"Bombardeios não podem instaurar democracia na Líbia"

26 de março 2011 - 0:00

Em entrevista ao jornal francês Libération, Rony Brauman, ex-presidente da organização Médicos sem Fronteiras e professor de Estudos Políticos em Paris, critica a acção militar autorizada pela ONU na Líbia.

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As operações aéreas nunca permitiram ganhar uma guerra. Esta ilusão tecnológica provém do pensamento mágico. Foto wikimedia commons

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Libération: Desta vez, uma parte dos que se opunham à intervenção norte-americana no Iraque está de acordo com a resolução do Conselho de Segurança sobre a Líbia. O senhor não está. Porquê?

Rony Brauman: Porque, como no passado, hoje em dia sigo sem acreditar nas virtudes dos bombardeios aéreos para estabelecer a democracia ou “pacificar” um país. Aí estão os casos da Somália, do Afeganistão, do Iraque e da Costa do Marfim para nos lembrar da cruel realidade da guerra e sua imprevisibilidade. “Proteger as populações”, na prática, significa desfazer-se de Khadafi e, se seguimos passo a passo essa lógica até o fim, substituí-lo por um Karzai local, ou dividir o país congelando a situação. Em ambos os casos seremos incapazes de assumir as consequências. Quando será ganha esta guerra?

É preciso assistir como espectador a aniquilação da rebelião líbia por parte do exército de Khadafi?

Claro que não. Entre a guerra e o statu quo há uma margem de acção: o reconhecimento do Conselho Nacional (órgão político dos rebeldes) por parte da França foi um gesto político relevante. É preciso continuar a apoiar militarmente a insurreição, fornecer-lhe armamento e assessoria militar para reequilibrar a relação de forças no terreno, assim como fornecer informação sobre os movimentos e os preparativos das tropas inimigas. O embargo comercial, o embargo de armas e o congelamento dos activos do clã Kadafi são outras medidas de pressão em relação às quais o regime de Trípoli não pode permanecer insensível.

Não se corre o risco de deixar que ocorra uma tragédia?

Tome Ruanda como exemplo, caso frequentemente mencionado a propósito do que não devemos fazer: a ONU tinha enviado soldados e retirou-os antes do genocídio; isso é lembrado como um erro gigantesco. No entanto, ainda que se possa entender esse erro, o que a crítica moral não vê é que para mudar o curso dos acontecimentos teria de ter sido estabelecida uma tutela total no país, o que era impossível. No meu entender, a nossa falha não consistiu na retirada de 1994, mas sim na intervenção de 1990 para salvar o regime no poder, com a ilusão de poder impor a paz. Teria sido melhor aceitar a violência daquele momento do que congelar, por um período necessariamente limitado, a relação de forças. Os mais radicais de ambos os lados acabaram por se aproveitar dessa situação.

Mantém a sua posição inclusive se nos conformamos somente com intervenções aéreas?

As operações aéreas nunca permitiram ganhar uma guerra. Esta ilusão tecnológica provém do pensamento mágico. O balanço destas intervenções armadas internacionais indica que já não possuímos os meios para decidir o que é bom ou não no estrangeiro. O remédio é pior que a doença. Quando a força já não nos permite fazer com que uma circunstância histórica se transforme para nossa conveniência, é melhor não fazer uso dela e renunciar ao sonho da “guerra justa”. Nesta matéria, como noutras, a política regida pela emoção é uma má conselheira.

Trata-se então de uma oposição de princípio a qualquer intervenção?

Não, as Brigadas Internacionais que foram combater na Espanha ao lado dos republicanos em 1936 representam um momento importante de solidariedade internacionalista – ainda que, com toda certeza, não o tenham sido no que se refere à defesa das liberdades democráticas – e eu aprovaria totalmente a ideia de que brigadas internacionais fosse apoiar a rebelião líbia. No entanto, as intervenções dos Estados são uma questão completamente diferente!

E acrescento que a ética está bastante longe de sair vitoriosa se se comparam as situações nas quais se considerou justificável uma intervenção internacional com aquelas em que abandonamos povos deixando-os a mercê do seus opressores: Chechénia, Palestina, Zimbabué, Coreia do Norte, etc. E para citar um exemplo recente, entre os que reclamam o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, quantos teriam defendido a neutralização da força aérea israelita sobre Gaza em Janeiro de 2009 ou sobre o Líbano em Agosto de 2006?

Então é impossível uma diplomacia dos direitos humanos?

Pergunte o que pensam disso os manifestantes de Bahrein, reprimidos pelos nossos aliados, as monarquias petroleiras do Golfo. Por sua parte, os iranianos já poderiam preocupar-se com a defesa dos direitos humanos na Península Arábica. Não, os direitos humanos não constituem uma política e a oposição canónica entre os direitos humanos e a realpolitik é um beco sem saída. Só existe uma política, que é a arte de querer as consequências do que se deseja. Os direitos humanos são invocados ou revogados pelos Estados segundo a vontade destes.

O que diz aos líbios que pedem ajuda ao Ocidente?

Digo que alimentam ilusões sobre nossa capacidade de corrigir a situação em seu favor e que pagarão um preço muito alto. Lembre que, em 2003, muitos iraquianos se pronunciaram a favor de uma intervenção militar. Pensavam que os norte-americanos cortariam a cabeça do tirano e logo se iriam embora. Os médicos sabem, ainda que não somente eles, que dar a ilusão de protecção pode ser pior que oferecer protecção.

E o facto de Khadafi recuperar o controle da Líbia por acaso não constitui o fim da primavera árabe e mesmo uma ameaça para as revoluções tunisina e egípcia?

Não vejo por que seria assim. Por um lado, não é somente a situação na Líbia que determinará o futuro da democracia nos países árabes; por outro, vemos que, eclipsada pela intervenção em curso, a repressão se abate sobre outras manifestações nos países do Golfo. Por outro lado, nós, franceses, somos os mais indicados para saber que entre a revolução e a democracia há bastante caminho a percorrer e há retrocessos também. E a primavera árabe não é uma excepção. Estou convencido de que a rejeição dos poderes despóticos e corruptos está profundamente arraigada em todas as sociedades contemporâneas, mas também de que são elas que devem fazer desse repúdio um programa político.

Rony Brauman foi presidente da organização Médicos sem Fronteiras, é professor de Ciências Políticas no Instituto de Estudos Políticos de Paris e estuda há muitos anos as consequências das intervenções humanitárias.

Fonte: Libération

Tradução para o Rebelión: Marina Almeida

Tradução para a Carta Maior: Katarina Peixoto