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Bolsonaro ouviu o seu primeiro panelaço

Repúdio à política ambiental do presidente transforma-se em “panelaço” durante o seu pronunciamento em cadeia de TV e rádio. O bater de panelas foi muito usado contra Dilma Rousseff, mas é a primeira vez que tem como alvo Bolsonaro. Por Luis Leiria.
Manifestação no Rio de Janeiro, na noite de sexta-feira. Foto do PSOL Niterói
Manifestação no Rio de Janeiro, na noite de sexta-feira. Foto do PSOL Niterói

As panelas soaram pela primeira vez contra Bolsonaro. Enquanto o presidente falava em cadeia nacional pelas TVs e rádios, milhares de pessoas foram às janelas e fizeram um “panelaço” em protesto contra a política do governo que é responsável pela desflorestação e pelos incêndios na Amazónia. O portal G1 publicou um primeiro levantamento do panelaço, que ocorreu nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Brasília, Belo Horizonte, Recife, Florianópolis, Porto Alegre, Salvador, Belém.

Ainda nesta sexta-feira, ocorreram as primeiras manifestações programadas para este fim-de-semana em defesa da Amazónia em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Os panelaços foram muito usados no Brasil pela direita que criou o movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff. Supostamente protestavam contra a corrupção. Depois as panelas calaram-se. Agora estão de regresso. E Bolsonaro tem apenas sete meses e meio de mandato.

Um Bolsonaro diferente

O Bolsonaro que apareceu nas TVs foi bem diferente do presidente provocador dos dias anteriores; mas só na forma, porque em conteúdo manteve-se fiel a si próprio.

Bolsonaro na TV: desta vez culpou o clima; antes tinham sido as ONGs.
Bolsonaro na TV: desta vez culpou o clima; antes tinham sido as ONGs.

No pronunciamento, Bolsonaro não voltou a acusar as ONGs de serem as responsáveis pelos fogos. Afirmou que o governo “vai atuar fortemente” para controlar incêndios na Amazónia, afirmando que a sua política é de “tolerância zero” na área ambiental. Mas voltou a não assumir quaisquer responsabilidades sobre o que está a acontecer, culpando desta vez o clima pelos incêndios: “Estamos numa estação tradicionalmente quente, seca e de ventos fortes em que todos os anos, infelizmente, ocorrem queimadas na região amazónica. Nos anos mais chuvosos, as queimadas são menos intensas. Em anos mais quentes, como neste, elas ocorrem com maior frequência”, afirmou. “É preciso, por outro, lado ter serenidade ao tratar dessa matéria. Espalhar dados e mensagens infundadas dentro ou fora do Brasil não contribui para resolver o problema. E se prestam apenas ao uso político e à desinformação.”

Bolsonaro anunciou o envio das Forças Armadas para ajudar a combater os fogos. E insistiu: “Incêndios florestais existem em todo o mundo e isso não pode servir de pretexto para possíveis sanções internacionais”, referindo-se implicitamente à iniciativa do presidente da França, Emmanuel Macron, de levar a discussão da Amazónia à reunião do G77, este fim-de-semana, em Biarritz.

O tom mais conciliador, depois das sucessivas provocações dos dias anteriores, mostra que há um temor de que sejam aplicadas sanções de algum tipo às exportações de produtos agrícolas brasileiros, o que faria o tiro sair pela culatra: os grandes fazendeiros do agronegócio, grandes apoiantes de Bolsonaro, sairiam prejudicados da crise provocada pela desflorestação que fizeram na Amazónia.

A culpa não é do clima

Muito haveria a dizer sobre o pronunciamento de Bolsonaro, de pouco mais de quatro minutos. Vejamos apenas alguns pontos. O presidente do Brasil diz que a culpa dos incêndios é do clima, na estação tradicionalmente quente, de seca e ventos fortes. Ora a Nasa, a agência espacial norte-americana, baseada nos dados de satélite que recolheu, desmente Bolsonaro: “Apesar de a seca ter desempenhado um papel importante na intensificação dos incêndios em outras ocasiões, o momento e a localização das queimadas detetadas no início da estação mais seca de 2019 estão mais ligados ao desmatamento do que à seca regional”, afirma a instituição num texto divulgado na noite de sexta-feira. E diz mais: é "percetível o aumento de focos de queimadas grandes, intensas e persistentes ao longo das principais rodovias no centro da Amazónia do Brasil”, o que comprova a mão dos fazendeiros.

Imagem de um satélite da NASA mostra os incêndios na região de Novo Progresso, cidade do Sul do Pará, no dia 19 de agosto. Note-se como os focos de incêndio acompanham as rodovias.
Imagem de um satélite da NASA mostra os incêndios na região de Novo Progresso, cidade do Sul do Pará, no dia 19 de agosto. Note-se como os focos de incêndio acompanham as rodovias.

Para a diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia) Ane Alencar, a culpa não é do clima. “Neste ano não temos uma seca extrema, como foi 2015 e 2016. Em 2017 e 2018 tivemos um período chuvoso suficiente. Em 2019, não temos eventos climáticos que afetam as secas, como o El Niño, ou eles não estão acontecendo [de maneira] forte. Não tem como o clima explicar esse aumento [de queimadas]", diz.

Favorecendo o crime ambiental

Bolsonaro também apresentou a política do seu governo como sendo de tolerância zero quanto ao crime ambiental. Mas a realidade desmente-o.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aplicou, em 2019, um terço a menos de multas a infratores ambientais do que no mesmo período do ano passado. Isto apesar do aumento dos registos de desflorestação e de incêndios no mesmo período.

A queda da aplicação de multas está ligada a sinais emitidos pelo governo federal, desde o começo do ano, para coibir supostos excessos na fiscalização. Assim, a suposta tolerância zero é, na verdade, uma tolerância total.

Também soa como total desfaçatez a crítica aos que espalham “dados e mensagens infundadas dentro ou fora do Brasil”. Mas não foi o próprio Bolsonaro que partilhou um vídeo mostrando uma matança de baleias nas Ilhas Feroe, afirmando que as imagens eram da Noruega, quando na verdade se trata de um arquipélago dependente da Dinamarca? E, apesar de ter sido alertado para o erro, não o ter corrigido? E não foi Bolsonaro que acusou ONGs de estarem por trás das queimadas, sem citar uma única nem dar qualquer prova da afirmação?

Macron, o novo demónio

“A Amazónia é nosso bem comum. Estamos todos envolvidos, e a França está provavelmente mais do que outros que estarão nessa mesa [do G7], porque nós somos amazonenses. A Guiana Francesa está na Amazónia”, afirmou o presidente francês, Emmanuel Macron, na televisão, justificando a sua iniciativa de levar o assunto à reunião do G7 deste fim de semana. Ele prometeu “lançar uma mobilização de todas as potências que estão aqui, em parceria com os países da Amazónia, para investir na luta contra os incêndios que estão em curso e ajudar o Brasil e todos os outros países que são atingidos. Depois, investir na reflorestação e permitir aos povos autóctones, às ONGs, aos habitantes desenvolverem atividades preservando a floresta.”

Antes, o gabinete de Macron divulgara uma nota afirmando: “Dada a atitude do Brasil nas últimas semanas, o presidente da República [francesa] só pode constatar que o presidente Bolsonaro mentiu para ele na cúpula [do G20] em Osaka”. "Nessas circunstâncias, a França se opõe ao acordo com o Mercosul", conclui a nota, lembrando que o Parlamento da França ainda precisa ratificar o acordo comercial.

Eduardo Bolsonaro demonstra a sua extrema aptidão para ser diplomata
Eduardo Bolsonaro demonstra a sua extrema aptidão para ser diplomata

Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, publicou, na noite de quinta-feira, um vídeo no seu Twitter ofensivo a Macron. Nele, um youtuber chama o presidente francês de “completo idiota”. Eduardo apenas acrescentou: “Recado para Macron”.

Eduardo está indigitado pelo pai para ser o novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos, decisão que ainda depende da aprovação no Senado. Como se vê, o filho “zero três” do presidente já está a demonstrar a sua aptidão para a diplomacia.

O repúdio ao presidente francês levou até o general Villas Boas, ex-chefe do Exército e atual assessor especial do general Heleno, do Gabinete de Segurança Interna do governo, a escrever no twitter: “Com uma clareza dificilmente vista, estamos assistindo a mais um país europeu, dessa vez a França, por intermédio do seu presidente Macron, realizar ataques diretos à soberania brasileira, que inclui, objetivamente, ameaças de emprego do poder militar.”

Os militares brasileiros sempre gostaram muito de agitar o espantalho da ameaça de uma intervenção militar na Amazónia, em nome da preservação do ambiente. Esse fantasma tinha, no entanto, um alvo: os Estados Unidos. A novidade agora é que, na era Trump, o alvo foi reciclado para passar a ser a França.

Destruição ambiental é política do governo

Na guerra de posts no Twitter, quem resumiu melhor quem tem responsabilidades sobre a crise foi o deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL: “Bolsonaro e Salles cortaram 38% da verba pra a prevenção de incêndios florestais, bloquearam R$ 90 milhões do dinheiro do IBAMA, inviabilizando fiscalizações, tiraram 95% dos recursos pra combater o aquecimento global. A destruição ambiental é política de governo!” Curto e preciso.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Governo Bolsonaro, Ambiente
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