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BCE: Um pirómano ao serviço da banca privada

Quando a história julgar, dentro de alguns anos, o que se está a passar na Europa, encontrará no comportamento do BCE uma questão chave para os males de que sofremos, porque foi desenhado para ajudar a banca privada e não para defender a estabilidade macroeconómica e social. Por JuanTorres López.
O BCE comportou-se como um autêntico pirómano – Sede do BCE em Frankfurt, foto de UggBoy♥UggGirl/flickr

Não lhe foi concedida capacidade de supervisão para que as entidades financeiras utilizassem com vantagem os 27 regimes nacionais diferentes e foi impedido de financiar os governos. A Europa dotou-se de um banco central que não o é, o que permitiu que os bancos privados ficassem com o financiamento dos governos, com total liberdade no negócio.

Quando as coisas iam bem, e a defesa dos interesses decorria normalmente, isso permitia que os bancos encontrassem na subscrição da dívida soberana uma abundante e tranquila fonte de lucros sem gerar demasiados problemas. Quando a crise se intensificou e aumentaram as necessidades de financiamento (em grande parte para ajudar os próprios bancos) criaram-se problemas muito graves, que podem levar a que a Europa expluda. Em primeiro lugar, obrigou-se os governos a pagarem muitíssimo mais para financiar a sua dívida. E como esta começou a multiplicar-se, em grande parte devido à aplicação das taxas de juro de mercado, chegou-se a números insuportáveis. Em segundo lugar, e como acontece sempre, os mercados limitavam-se a financiar apenas em função da lógica especulativa dominante, isto é, vinculando a dívida a produtos financeiros mais complexos, cuja rentabilidade aumentava tanto mais quanto mais difícil se tornava o seu pagamento, de modo que se incentivou a desestabilização das economias.

Quando a situação evoluiu o BCE foi obrigado a intervir, ainda que pela porta traseira do mercado secundário e sem deixar de alimentar a ganância da banca privada. Tratou de aliviar a situação, mas o que conseguiu foi apenas mostrar aos investidores e aos bancos que podiam continuar a especular ainda mais, pois no final disporiam da cobertura dada pelo BCE.

Sabemos que os bancos privados utilizaram esta posição privilegiada como financiadores para chantagear os governos e impor-lhes cortes de direitos sociais (com a desculpa de que são necessários para sair da crise). Agora inteiramo-nos de que o próprio BCE utilizou as suas intervenções para influenciar. Comportou-se como um autêntico pirómano e deveria ser constituída, quanto antes, uma comissão independente de investigação que apurasse todas as responsabilidades. Igualmente deveriam criar-se já as infrações penais que contemplem o prejuízo económico que este tipo de atuações provoca.

Artigo de Juan Torres Lópezdisponível em juantorreslopez.com. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Málaga (Espanha). Conselho Científico de Attac-Espanha. A sua página web é: www.juantorreslopez.com
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