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Bouteflika e Al-Bashir não são mais que a ponta do iceberg

Quando o povo quer derrubar um regime, é na realidade toda a forma de funcionar do Estado que quer mudar, não só o seu presidente, diz Gilbert Achcar nesta entrevista a propósito dos acontecimentos recentes na Argélia e no Sudão. Por Luc Mathieu.
Gilbert Achcar
Gilbert Achcar

Podemos falar de uma nova primavera árabe?

Há efetivamente um novo impulso revolucionário na Argélia e no Sudão. Não devemos esquecer também que desde o ano passado ocorrem episódios de revolta social na Tunísia, em Marrocos e na Jordânia. Vemos, portanto, sinais de um novo ascenso revolucionário. Mas, desde 2013, estamos também numa fase contrarrevolucionária. A situação na Líbia não melhora com a ofensiva de Khalifa Haftar contra Trípoli, que marca num sentido um regresso do antigo regime. Não melhora também na Síria e no Iémen, que estão em guerra civil, nem no Egito. Estamos num momento contraditório. Há elementos de uma nova primavera mas trata-se mais de uma fase de transição.

Quais são os pontos comuns entre os levantes argelino e sudanês?

Há duas grandes categorias de países no mundo árabe. A primeira reúne os Estados que se podem qualificar de patrimoniais, com famílias reinantes que possuem o aparelho do Estado. Consideram o Estado como sua propriedade privada. É o caso das oito monarquias do mundo árabe, nas quais o soberano é o rei, não o povo, mas também de repúblicas como a Síria ou, anteriormente, o Iraque de Saddam Hussein, nas quais certas famílias tomaram posse do Estado. Nesses casos, não se pode imaginar um derrube da família reinante pelas forças armadas. E se, caso improvável, uma parte delas apoia a sublevação, como na Síria ou na Líbia, então torna-se praticamente inevitável uma guerra civil. A outra categoria de Estados é a dos neopatrimoniais, cujas instituições dispõem de uma relativa autonomia com respeito aos dirigentes. É o caso da Argélia e do Egito. O exército é a instituição principal e exerce um controlo direto sobre o poder político que dele emana. É o exército que nomeia e faz demitir os presidentes. O Sudão está numa categoria intermédia. Omar al-Bashir, que tomou o poder através de um golpe de estado militar, tinha tentado remodelar o exército para o poder controlar diretamente, como fizera Hafez al-Assad na Síria ou Muammar Khadafi na Líbia, sem ter conseguido completar o processo. O exército pôde derrubá-lo.

Teme transições difíceis?

Sim, sem dúvida alguma. Quando o povo quer derrubar um regime, é na realidade toda a forma de funcionar do Estado que quer mudar, não só o seu presidente. Poderíamos dizer que Bouteflika e al-Bashir não são mais do que a ponta do iceberg, a grande massa permanece por baixo da superfície. Os seus dois regimes têm como modelo o Egito de Abdel Fatah al-Sissi e querem apresentar o exército como o salvador da Nação e firmar ainda um pouco mais o seu poder. Isto pode eventualmente funcionar no Sudão mas será mais complicado na Argélia, onde a população não tem ilusões de que são os militares que controlam o poder. Não devemos também esquecer que o que estourou em 2011 é um processo revolucionário histórico e longo, que durará décadas. Confronta-se com um bloqueio cultural, social e económico, que produz as taxas de desemprego mais elevadas do mundo, sobretudo entre a juventude. Para evitá-lo seriam precisas mudanças radicais das políticas económicas que não se veem em nenhum país, nem na Tunísia, onde a política económica é a continuidade da do antigo regime. E prossegue a aplicação das receitas do Fundo Monetário Internacional, as suas políticas de austeridade e de redução do investimento público que são absurdas. A ideia de que o investimento privado se vai converter no motor é ilusória. Nesta parte do mundo em que reinam a arbitrariedade, a instabilidade e o nepotismo, os fundos privados vão para o dinheiro fácil e para a especulação imobiliária.

A outra dificuldade é que, para que se produza esta mudança radical, é preciso que existam forças políticas que a representem e que defendam as aspirações democráticas e progressistas da população, e sobretudo da juventude. O problema é que não as vemos, infelizmente faltam em toda a região.

Prevê outros levantamentos?

Salvo o Qatar e os Emirados Árabes Unidos, onde 90% da população é estrangeira, nenhum país está ao abrigo de uma explosão, incluindo os países da Primavera de 2011. A situação económica é insuportável no Egito. As pessoas não saem à rua porque estão escaldadas pelos resultados obtidos em 2011. Voltaram ao ponto de partida, ou mesmo a uma situação pior. Mas quando veem o que está a acontecer ao lado, no Sudão ou na Argélia, recebem uma injeção de coragem. Mais tarde ou mais cedo, o movimento recomeçará. A indignação é geral.

Gilbert Achcar, de origem libanesa, é professor de relações internacionais e políticas na School of Oriental and African Studies de Londres. Colunista em diversas publicações internacionais, colaborador do Le Monde Diplomatique, autor, entre outros livros, de Le Peuple veut (Actes Sud, 2013) e Symptômes morbides (Actes Sud, 2017) que abordam as rebeliões sociais da “Primavera árabe” e a guerra na Síria.

Publicado no Libération em 11 de abril de 2019

Reproduzido de Viento Sur

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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