Na noite eleitoral das autárquicas francesas, o Covid-19 foi o assunto mais falado. Pelas consequências que está a ter em França, claro, mas também devido à abstenção que causou, levantado questões sobre a influência que teve nos resultados.
Por isso, imediatamente, depois de conhecidos os primeiros resultados, a questão da realização ou adiamento da segunda volta ocupava grande parte dos comentários. Com um sistema maioritário a duas voltas, em muitas das autarquias francesas o próximo domingo seria de regresso às urnas depois destas eleições.
Vários partidos começaram a fazer eco das muitas vozes que diziam não haver condições para a realização normal do ato eleitoral. François Ruffin da França Insubmissa, Yannick Jadot dos verdes, Bruno Retailleau dos Les Republicains e Marine Le Pen, a dirigente da extrema-direita foram dos que exigiram isso este domingo.
O primeiro-ministro, Edouard Philippe, começou por dizer que se iria reunir, “no início da próxima semana” com peritos e representantes dos partidos de forma a consensualizar uma solução. A AFP e a Reuters avançam esta segunda-feira que a decisão de adiamento para 21 de junho foi tomada.
Já a decisão de manter as eleições para o domingo passado tinha sido polémica, depois do governo ter decretado o fecho de “todos os locais públicos não indispensáveis à vida do país”.
A abstenção atingiu 55,36%. Em 2014, tinha sido apenas de 36,45% As grandes cidades foram das mais afetadas. A abstenção chegou a 67,24% em Marselha, a 61,5% em Lyon, em Bordéus 64% e em Paris 57,7%.
Verdes a subir, partido do governo não consegue estabelecer-se como partido autárquico
Os verdes foram quem teve as melhores notícias da noite, subindo em muitas localidades. O líder da Europa Ecologia – Os Verdes (EELV), Julien Bayou, foi contudo prudente dadas as circunstâncias em que “a epidemia esmaga todo o comentário político”.
Por isso, não houve festa. Mas, descontados os efeitos trágicos do novo coronavírus no país, havia mesmo motivos para festejar. Em Lyon, obtiveram o primeiro lugar destacado com 28,46%, com Grégory Doucet, um candidato que era desconhecido à partida, sendo agora a força política favorita para a segunda volta. Em Bordéus, Lyon, Estrasburgo, Grenoble, Tours e Besançon, os bons resultados dos candidatos desta área também surpreenderam, colocando-os na disputa da câmara. Em Rennes, Lille e Nantes, apesar de terem ficado mais longe da conquista do governo local serão determinantes para a manutenção no poder dos presidentes socialistas.
A extrema-direita também não se pode queixar. O Reagrupamento Nacional, ex-Frente Nacional, Marine Le Pen, conseguiu reeleger à primeira volta alguns dos seus (poucos) presidentes de Câmara como Steeve Briois em Hénin-Beaumont, Julien Sanchez em Beaucaire ou David Rachline em Fréjus. Outros bons resultados foram obtidos em Béziers por Robert Ménard com 68,7% e em Perpignan onde Louis Aliot, com 35,6%, se posiciona também como favorito. A presença autárquica do partido continua contudo a contrastar com a sua votação bem mais forte em eleições de âmbito nacional.
O mesmo se poderá dizer, até com mais propriedade, do partido do governo. O La Republique en Marche, reunido à volta da figura presidencial de Macron, não conseguiu estabelecer-se como partido autárquico. Com muitos presidentes a garantirem a reeleição, nenhuma das grandes cidades deverá ficar, no final deste processo, nas suas mãos. O que quer dizer que o contrário também se aplica: onde havia presidentes de câmara apoiantes de Macron, muitos conseguiram a reeleição, como foi o caso de três dos seus ministros, Gérald Darmanin, Sébastien Lecornu e Franck Riester, que tinham sido eleitos nas autárquicas anteriores nas listas da direita.
Em Estrasburgo, que era uma aposta do partido uma vez que apresentava como candidato o vice-presidente da Câmara que tinha sido anteriormente eleito pelo Partido Socialista, a LREM ficou abaixo das expetativas com 19%.
E, na maior parte do país, fica abaixo dos 20%, aspirando no máximo a ter força negocial nos casos em que os presidentes não tenham maiorias seguras.
Direita ameaçada em algumas grandes cidades
À direita, a LR contava com um efeito tradicional: a punição nas autárquicas do partido do governo. A possibilidade de um crescimento não se verificou. Isto apesar da direita manter grande parte das câmaras. E a possível perda de algumas grandes cidades, nas quais costumava obter maiorias seguras, não pode mesmo deixar de se apresentar como uma derrota.
Em Paris, a presidente de Câmara socialista, Anne Hidalgo, obteve um bom resultado. Com participação de apenas 43% dos eleitores, os socialistas alcançaram 29,33% dos votos, a candidata da direita, Rachida Dati, dos Les Republicains, com 22,72%, parece longe de conseguir disputar a hegemonia. Agnès Buzyn do La Republique en Marche, conseguiu 17,26% e o candidato dos verdes David Belliard 10,79%.
Para além do destaque natural da capital, as atenções nacionais estavam também voltadas para Le Havre. O primeiro-ministro, Edouard Philippe, que tinha vencido as eleições anteriores na primeira volta, não conseguiu que o feito fosse repetido. O partido do governo obteve 43,59%, enfrentando a subida forte do candidato comunista, Jean-Paul Lecoq, com 35,87%, aliado com a France Insoumise e a Génération-s. Numa segunda volta, será provável que se unam aos verdes, num cenário que pressionaria Philippe. Isto porque uma derrota da LRM em Le Havre pode custar-lhe a chefia do governo.
Em Marselha, a esquerda também surpreendeu. Depois de 25 anos de governação à direita com Jean-Claude Gaudin, a candidata que o substituiu à frente dos Les Republicains, Martine Vassal, ficou em segundo lugar com 22,3% dos votos e a extrema-direita, que apresentou Stéphane Ravier, conseguiu 19,45, um resultado fraco face ao esperado que o candidato justificou por achar o seu eleitorado “o mais disciplinado e que toma todas as precauções, até não ir votar”. Uma candidatura unitária de esquerda, denominada Primavera Marselhesa, fez com que Michèle Rubirola ficasse em primeiro lugar com 23,44 %. “Um dia histórico para Marselha”, considerou.
As contas da direita complicam-se porque a lista verde, Debout Marseille, encabeçada por Sébastien Barles, apelou a “uma aliança ampla das forças progressistas para acabar com o sistema que arruinou Marselha” e até o dissidente da LR, Bruno Gilles, que conseguiu 10,65% dos votos, apelou a “um amplo arco progressista para bater as listas de Martine Vassal e Stéphane Ravier”.
Em Bordéus, cidade governada tradicionalmente à direita, a lista liderada por Pierre Hurmic do EELV e que juntava o Partido Socialista, o Partido Comunista Francês, o Génération.s, a Nouvelle Donne e a Place publique, conseguiu desafiar Nicolas Florian que apenas obteve mais 96 votos. É a primeira vez desde 1947 que a direita não vence à primeira volta.
Também em Toulouse a direita terá de trabalhar para vencer numa segunda volta. O presidente anterior contava com o apoio dos LR e a da LRM e venceu com 36,1%. Uma vitória que não é tranquilizadora porque Antoine Maurice teve 27,5%, à frente de uma lista chamada Arquipélago Cidadão, uma junção de verdes, França Insubmissa, socialistas dissidente e grupos de cidadãos. E este resultado pode vir a somar-se ao de Nadia Pellefigue que teve 18,5% com a lista Uma Nova Energia que juntou, por sua vez, UNE, PS, PCF e PRG.
Outros resultados positivos para a esquerda aconteceram em Grenoble, onde o presidente Eric Piolle, apoiado por EELV, LFI e PCF teve uns seguros 46,68% de votos, em Rennes, onde Nathalie Appéré, presidente anterior conseguiu 32,77%, superando o candidato dos verdes, Matthieu Theurier, que subiu até aos 25,37% e Nantes onde o PS teve 32,83%.