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Branco mais branco não passará!

O uso dos meios de comunicação para fazer passar a mensagem fascista oferece perigos que não podem ser subestimados num ano em que seremos chamados às urnas por mais que uma vez. Texto de Rui Ricardo.
A TVI colocou Mário Machado no papel de um mero autor de frases polémicas, branqueou crimes de ódio racial em que este se envolveu
A TVI colocou Mário Machado no papel de um mero autor de frases polémicas, branqueou crimes de ódio racial em que este se envolveu

A TVI, permitindo o uso de um dos seus programas televisivos de maior audiência para esse efeito, colocou Mário Machado no papel de um mero autor de frases polémicas, branqueou crimes de ódio racial em que este se envolveu e pôs a nu aquela que é a já indisfarçável tentativa de banalização do fascismo e do neonazismo em Portugal levada a cabo pelos órgãos de comunicação social tradicionais.

Este é, porventura, o episódio mais flagrante da operação "Neoblanc" que a comunicação social cá do burgo tem andado a congeminar, mas não é caso único.

Não escolho esta marca de lixívia ao acaso para ilustrar o que se está a passar nos media nacionais. Para quem se lembra do slogan, dizia o anúncio que branco mais branco não há e é precisamente essa ideia aplicada à existência humana que indivíduos como Machado defendem: a supremacia branca, a desumanização das minorias raciais e étnicas, a recusa do reconhecimento de direitos inalienáveis da condição humana àquelas e àqueles que não pertencem à sua raça ou fogem daquilo que estes auto-proclamados arautos da moral e dos bons costumes consideram ser a norma a seguir.

Não estamos apenas e só a falar de um episódio isolado que teve lugar, imagine-se, num programa matutino de entretenimento. Estamos a falar, isso sim, de uma estratégia concertada, alargada, bem urdida, que estende os seus longos e tenebrosos tentáculos até sufocar a CM TV, predar a TVI e começar também a manietar a RTP.

É com este pano de fundo que se dá palco a figuras como André Ventura ou Quintino Aires, que se elege como figura do ano um tal de Jair Bolsonaro, que se entrevista Marine Le Pen, e, no clímax da expressão mediática fascizante, que se convida para um programa de audiência robusta o rosto mais conhecido da extrema-direita que sai às ruas para insultar, intimidar e agredir até à morte se oportunidade para tal existir.

Você na TV

José Manuel Pureza

Ao invés do que se quis pintar na manhã de quinta feira, 3 de janeiro, no Você na TV!, Machado está muito distante de ser um simples gerador de acrimónia por meia-dúzia de dislates ou palermices que profira ou tenha proferido num passado mais ou menos recente. O antigo líder dos Hammerskins Portugal e da Frente Nacional cumpriu 10 anos de prisão efetiva pelo cúmulo jurídico resultante da condenação em diferentes processos, nos quais estava acusado dos crimes de discriminação racial, roubo, sequestro, coação agravada, ofensas à integridade física e posse de arma proibida. Embora se tente deturpar os factos, é o mesmo Mário Machado que esteve envolvido no espancamento de Alcino Monteiro até à morte em pleno Bairro Alto, corria o ano de 1995. Cumpriu parte da pena em Monsanto e não terá sido a passagem pelo estabelecimento prisional de alta segurança a operar o milagre de alterar profundamente as suas convicções político-ideológicas.

Assim como o agora líder da Nova Ordem Social deve ser encarado como um indivíduo muito mais perigoso do que a escolha do adjetivo “polémico” faz propositadamente pressupor, também André Ventura tem de ser denunciado como um populista astuto ao invés de ser apontado como um respeitado professor universitário, Bolsonaro tem de ser descrito como um fascista encartado no lugar de ser honrosamente distinguido e Le Pen tem de ver a sua retórica xenófoba e nacionalista combatida em vez de ser promovida num noticiário televisivo.

O fracasso do protesto do passado dia 21 de dezembro, que contou com o alto patrocínio da extrema-direita nacional apesar de todos os esforços para se mostrar inorgânico e apartidário, não deve deixar relaxados aqueles que trazem Abril inscrito no seu BI político. A mobilização popular desejada pelos promotores não foi alcançada, não foi conseguido o desiderato de parar Portugal tal como tinha sido anunciado, mas não estamos ainda numa posição privilegiada que nos leve a concluir que as manobras propagandísticas da extrema-direita não estão a ser bem sucedidas. O uso dos meios de comunicação para fazer passar a mensagem fascista, que constitui um upgrade à gritaria de uma vintena de skinheads calçados com botas de biqueira de aço, oferece perigos que não podem ser subestimados num ano em que seremos chamados às urnas por mais que uma vez.

É com este novo modus operandi que a esquerda democrática a que me orgulho de pertencer terá de lidar nos próximos tempos, sempre consciente da obrigatória assertividade que terá de empregar na resposta aos movimentos fascistas e populistas e à tentativa de massificar o seu argumentário discriminatório. Baixar a guarda quando o inimigo se mostra cada vez mais insidioso e sofisticado nunca será opção.

Dissemo-lo no passado e di-lo-emos em todas as ocasiões que o justifiquem: não passará!

Texto de Rui Ricardo

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