiseram mostrar ao seu filho que a verdadeira liberdade não viria da lei mas sim da Educação. O pai de Lima Barreto era tipógrafo, e a mãe era mestre-escola. Mesmo assim não escaparam do racismo brasileiro. A mãe de Lima Barreto morre muito jovem de tuberculose - a doença que mais matava no Brasil do virar do século XIX a XX. E o pai de Lima Barreto foi o primeiro desempregado da República porque trabalhava no jornal e passou a trabalhar numa colónia de alienados e ele próprio teve depois uma doença, uma neurastenia, da qual nunca recuperou.

Escrevo no meu livro que o racismo mata e leva à loucura. Lima Barreto foi também internado por duas vezes, em 1914 e 1918. Mas nunca foi louco. Bebia. Mas o Brasil que Lima Barreto viveu é um Brasil que prometeu muita inclusão social e entregou muita exclusão social. Se até hoje é difícil falar de racismo no Brasil, imagine o que não era na época de Lima Barreto.

E ele incluía a questão racial nos seus livres. Seja no “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, ou “Clara dos Anjos”, uma mulher negra que acaba grávida e desiludida.

Lima Barreto morreu com 41 anos, desiludido, em 1922, ano da semana de arte moderna em São Paulo, que colocou Lima fora por ser considerado pré-moderno. O que é um pré-moderno, é aquele que “não é nem será”. Lima Barreto é por isso um termómetro deste Brasil racista que se esconde neste discurso da branquitude que é um discurso muito eficiente no Brasil. É tão eficiente que é norma e não precisa de ser nomeado. É tão eficiente que vira critério de beleza, critério de arte, critério de história, critério de literatura.

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