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Bilionários exigem regresso ao trabalho a meio da pandemia, Trump concorda

Ter a economia a funcionar a todo o vapor já na Páscoa é o desejo do presidente norte-americano. Vice-governador do Texas diz que há muitos avós dispostos a dar a vida para proteger os netos da crise económica.
Donald Trumo
A conferência de imprensa de quarta-feira, onde Trump reafirmou o objetivo de ver boa parte do país de volta ao trabalho na Páscoa. Foto Tia Dufour/Casa Branca/Flickr

Contrariando os avisos das autoridades de saúde, os bilionários querem os trabalhadores de volta ao local de trabalho. Donald Trump e um grupo de gigantes dos fundos de investimentos especulativos e do capital privado querem a economia a funcionar a todo o vapor já na Páscoa.

Na passada segunda-feira, 23 de março, o ex-CEO da Goldman Sachs Lloyd Blankfein defendeu no Twitter o regresso ao trabalho dentro de poucas semanas. O tiro de partida para essa reivindicação dos bilionários tinha sido dado no dia anterior por Gary Cohn, ex-presidente do conselho económico dos EUA e ex-presidente e diretor de operações da Goldman Sachs. O político e banqueiro afirmou no Twitter que estava na hora de começar a discutir em que data a economia podia voltar a funcionar.

De acordo com as estimativas feitas por economistas da Northwestern University, a continuação da paralisação económica, em resultado das práticas de distanciamento social, pode salvar 600 mil pessoas em todo o país.

São vários os bilionários que também fazem as contas e que, entre "dois males", defendem que é melhor arriscar vidas. O presidente Donald Trump diz que a “cura” para para o Covid-19 “pode ser pior que a pandemia”. Os negócios do presidente norte-americano estão muito dependentes do turismo, um setor económico em colapso quase total neste momento em todo o mundo.

Na quarta-feira, o presidente norte-americano voltou a apontar o dedo à imprensa, desta vez acusando-a de o querer "obrigar a manter o país fechado" muito mais tempo. A motivação seria prejudicar a sua candidatura à reeleição, alega Donald Trump, concluindo que o que as pessoas querem é voltar a trabalhar imediatamente.

O fundador e CEO da Paychex Inc Tom Golisano foi também muito claro durante uma entrevista à Bloomberg: “os danos de manter a economia parada podem ser piores do que perder mais algumas pessoas”. Segundo o jornalista que recolheu as declarações de Golisano, o bilionário parecia "preocupado", enquanto "fumava um charuto Padron no seu pátio na Florida".

O bilionário Tilman Fertitta, dono dos casinos Golden Nugget e da cadeia de lojas e restaurantes Bubba Gump Shrimp, tem pressionado as autoridades governamentais no mesmo sentido. Colocou em lay-off temporário cerca de 40 mil trabalhadores. Segundo o próprio, o objetivo é proteger-se das imposições do Governo.

Richard Kovacevich, ex CEO da Wells Fargo & Company, propõe que os trabalhadores com menos de 55 anos voltem em breve ao trabalho: "Vamos gradualmente trazer essas pessoas de volta e ver o que acontece. Alguns deles ficam doentes, outros podem até morrer, eu não sei ”, afirmou à Bloomberg. E prossegue: “Você quer sofrer mais economicamente ou correr algum risco de contrair a gripe? sintomas semelhantes e uma experiência semelhante à gripe? Deseja assumir um risco económico ou de saúde? Você pode escolher”.

Entre os defensores da continuação da atividade económica em tempo de pandemia, provavelmente nenhum se destacou tanto nos últimos dias como o vice-governador do Texas. Aos 69 anos, Dan Patrick disse à Fox News que estava disposto a dar a vida em sacrificio pela economia do país. "A minha mensagem é esta: voltemos ao trabalho, voltemos à vida, vamos ser espertos, e quanto aos maiores de 70 anos, sabemos tomar conta de nós", afirmou o político republicano na segunda-feira, acrescentando que "acho que há muitos avós a concordarem comigo".

Além das autoridades de saúde, há políticos e economistas a alertar para o risco de saúde pública e, mesmo económico, desta visão dos bilionários. Também em declarações à Bloomberg, o economista Robert Reich, atual comentador político e antigo secretário do Trabalho no Governo de Bill Clinton, afirma que "é absolutamente necessário desligar a economia para que milhões de pessoas não morram”. Robert Reich aproveita para alertar os próprios bilionários: "o coronavírus não distingue classes, quanto mais pessoas são infectadas, maior a probabilidade de que Blankfein e outros bilionários também sejam infectados".

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