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Bolsonaristas voltam às ruas para defender Sérgio Moro

Base de apoio do presidente Jair Bolsonaro, de novo unida, convoca para dia 30 de junho manifestações em defesa do ministro da Justiça, acusado de ter sido parcial ao condenar Lula, aceitando em seguida um cargo no governo do beneficiário da sua decisão. Por Luis Leiria.
Manifestante exibe cartaz durante a greve geral de dia 14 de junho. Foto de Mídia Ninja
Manifestante exibe cartaz durante a greve geral de dia 14 de junho. Foto de Mídia Ninja

Dois movimentos de extrema-direita que tiveram um papel preponderante nas mobilizações que levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, o Vem Pra Rua e o MBL, convocaram manifestações de rua no próximo dia 30 de junho para defender o juiz Sérgio Moro, a operação Lava Jato, a chamada reforma da Previdência (Segurança Social) e o pacote legislativo na área de segurança proposto pelo ministro da Justiça (o próprio Moro).

Com esta convocatória, que é partilhada pelos bolsonaristas, a extrema-direita volta a reagir às mobilizações contra o governo e mostra-se disposta a lutar pela hegemonia das ruas, que foi sua no período das grandes mobilizações contra Dilma, mas que perdeu nos últimos meses.

Recorde-se que no dia 15 de maio passado, estudantes e professores dos vários graus do Ensino fizeram manifestações gigantes em todo o país em defesa da Educação e contra os cortes orçamentais anunciados pelo governo.

A direita bolsonarista reagiu no dia 26, com manifestações a favor do governo e da reforma da Previdência, contra aquilo que consideram ser os entraves à atuação do governo impostos pelo Congresso Nacional e os partidos do chamado “centrão”.

No dia 30 de maio, houve novas manifestações contra o governo e os cortes na Educação. E no último dia 16 de junho uma greve geral, com greves e manifestações em todo o país, convocada pelas centrais sindicais em oposição à (contra) reforma da Previdência.

Denúncias comprometem Moro

A temperatura política subiu assim mais uns graus, desde que o site The Intercept Brasil divulgou conversas reservadas que mostraram claramente que Moro foi quem realmente comandou a atuação da procuradoria nas investigações da Lava Jato, em vez de, como manda a Constituição, manter a independência e a isonomia entre a acusação e a defesa.

Moro foi quem realmente comandou a atuação da procuradoria nas investigações da Lava Jato, em vez de, como manda a Constituição, manter a independência e a isonomia entre a acusação e a defesa.

A divulgação das conversas causou enorme embaraço e nenhum dos seus principais intervenientes, o ex-juiz e atual ministro da Justiça Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, procurador da força-tarefa Lava Jato negaram a veracidade dos trechos publicados pela The Intercept, concentrando-se em atacar a forma como elas foram obtidas, segundo eles por ação de hackers. A The Intercept recusa-se a falar sobre a fonte da fuga de informação.

As conversas divulgadas até agora mostram de forma cristalina que a atuação do juiz, que comandava ilegalmente os procuradores, tinha acima de tudo um objetivo político: condenar o ex-presidente Lula da Silva, tirando-o de umas eleições presidenciais em que ele era o favorito. Ficou evidente que Moro agiu para favorecer a vitória de Jair Bolsonaro, e o resultado disso é hoje ele ser ministro do presidente que ajudou a eleger, e ainda com o compromisso de Bolsonaro de o nomear, logo que houver vaga, para o Supremo Tribunal Federal. As conversas mostram também que Moro e Dallagnol tinham mesmo um homem de confiança no Supremo, o juiz Luiz Fux, com quem falavam habitualmente e a quem faziam pedidos. “In Fux we trust!”, chegou a escrever Moro no chat.

DesMOROnando

O escândalo envolvendo Sérgio Moro provocou uma mudança de atitude de parte dos mais influentes meios de comunicação: o vetusto e conservador Estadão (O Estado de S. Paulo) pediu em editorial a demissão de Moro e o afastamento de Dallagnol da Procuradoria, e a Veja pôs na capa uma estátua de Sérgio Moro cheia de rachaduras e o título “desMOROnando”. Já a rede Globo manteve a defesa do atual ministro, concentrando o seu foco na denúncia da ilegalidade da ação de supostos hackers que teriam invadido os telemóveis de ministro e procurador.

Revista Veja abandonou Moro
Revista Veja abandonou Moro

Bolsonaro teve uma reação prudente, mantendo-se em silêncio no início e só apoiando Moro depois de feita uma análise das sondagens encomendadas pelo governo sobre o episódio, e de monitorar as redes sociais.

Os resultados da sondagem indicaram que o apoio à Lava Jato ainda supera a desconfiança em relação ao conteúdo das conversas divulgadas. Mas Moro pareceu acusar o toque e demonstrou abatimento. A verdade é que, numa reviravolta, o acusador passou a ser acusado, e o ex-juiz sente que as suas aspirações de ser juiz do STF ou até candidato a presidente ou vice-presidente de uma nova candidatura de Bolsonaro podem estar ameaçadas. Só ele e os editores da The Intercept sabem o que ainda está para vir, e estes prometem muitas revelações novas para os próximos dias.

Os ministros que deixaram de ser “super”

O governo Bolsonaro tinha dois “superministros” que hoje são uma sombra do que já foram. Moro passa pelo aperto que descrevemos, e Paulo Guedes, o ministro da Economia, fuzilou a proposta de reformulação da reforma da Previdência apresentada pelo relator da comissão especial da câmara de Deputados, porque deixa de lado a privatização do sistema de Previdência, que ele queria manter na lei a todo o custo, à semelhança do que foi feito no Chile durante a ditadura de Pinochet. Acontece que sem o apoio da maioria qualificada da câmara, a reforma não passa, por mais que Guedes não goste desta versão.

Para piorar ainda mais a situação de Guedes, Bolsonaro forçou a demissão de Joaquim Levy, presidente do BNDES, o banco de investimento do estado brasileiro, e do diretor de Mercado de Capitais do BNDES, Marcos Barbosa Pinto. Levy foi ministro da Fazenda do segundo mandato de Dilma Rousseff, chamado para aplicar uma política de cortes de gastos públicos que mergulhou o país na recessão. Foi chamado para o BNDES por Paulo Guedes.

Paulo Guedes. O ministro já não é "super". Foto de Fábio Rodrigues Pozzebom - Agência Brasil
Paulo Guedes. O ministro já não é "super". Foto de Fábio Rodrigues Pozzebom - Agência Brasil

No sábado, Bolsonaro dissera aos jornalistas que Levy estava com a “cabeça a prémio” por não ter demitido Marcos Pinto, que ele julgava ser ligado ao PT. Diante da “ fritura” pública, Pinto demitiu-se no próprio sábado e Levy no domingo. Ora o BNDES é subordinado ao ministério da Economia, o que significa que Bolsonaro desautorizou o seu próprio ministro Paulo Guedes, passando por cima dele.

Os dois “superministros” estão, assim, bastante enfraquecidos.

Para aumentar ainda mais a temperatura, no dia 25, o Supremo retoma o julgamento em que a defesa de Lula da Silva acusa Moro de ter sido parcial ao condená-lo no caso do apartamento do Guarujá e entrar em seguida para o governo de Bolsonaro. Para reforçar a argumentação, os advogados do ex-presidente encaminharam ao tribunal as conversas atribuídas a Moro pelo The Intercept.

O resultado dessa reunião já provoca preocupação entre os militares do governo. “Tenho receio de que isso venha a tomar um vulto que possa prejudicar o País”, disse, em tom de advertência, o general Eduardo Villas Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional. Já o titular do GSI, general Heleno, irritou-se durante um café da manhã com jornalistas em que ele esteve ao lado de Bolsonaro. Perguntado sobre a afirmação de Lula, numa entrevista recente, pondo em causa a facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha, Heleno deu um murro na mesa e disse, alterado: “Na minha opinião, sempre tive essa opinião, ela é minha, não é do presidente, Presidente da República desonesto tinha que tomar uma prisão perpétua. Isso é um deboche com a sociedade. Presidente da República desonesto destrói o conceito do país. É o cúmulo ele ainda aventar a hipótese de a facada ser uma mentira.”

É pois neste contexto explosivo que a extrema-direita vai voltar às ruas. Desta vez, diferente do dia 26 de maio, quando nem MBL nem Vem Pra Rua estiveram presentes, agora, as forças ultradireitistas que apoiaram Bolsonaro na campanha eleitoral estão de novo unidas. E Sérgio Moro, apesar de ter perdido prestígio (dez pontos, segundo sondagem da Atlas Político), ainda tem apoio maioritário.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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