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Bolsonaro provoca incidente diplomático com Chile

Presidente do Brasil ataca Alberto Bachelet, pai da ex-presidente Michelle Bachelet, um general chileno que se opôs ao golpe militar de Pinochet em 1973. Preso e torturado, morreu na prisão em 1974. Presidente do Chile condena afirmações de Bolsonaro. Por Luis Leiria.
Alberto Bachelet opôs-se à ditadura de Pinochet, foi preso, torturado e morreu na prisão. A sua filha Michelle foi por duas vezes presidente do Chile. Foto arquivo pessoal.
Alberto Bachelet opôs-se à ditadura de Pinochet, foi preso, torturado e morreu na prisão. A sua filha Michelle foi por duas vezes presidente do Chile. Foto arquivo pessoal.

Jair Bolsonaro voltou a elogiar uma ditadura, desta vez a chilena, e a atacar um homem que deu a vida pela democracia, Alberto Bachelet, um general de brigada da Força Aérea que se opôs ao golpe militar de Augusto Pinochet (1973). Preso e torturado, Alberto morreu em 1974 na prisão. Em 1975, a filha de Alberto, Michelle Bachelet, também foi presa e torturada. Mais tarde, Michelle presidiu o país quando a democracia foi restaurada, em dois mandatos: entre 2006 e 2010, e entre 2014 e 2018.

"Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 1973, entre eles o teu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Eu acho que não preciso falar mais nada para ela. Quando tem gente que não tem o que fazer, vai lá para a cadeira de Direitos Humanos da ONU", afirmou Bolsonaro.

Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. Foto de Antonio Cruz, Agência Brasil.
Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. Foto de Antonio Cruz, Agência Brasil.

Michelle Bachelet é atualmente Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos. Ela disse numa conferência de imprensa em Genebra que “nos últimos meses, observamos (no Brasil) uma redução do espaço cívico e democrático, caracterizado por ataques contra defensores dos direitos humanos, restrições impostas ao trabalho da sociedade civil”. E apontou o aumento do número de pessoas mortas por polícias no Brasil, que atinge mais os negros e os moradores de favelas, lamentando o “discurso público que legitima as execuções sumárias” e a persistência da impunidade.

O presidente retrucou afirmando que a alta comissária da ONU “defende direitos humanos de vagabundos”.

Apologista de todas as ditaduras

Esta não é a primeira vez que o presidente do Brasil ataca a memória de alguém que não pode se defender. Já fizera o mesmo com Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, que morreu aos 26 anos quando estava sob custódia da ditadura militar brasileira. E é famosa a homenagem que Bolsonaro, ainda deputado, prestou ao torturador Brilhante Ustra, no momento em que votou a favor do impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Bolsonaro também classificou como “estadista” o ex-presidente do Paraguai Alfredo Stroessner, que presidiu a uma ditadura sangrenta e corrupta de 35 anos, entre 1954 e 1989.

Sobre Pinochet, Bolsonaro, na altura deputado federal, já dissera que o general “fez o que tinha que ser feito” e que “devia ter matado mais gente”.

Pinochet morreu em dezembro de 2006, de ataque cardíaco, quando cumpria prisão domiciliar, devido à sua idade avançada. Era alvo de mais de 300 processos por violações de direitos humanos e também por fuga aos impostos e corrupção, num montante estimado em 28 milhões de dólares.

Presidente do Chile condena

O presidente do Chile, Sebastián Piñera. Foto de José Cruz - Agência Brasil
O presidente do Chile, Sebastián Piñera. Foto de José Cruz - Agência Brasil

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, que é um dos principais aliados regionais de Bolsonaro, condenou a fala do preesidente do Brasil: “Não compartilho em absoluto a menção feita pelo presidente Bolsonaro por respeito a uma ex-presidente do Chile e, especialmente, num tema tão doloroso como a morte de seu pai.”

Para Piñera, “toda pessoa tem o direito de ter seu juízo histórico sobre os governos dos anos de 1970 e 1980, mas estas visões devem ser expressadas com respeito às pessoas”.

O presidente do Senado do Chile, Jaime Quintana, afirmou que ao defender a tortura de Alberto Bachelet, Bolsonaro “agride a memória dos chilenos”. E acrescentou: “Bolsonaro está a colocar-se fora das relações multilaterais e não está à altura de um chefe de Estado em nenhum país do mundo”.

Solitário desprezível e pária político”

O candidato à Presidência da Argentina vencedor das primárias e mais que provável próximo presidente da Argentina Alberto Fernández, os ex-presidentes Rafael Correa, do Equador, e José Luiz Zapatero, de Espanha, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, o ex-ministro Aloizio Mercadante, do Brasil, assinaram uma nota de repúdio às afirmações de Bolsonaro.

O documento afirma que “essas agressões demonstram, mais uma vez, que Bolsonaro é incapaz de conviver, de forma civilizada e democrática, com a comunidade internacional”.

“Bolsonaro, um notório defensor das ditaduras, da tortura e do extermínio de opositores democráticos, equiparados por ele a bandidos, tem absoluto desprezo pelos direitos humanos, pela democracia, pelo meio ambiente e por toda a agenda de desenvolvimento sustentável defendida pela ONU e pela comunidade internacional”, prossegue o texto.

A sua inacreditável defesa da brutal ditadura de Pinochet, repudiada de forma unânime pelo mundo civilizado, torna-o um solitário e desprezível pária político", conclui o documento.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Governo Bolsonaro, Internacional
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