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Barcelona: indignados continuam na praça

Um ano depois das grandes mobilizações de 15 de maio de 2011, protestos marcaram o regresso em força em toda a Espanha. Reportagem da grande manifestação da Plaça Catalunya, onde os ativistas vão permanecer acampados até o próximo dia 15.
A Plaça Catalunya no início da noite. Todas as fotografias de Tomi Mori

A volta dos indignados foi o grande tema dos jornais espanhóis neste domingo. Não só foram realizadas as grandes manifestações de Madrid e Barcelona, como também em cerca de 80 cidades por todo o país, que fizeram parte da manifestação global deste sábado 12 de maio.

Ainda depois do almoço do sábado, em Barcelona, não tinha ideia do que iria ver nas horas seguintes.

Sabia que de diversos bairros da cidade sairiam marchas em direção à Plaça Catalunya, onde ocorreria a principal manifestação na cidade. Foi assim com a coluna do Nord, ou da Plaça Sants, bairro onde me hospedara.

Estar na Plaça Catalunya pôs-me diretamente dentro da convulsão que existe na Espanha hoje.

A primeira faixa que foi esticada tinha um enorme numero: 5.000.000 e algumas palavras em catalão, língua que entendo pouco mais que o chinês, ou seja, quase nada. Perguntei a um dos manifestantes o que significavam aquelas palavras. Explicou-me que na Espanha existem 5 milhões de desempregados, quase 6 milhões. O tom indignado com que me expôs esses números cruéis serviu para me tirar da tranquilidade em que me encontrava. [O que a faixa diz é: "Assembleia de [email protected] de Barcelona. Já somos 5,000,000 [de [email protected]]. Exigimos trabalho e prestações dignas" - um muito obrigado ao leitor "Galego"]

Famílias Enforcadas

Junto com um amigo brasileiro, João, que também estava presente, caminhamos em direção a um grupo de pessoas que usavam t-shirts verdes. João, que vive em Barcelona, explicou-me que esses manifestantes, entre os quais uma senhora que segurava um cartaz no qual se lia: “Famílias Ahogadas”, cuja melhor tradução, em português, seria Famílias Enforcadas, compunham os milhares de famílias que devido à brutal crise que vive o pais não tinham condições de continuar a pagar as prestações das suas moradias e, por esse motivo, estavam a ser despejadas.

Fui apresentado a Carlos Garcia, motorista da TMB (Transportes Metropolitanos de Barcelona, que também opera o metro da cidade), um militante sindical e delegado do Comité de Empresa pela CGT, uma das centrais sindicais espanholas. Esclareceu-me que a sua categoria, comparativamente, tinha sido menos atacada pelo governo que outras. Comentou que nas eleições em França se votou num governo que prometeu uma política menos austera e que também na Grécia a votação na esquerda representava uma inflexão da situação política. A Grécia é um pais que fez muitas greves gerais e o nível de pobreza é brutal, e que os espanhóis ainda não chegaram a essa situação.

Na opinião deste ativista, a poderosa greve geral de 29 de março foi realizada contra a vontade dos dirigentes das principais centrais sindicais, a UGT e a CCOO. Já havia várias greves em curso, como no país Basco e na Galiza. A greve atropelou as direções sindicais e foi organizada, principalmente, pela população, nos bairros. E é exatamente nos bairros que se discute uma nova greve geral para setembro próximo.

Carlos ressaltou que a população espanhola está a dar-se conta do mau gasto do dinheiro público. O exemplo é que o atual governo disse ser necessário um corte de dez mil milhões de euros nos gastos, e agora esse mesmo governo declara que vai injetar sete mil milhões no banco Bankia. Isso não passa despercebido, ressalta Carlos.

O número de manifestantes não parava de crescer. Diferente de outras manifestações às quais estava acostumado, a presença das centrais sindicais e partidos de esquerda não é ostensiva. Mas, claro, viam-se ali os anarquistas da CNT, cujo pequeno grupo cantava: “O povo, unido, governa sem partido!” Vi também socialistas, os comunistas empunhando a velha bandeira vermelha com a foice e o martelo. Assim como militantes trotskistas, da Corrente Vermelha, que vendiam livros e jornais durante a manifestação.

Mas o que me chamou mais atenção foi o colorido e também as iniciativas individuais dos manifestantes. Não faltaram os bombos e tampouco o samba. Havia também manifestantes que eu não conseguia entender. Um andava sobre patins, usava uma mascara de um robô de manga japonês. Um outro, desfilava com uma enorme cabeça de tubarão. Qual o sentido? Francamente não sei.

Jovens sem futuro

Conversei com uma jovem, Pilar Leon, estudante de Inglês da Universidade Autónoma de Barcelona. Perguntei-lhe o que era a Espanha para os jovens de hoje.

Respondeu: Espanha é um país que não tem futuro nenhum. O nível de desemprego é de 53%. De cada dois, um não tem emprego. Para aqueles que querem estudar, as escolas estão a ser privatizadas. As taxas pagas nas universidades públicas subiram cerca de 66%. “Antes, pagava-se 800 a 900 euros por curso na matrícula. Agora temos de pagar cerca de 3 mil euros”. A juventude tem os piores trabalhos e recebe menos. Com a reforma laboral, os patrões podem despedir livremente. “No primeiro ano de trabalho, pode-se despedir sem indemnização, o que faz com que os jovens tenham trabalhos sempre provisórios. Como os jovens não podem trabalhar, não têm como pagar as casas. Não há futuro!”

Pilar esclarece que, apesar disso, a juventude tem dificuldade de se organizar para lutar contra essa situação. E que é mais fácil organizar-se nas universidades e muitos estão a organizar-se no 15-M.

Greve nacional de professores dia 22

Durante esses poucos dias que estou aqui, li que os professores farão uma grande greve nacional no próximo dia 22 de maio. Perguntei a um dos ativistas, o professor Teo Navarro, por que motivo os professores teriam que fazer uma greve nacional. Teo explicou que a greve é contra os cortes no setor de ensino. Estão implicados nessa greve todos os professores, desde os que ensinam crianças até os professores universitários. A greve também envolve a comunidade educativa, ou seja, os estudantes e também as associações de pais dos alunos. São cerca de 400 mil professores que irão à greve no dia 22.

Teo esclarece quais são os cortes que os professores estão a sofrer. A redução do numero de cargos, ou seja, os despedimentos. O aumento do número de alunos por sala de aula. A redução das aulas de reforço para os alunos cujo aproveitamento escolar não é bom e precisam de uma maior atenção. Redução no orçamento utilizado para pagar contas como água e luz. Redução dos salários dos professores e também o aumento da carga horária. Ressalta que o que se está a viver é um processo de privatização da educação.

Os manifestantes fazem marchas em volta da Plaça Catalunya. Os professores, vestidos de t-shirts amarelas são os mais organizados, levam também milhares de balões amarelos e faixas dessa mesma cor.

A polícia avaliou a presença em 45 mil. Mas os manifestantes não paravam de chegar. Nas horas em que estive na praça, foi um entra e sai constante de manifestantes e não há um método adequado de aferição. Mas, como sempre, os números da polícia são sempre inferiores aos reais. Basta ver as fotos publicadas da manifestação.

Uma manifestante ao meu lado esclareceu que durante toda a semana foi um vendaval de emails, twiitters que circularam por todos os lados e isso explicava a massiva presença que se equiparava ao do ano passado, segundo ela. Disse-me também que a manifestação iria prosseguir durante toda a noite e, por isso, os polícias não poderiam dormir.

Eles continuam na plaça

Nas primeiras horas da manhã, fui verificar o que havia na Plaça Catalunya. Cerca das 8 da manhã, vi algumas dezenas de tendas de camping montadas. Os ocupantes continuavam a dormir. Vários dormiam ao relento, mesmo com o dia já claro. Até o dia 15, a policia prometeu não desalojá-los e as manifestações irão continuar nas principais cidades espanholas. Em Madrid, a policia montou o maior esquema, superior à visita do Papa e apenas inferior ao montado durante o casamento dos príncipes de Astúrias.

Passado um ano desde o início do movimento, nenhuma das reivindicações foi atendida. A situação de Espanha, longe de melhorar, deteriora-se. Mas as manifestações recentes são significativas dos novos combates que se aproximam.

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