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Banco de Inglaterra salva fundos privados de pensões, mas não afasta crise financeira

Desde que o novo governo tomou posse, os mercados britânicos de ações e obrigações já perderam 500 mil milhões de dólares. E a queda pode não ficar por aqui.
Foto Banco de Inglaterra/Flickr

O anúncio das novas medidas do governo britânico recém-constituído parece ter provocado um terramoto financeiro no Reino Unido. Após a primeira-ministra Liz Truss anunciar o enorme corte de impostos para os mais ricos, que vai custar cerca de 45 mil milhões de libras e beneficiar maioritariamente quem ganha mais de £150.000 por ano, a libra caiu para o valor mais baixo desde 1985 e o pânico tomou conta dos mercados financeiros.

A taxa de juro que o Reino Unido paga para emitir dívida pública subiu para 4,47% (bem acima do que a que é paga por Portugal, por exemplo). O colapso da moeda britânica só foi estancado pela entrada em cena do Banco de Inglaterra, que aprovou rapidamente um novo programa de compra de títulos de dívida pública “no valor que for necessário”.

O governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey, emitiu um comunicado onde garante que “está a acompanhar de muito perto a evolução dos mercados financeiros, à luz da significativa reavaliação dos ativos financeiros”, dizendo que “não hesitará em alterar as taxas de juro tanto quanto for necessário para fazer regressar a inflação ao objetivo de 2% de forma sustentável a médio prazo”.

A intervenção do Banco de Inglaterra destina-se a conter a volatilidade dos preços nos mercados: ao comprar os títulos de dívida pública que estão a ser postos à venda, o banco central evita que o seu preço caia demasiado, com o objetivo de estabilizar o mercado financeiro. Entre os principais beneficiários estão alguns fundos privados de pensões, que terão estado perto de entrar em insolvência.

De acordo com fontes internas do banco central, os fundos de pensões arriscavam-se a perder boa parte do dinheiro que investiram em outros fundos financeiros muito expostos à volatilidade dos preços. Essas perdas podiam ter um impacto significativo para muitas famílias, uma vez que o valor das pensões destes fundos depende dos resultados dos seus investimentos, além de poderem também desencadear uma vaga de falências de instituições financeiras.

Apesar disso, o risco de uma crise financeira não está posto de parte. Os mercados britânicos de ações e obrigações já perderam 500 mil milhões de dólares de valor no curto espaço de tempo desde que o novo governo tomou posse e a queda pode não ficar por aqui. Embora a intervenção do Banco de Inglaterra tenha ajudado a conter algumas perdas para as empresas, a política monetária do próprio banco central e a decisão de aumentar as taxas de juro está a agravar as dificuldades de muitas famílias.

A política monetária está a fazer disparar os juros dos empréstimos à habitação, à semelhança do que acontece na Zona Euro, com impacto significativo na carteira de muitas famílias. Tendo em conta que 15, 5 milhões de famílias britânicas - ou seja, cerca de 65% da população do país - são proprietárias da sua casa e que há mais de 2,5 milhões de empréstimos para os quais a taxa fixa vai expirar até 2023, muitas pessoas ficarão expostas ao aumento dos juros.

“Há o risco real de um colapso na atividade no mercado imobiliário e também nos preços, e nenhuma dessas tendências é particularmente boa para o mercado imobiliário em geral, ou para o conjunto da economia”, diz um analista financeiro citado pelo jornal Politico. Um colapso do mercado imobiliário poderia ter consequências semelhantes às da última crise financeira, com uma vaga de falências de bancos e empresas e um aumento do desemprego.

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