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Banco Público de Terras no Socialismo 2010

Xosé Carballido Presas, do Conselho Nacional do Bloco Nacionalista Galego e da Comissão de Política Agrária do BNG, participa este fim-de-semana do Socialismo 2010, com uma sessão sobre o Banco Público de Terras e a experiência ocorrida na Galiza.

 

Terras

A experiência na Galiza

 

Xosé Carballido Presas

 

Membro do Conselho Nacional do Bloco Nacionalista Galego e da Comissão de Política Agrária do BNG

Ex-director geral de Estruturas e Infra-estruturas Agrárias

Primeiro conselheiro-delegado do Bantegal

 

 

 

Banco Público de Terras

A experiência na Galiza

 

Xosé Carballido Presas

 

Entre 2005 e 2009, o Bloco Nacionalista Galego teve a responsabilidade da Conselharia do Meio Rural, competente em matéria de agricultura, gandería e montes na Galiza.

 

Baixo a responsabilidade do conselheiro D. Alfredo Suárez Canal, pôs-se em marcha o Banco de Terras da Galiza, ao amparo da Lei 7/2007 de Conservação da Superfície Agrária Útil, na que se indica:

 

Tendo em conta a função social do direito de propriedade, faz-se necessário levar a cabo uma mobilização das superfícies agrárias úteis hoje improdutivas, que permita o redimensionamento das explorações que sobrevivem a uma maior *extensificación e redução de inputs e, assim mesmo, a ampliação da base territorial das explorações existentes, de modo que se convertam, em definitiva, num factor de riqueza colectiva”

 

SITUAÇÃO DE PARTIDA: Parcelario

 

Aínda que estarei a referime á situación particular da Galiza, analisaremos algúns dados de Portugal, e olharemos que a situação é similar, en muitos casos.

 

A ESTRUTURA PARCELARIA EM a GALIZA

  • 97% da superfície rural em regime de propriedade privada1,6 milhões de titulares catastrais (3 milhões de habitantes)

  •  
  • 3 milhões de hectares (2 ha por titular)

  • 7 parcelas por titular (menos de 0,3 ha parcela)

  • Em muitos casos, os titulares não são os gestores da terra

  • Muitas parcelas sem nenhum tipo de gestão

  • 1 ocupado agrário por cada 22 titulares cadastrais

  • Dispersão parcelaria, que obriga a contínuos deslocamentos

  • Situação semelhante no norte de Portugal. Em alguns países da Europa Central e do Leste há situações de fragmentação parcelaria similar, trás acontecimento sócio - políticos recentes

ALGUMAS CAUSAS DA FRAGMENTAÇÃO

  • Dinâmicas demográficas do rural

  • Estratégias e costumes hereditários do sistema agrário tradicional

  • Vinculação afetiva à origem familiar

  • Modelo de assentamento (dispersão de núcleos)

  • Expectativas de uso residencial e retorno emigrante

  • Falta de ordenação territorial

  • A terra como bem raiz e valor refúgio

  • Diversidade territorial do espaço rural

  • Insuficiente adaptação das estruturas às mudanças experimentadas pelo sector nas últimas décadas

SITUAÇÃO DE PARTIDA: Explorações

  • Descenso no número de explorações das últimas décadas sem levar emparelhado o incremento da base territorial das que se mantêm

  • Grande parte das terras de vocação agrária sem nenhum tipo de gestão, com um deficiente aproveitamento d ou em estado de abandono

  • Não se realizou transferência de Superfície Agrária Útil (SAU) por arrendamentos, ao invés do sucedido no resto da Europa ocidental

  • Falta de unidades produtivas viáveis. Dimensionamento da exploração inadequado

GALIZA

  • SAU Galiza: 25% dele território (UE15 mais de 50%)

  • SAU/ exploração: 8,5 hectares (UE15: mais de 25 hectares)

  • 80% da SAU pertencem à exploração ou à família (UE27: 50%)

  • 70.000 ocupados no sector agrícola, pecuário e florestal

PORTUGAL

  • SAU Portugal: 39% dele território (UE15 mais de 50%)

  • SAU/ exploração: 12,6 hectares (UE15: mais de 25 hectares)

  • 70% da SAU pertencem à exploração ou à família (UE27: 50%)

  • 200.000 ocupados no sector agrícola, pecuário e florestal (estimados)

  • Descenso da SAU 8% (1989-2005)

  • Terras aráveis passam de 60% a 35%

  • Pastos permanentes passam de 21% a 48%

  • Redução do número de explorações 3% anual (1989-2005)

  • Encerramento de 50% das explorações pequenas (<5 hectares)

  • Encerramento de 25% das explorações a tamanho médio e grandes

  • Últimos 10 anos, perda 100.000 ocupados agrários (1/3 do total)

PORTUGAL

GEO/TIME

ha SAU

%SAU

ha SAU propiedade

Nº exploraçons

SAU/Explor

1990

4.005.570

45%

2.761.890

598.740

6,7

1993

3.949.860

44%

2.748.590

489.030

8,1

1995

3.924.620

44%

2.730.600

450.640

8,7

1997

3.822.120

43%

2.658.870

416.690

9,2

2000

3.863.090

43%

2.797.210

415.970

9,3

2003

3.725.190

42%

2.632.780

359.280

10,4

2005

3.679.590

41%

2.588.580

323.920

11,4

2007

3.472.940

39%

2.447.360

275.080

12,6

Fonte: Eurostat, Enquisa Estrutura Exploraçons Agricolas

 

CONSEQUÊNCIAS

  • Dificuldade de inovação e melhoras tecnológicas

  • Incremento custos de produção (deslocamentos, valados, capacidade de carga pecuária/parcela insuficiente)

  • Menor eficiência do fator trabalho

  • Índice produtividade/ocupado aceitável em produções intensivas (horta, flor, vinhedo)

  • Em cultivos e explorações pecuárias extensivas tradicionais, viabilidade comprometida

  • Diminuição das rendas da família no rural

  • Medidas da PAC pensadas para modelos estruturais de maior escala, ineficazes no nosso contexto

  • Falta de ordenação: florestamento de terras de elevado valor agrícola

  • Processos de modernização clássicos não adaptados ao modelo minifundiário com possíveis alternativas viáveis

Conclusões: Perda de uma riqueza de interesse para o país

  • Excessiva fragmentação de parcelas de pouca dimensão

  • Feche explorações sem transferência da base territorial

  • Contínua redução da superfície agrária útil

  • Insuficiente base territorial para garantir a viabilidade

  • Mínimo relevo geracional. Êxodo rural

  • Envelhecimento da população rural

  • Abandono: perda da paisagem tradicional

  • Redução da diversidade ecológica

  • Risco de lumes. Degradação dos solos e aqüíferos

INTERVENÇÃO PÚBLICA?

  • Nenhum país pode deixar a produção de alimentos exclusivamente em mãos de terceiros.

  • Há que ter em conta a função social do direito de propriedade

Os governos devem intervir para:

  • Ordenação territorial de uso

  • Conservar a Superfície Agrária Útil

  • Melhorar a situação estrutural das explorações: tamanho, forma e acessibilidade

  • Buscar a viabilidade e competitividade do sector

  • Estabelecer critérios de eqüidade e acesso democrático aos recursos

  • Intervir na melhora do funcionamento do comprado de terras: mecanismos e legislação sobre de transferências, arrendamentos, herança...

  • Gerir o cadastro, serviços de valoração e regime tributário das terras

POSSIBILIDADES DE INTERVENÇÃO

Reforma das Estruturas: (forma, tamanho, acessos...)

  • Aparcelamento (reorganização da propriedade)

  • Polígonos de associação (reorganização do espaço)

  • Limitação da subdivisão (Unidades Mínimas de Cultivo)

  • Direito de aquisição preferente de colindeiros

  • Isenção tributária de permutas (trocos) para agrupamento

Mecanismos de mobilidade (regime de possessão - tenência )

  • Acesso à propriedade (compra, doação, herança ...)

  • Acesso ao uso (arrendamentos, parcerías, cessões...)

  • Agrupamento de explorações (integração empresarial)

  • Transferência direitos de uso às explorações: Banco de Terras

Mobilização de terras: POSSIBILIDADES

 

Dificuldades para mobilização por Compra

  • Acesso à propriedade muito recente (culminado ? 1920)

  • A terra, como património em situação de crise

  • Isenção ou baixa *fiscalidade. Difícil gestão tributária

  • Preços inassumibles, e economicamente inviáveis

  • Reduzida capacidade financeira pelo tamanho das explorações

  • Falta de mercado fluido: inexistência de preços tipo

Dificuldades para mobilização por Arrendamento

  • Temor à perda da titularidade do capital territorial

  • Risco de demoras no pagamento e falta de pagamento

  • Prevenção diante do deterioro do património arrendado

 

UM BANCO PÚBLICO DE TERRAS ?

 

Para que ?

 

  • Explorações que queiram aumentar a sua superfície agrícola

  • Criação de novas explorações agropecuárias

  • Jovens que queiram dedicar à actividade agrária

  • Ampliação da base territorial de cooperativas agrárias

  • Recuperação da actividade agrária em zonas afectadas pelo envelhecimento ou êxodo rural

  • Estabelecimento de campos de investigação ou experimentação

  • Incorporação ao património público por conveniência ambiental ou interesse social

De que modo ?

  • Criando um banco que faça as gestões necessárias para mobilizar as terras mediante ARRENDAMENTOS

  • Um banco onde possamos inscrever as nossas fincas permitindo que sejam arrendadas.

  • Um banco onde os agricultores possam solicitar fincas em aluguer para alargar a sua base territorial

  • Um banco ágil, com arrendamentos pactuados entre cinco anos (mínimo) e trinta anos (máximo)

 

Com que médios ?

  • BANTEGAL: Instrumento da Administração para a intermediación e gestão dos bens do Fundo de Terras

  • OACs: Escritórios Agrários Comarcais (distritos), estrutura periférica da Conselharia do Meio Rural de apoio, gestão e assessoramento das explorações

  • SITEGAL: Sistema de Informação de Terras da Galiza, aplicação para a gestão do Banco de Terras via web realizada pelas Universidades da Corunha e Santiago.

 

Com que garantias ?

  • Garantia de devolução ao proprietário acabado o período de arrendamento

  • Garantia de cobro do preço estabelecido

  • Garantia de devolução das terras em normal estado de uso

 

COMO FUNCIONA O BANCO DE TERRAS: GESTÃO DE ARRENDAMENTOS

 

SOCIEDADE DE GESTÃO:

 

Acredite-se uma sociedade gestora do Banco de Terras, de carácter público, o BANTEGAL. A fórmula de Sociedade Anónima escolhida pretende a *axilidade administrativa mais complexa noutro tipo de organismos (Subdirección Geral, Instituto, Ente Autónomo, Agência, Gestoría?)

 

APLICAÇÃO DE GESTÃO

 

Em convénio com as Faculdades de Informática (Universidade da Corunha) e de Agrônomos (Universidade de Santiago) e com a colaboração do Escritório Territorial do Cadastro, desenha-se uma aplicação informática, o SITEGAL, com a utilização das *NTIC * e os *SIG

 

*NTIC: Novas Tecnologias da Informação e Comunicação *SIG: Sistemas de Informação Geográfica

 

MARCO CONTRATUAL

  • O Bantegal absorve o peso do marco contratual, existindo sempre dois contratos: Proprietário -Bantegal por um lado e Bantegal - Agricultor pelo outro.

  • Os aspectos principais são o tempo de cessão (entre 5 anos mínimo e 30 anos máximo) e a renda, para o que se estabelecem uns preços de referência.

  • Quando o proprietário incorpora um prédio ao Banco de Terras, autoriza ao Bantegal a cedê-lo a terceiros por um prazo máximo de 5 anos (excepto consentimento expresso de prazo diferente)

 

CONFORMAÇÃO DOS RISCOS

O Bantegal assume os custos de garantia associados à transacção:

  • Garante o cumprimento dos prazos, fazendo-se responsável pelas relaciones *contractuais.

  • Assegura o cobro da renda por parte do proprietário independentemente do cumprimento do pago por parte do *arrendatario.

  • Faz-se responsável #subsidiário dos possíveis danos causados no prédio, assegurando para o proprietário a recuperação da finca em condições *equiparables no ponto da sua incorporação ao Banco

 

Preços de Referência

Não existem preços de mercado nem de compra venda nem de arrendamento, pela reduzida actividade dos comprados.

 

A própria fragmentação e heterogeneidade territorial dificultam a valoração.

Por esta razão, considerou-se o interesse de fixar uns Preços de Referência, com carácter voluntário, que aprova anualmente a Comissão Técnica de Preços e Valores

 

Representantes: Conselharias de agricultura, de economia, de ordenação do território, de médio ambiente, Federação Galega de Municípios e Províncias, Gerência Territorial do Cadastro, Associação Galega de Cooperativas Agrárias e Organizações sindicais do Conselho Agrário Galego.

 

CONSERVAÇÃO DA SUPERFÍCIE AGRÁRIA

 

Medidas de fomento:

Benefícios tributários

Ajudas e subvenções

Regime Sancionador

Direito de aquisição preferente:

Tenteo e Retrato

 

MEDIDAS PROATIVAS E MEDIDAS COERCITIVAS

A lei estabelece benefícios tributários, ajudas, subvenções e sanções, com o objectivo de proteger e conservar a SAU

 

Poder-se-ia pensar num encargo ou contributo as fincas agrárias, com uma isenção às fincas trabalhadas, como incentivo para a conservação da SAU

 

Na Galiza, o elevado grado de fragmentação (13 milhões de prédios rústicos) e as próprias deficiências na identificação cadastral fã praticamente inviável a gestão de um contributo fiscal que deve ter carácter universal

 

Por essa razão, considerou-se estabelecimento de um regime sancionador (a sanção não tem que ser universal, senão pontual e exemplificante e a gestão mais adequada.

 

MEDIDAS PROATIVAS (PARA AS FINCAS DO BANCO DE TERRAS)

Benefícios tributários

 

Vendas ou *permutas: Dedução de 95% no Imposto de Transmissões Patrimoniais e Actos Jurídicos Documentados.

 

Ajudas e subvenções

 

O governo poderá estabelecer linhas de ajudas destinadas à limpeza, posta em cultivo ou melhoras, das que poderão ser beneficiários tanto os proprietários coma os arrendatários.

 

Poderá subscrever convénios de colaboração para a concessão de empréstimos ou subvenções aos arrendatários para a sua aquisição, limpeza, posta em cultivo ou melhoras.

 

MEDIDAS COERCITIVAS: REGIME SANCIONADOR

O governo estabelece mecanismos tendentes à conservação da SAU e actuações sobre as fincas incultas ou abandonadas, mediante procedimentos sancionadores quando estas situações possam causar prejuízos a terceiros.

 

Considerasse situação de GRAVE ABANDONO aquela finca inculta ou abandonada que possa favorecer o aparecimento e a propagação do lume, fenômenos de erosão e uma especial incidência de más ervas, pragas ou doenças que possam afectar os prédios lindeiros

 

Infracções leves:

  • Apercebimento ou multa ate 300 euros

 

Infracções graves:

  • Multa entre 301 e 1.000 euros

 

Infracções muito graves

  • Multa entre 1.001 e 3.000 euros

 

Multas coercitivas

  • Reiteradas com um custo de ate 1.000 euros

 

EXCEPÇÕES

Não serão objecto de expediente determinais fincas agrárias:

 

  • Aquelas sobre as que se realize, quando menos, agricultura de conservação, e que no representem risco de lume nem prejuízo aos colindantes.

  • As que estejam incluídas no BANCO DE TERRAS excepto que o BANTEGAL as tenha cedido em arrendamento.

 

DIREITO DE AQUISIÇÃO PREFERENTE

 

O Bantegal desfrutará de um direito de aquisição preferente de prédios rústicos situados nas zonas de especial interesse agrário, com a pretensão de preservar a SAU

 

OBJECTIVOS:

  • Incorporação ao património público por conveniência ambiental ou por outros motivos de interesse social determinado.

  • Evitar movimentos especulativos e mesmos florestacións indiscriminadas que possam ocasionar perda se SAU em zonas com evidente aptidão agrícola.

  • Limita-se exclusivamente a transacções com destino não agrário, para evitar pressões especulativas em terreno de vocação agrícola e, nomeadamente, naquelas zonas concentradas com fundos públicos.

  • Não haverá lugar ao exercício dos direitos de tenteo e retrato nas transmissões a favor de filhos e descendentes, ascendentes nem cônjuges

  • Também não nos casos de transmissões a favor daqueles que sejam profissionais da agricultura e agricultores a título principal

 

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Galiza, Agosto de 2010

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