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Atualidade(s) do perigo fascista

Precisamos de lutar em duas frentes: contra o centro extremista, cujas políticas neoliberais, autoritárias e racistas alimentam constantemente a dinâmica fascista e assim ameaçam provocar o pior; e contra a extrema-direita, que desvia a cólera popular ao visar prioritariamente as minorias. Por Ugo Palheta.
Autocolante sobre o fascismo. Foto de Jacob Earl/Flickr.
Autocolante sobre o fascismo. Foto de Jacob Earl/Flickr.

Um espectro assombra o mundo no início do século XXI: o espectro do fascismo. A metáfora espectral é útil para sublinhar que o fascismo é de facto uma alma do outro mundo, regressando ao mundo dos vivos após o que poderia ter sido ingenuamente considerado a sua morte clínica em 1945, depois da derrota militar da Alemanha nazi (i).

Sabíamos com Brecht que “ainda é fecundo o ventre de onde surgiu a besta imunda”, mas isso permaneceu uma consideração abstrata enquanto as condições em que o fascismo se pode desenvolver e prosperar não reapareciam. Da mesma forma, sabíamos – com Orwell – que "quando os fascistas [regressarem], [terão] o guarda-chuva bem enrolado debaixo do braço e chapéu de coco”. É certamente um princípio de precaução útil, uma vez que nos convida a não reduzir o fascismo às suas formas de manifestação mais visíveis e espetaculares (os grandes desfiles com marcha de passo de ganso, as milícias de massas uniformizadas e, de modo geral, tudo o que se refere à estilística fascista). Mas isto não nos dizia nada sobre a roupagem política que o fascismo iria usar, as novas formas que a sua ideologia iria assumir, e as estratégias que os seus herdeiros, declarados ou não (e a maioria deles sabe muito bem que não se pode reivindicar a ideologia política mais legitimamente injuriada do século XX sem ser condenado à marginalização), usariam para assegurar que este projeto criminoso pudesse erguer-se das suas cinzas, encontrar de novo o ouvido de milhões de pessoas e voltar a ser candidato ao poder político.

É verdade que, entre aqueles que afirmam o regresso da ameaça fascista, alguns tentam fazer esquecer o seu desastroso historial político, uma das consequências do qual é precisamente a progressão da extrema-direita, e aparecer como salvadores improváveis. Assim, vimos Emmanuel Macron, Hillary Clinton, Matteo Renzi ou, mais recentemente, Joe Biden, apresentarem-se como "progressistas" e como um "baluarte" contra a ascensão de Le Pen, Trump ou Salvini. Ora este extremo-centro neoliberal é de facto o grande culpado no renascimento e desenvolvimento das extremas-direitas, de modo que nenhuma alternativa real a estas últimas é possível sem uma rutura com o capitalismo neoliberal e sem uma independência completa dos partidos que governam em nome da burguesia (mesmo quando estes persistem em afirmar ser da esquerda). Mas a lucidez obriga-nos a não ficar pelo caminho: se existe um perigo específico, ele não desaparece simplesmente porque é instrumentalizado pelos políticos neoliberais; e se estes últimos obviamente aproveitam o sucesso das extremas-direitas para chegar ao poder ou para se manterem no poder, isto não significa que as forças ultra-nacionalistas, reacionárias e racistas sejam meras marionetas nas mãos do extremo centro neoliberal e do capital.

Do que falamos quando falamos de Fascismo?

Uma vez dito isto, e se concordarmos que as extremas-direitas constituem um perigo em si mesmas, e que por isso é importante enfrentá-las, será que podemos falar de um regresso do fascismo? Por outras palavras, será que podemos usar uma categoria tão significativa historicamente para pensar sobre a situação política atual e as extremas-direitas contemporâneas? Responder a esta questão de uma vez por todas exigiria uma definição consensual do fenómeno fascista; caso contrário, é provável que cada um elabore uma definição que lhe permita apoiar facilmente a tese que prefere. E basta olhar para o debate americano sobre Trump ou para o debate francês sobre a Frente Nacional/União Nacional (ii) para ver que tal consenso não existe. No entanto, é possível avançar salientando primeiro duas armadilhas: uma definição tão restritiva que proíbe qualquer comparação (fascismo redutível ao fascismo italiano dos anos 20 e 30); uma definição tão ampla (habitualmente o fascismo como autoritarismo) que abrange uma multiplicidade de fenómenos e já não capta nada especificamente, quer a nível ideológico, quer a nível das formas como o poder é conquistado e exercido.

Se o fascismo é um fenómeno político multiforme, de tal forma que já existiam diferenças substanciais entre movimentos geralmente descritos como fascistas PNF(1) de Mussolini, NSDAP(2) de Hitler, Falange espanhola(3), Guarda de Ferro(4) romena, PPF(5) de Doriot, etc.), o facto de se utilizar a mesma categoria para pensar sobre eles implica que têm algo em comum, para além de uma simples "semelhança de família": uma ideologia que lhes permite abordar as massas, uma estratégia para conquistar o poder político e uma função do ponto de vista do sistema socioeconómico. Uma ideologia: a regeneração de uma nação fantasmática, mitificada e essencializada, que deve ser alcançada através de uma dupla purificação (étnica e política), visando as minorias (étnico-raciais, religiosas, de género) por um lado, e os movimentos sociais e as esquerdas (moderadas ou radicais) por outro. Uma estratégia: a construção e desenvolvimento de uma organização que procura aparecer quer como alternativa aos partidos burgueses tradicionais (aos olhos dos proprietários) quer aos partidos dos trabalhadores (aos olhos dos despossuídos). Uma função: o restabelecimento da ordem política, através da destruição de qualquer espaço democrático (mesmo que mínimo), e o reforço de uma ordem socio-económica, através do esmagamento de qualquer contestação.

Assim, em nossa opinião, não é a constituição de grupos armados, nem mesmo o recurso à violência política, que constitui a especificidade do fascismo, quer como movimento, quer como regime: não que não estejam presentes de forma central, mas outros movimentos e outros regimes, não pertencentes à constelação dos fascismos, utilizaram a violência para conquistar ou manter o poder, por vezes assassinando dezenas de milhares de opositores (para não mencionar o uso legítimo da violência pelos movimentos de libertação, nomeadamente em situações de opressão colonial baseada na violência). Apesar de serem a dimensão mais visível do fascismo clássico, as milícias extra-estatais são na realidade um elemento subordinado à estratégia das lideranças fascistas, que as utilizam taticamente de acordo com as exigências impostas pelo desenvolvimento das suas organizações e pela conquista legal do poder político (o que supõe, desde o período entre guerras, e ainda mais atualmente, parecerem um pouco respeitáveis, e portanto afastar as formas mais visíveis de violência). A força estratégica dos movimentos fascistas ou neofascistas é assim medida pela sua capacidade de manipular – de acordo com a conjuntura histórica – táticas legais e violentas, "guerra de posição" e "guerra de movimento" (para usar as categorias de Gramsci).

Determinar o carácter fascista de um movimento não equivale, assim, a ver se contém em lugar de destaque membros fascistas ostensivos, abertamente nostálgicos de Mussolini ou Hitler, ou se exprime uma pretensão de continuidade com o fascismo histórico, mas sim a verificar em que medida contém estes elementos fundamentais (ideologia, estratégia, função). Deste ponto de vista, parece-nos que muitos políticos e movimentos contemporâneos de extrema-direita – desde o BJP indiano à FN/RN, passando pela Lega italiana e Bolsonaro – deveriam ser chamados neo-fascistas, e não simplesmente "populistas". Esta última categoria apenas obscurece os debates na medida em que mistura, com base em critérios vagos, líderes da esquerda e da extrema-direita que nada têm em comum no que diz respeito aos seus projetos políticos: Sanders e Trump, Mélenchon e Le Pen, Corbyn e Farage, etc. Além disso, por detrás da crítica neoliberal ao "populismo" encontra-se frequentemente um desprezo de classe, até mesmo um ódio ao povo – entendido aqui no sentido das classes trabalhadoras – quando agem politicamente porque já não estão satisfeitos com o lugar que lhes foi atribuído. Denunciar o "populismo" equivale então muitas vezes a imputar impulsos autoritários e racistas ao povo, apesar de serem os governos neoliberais europeus, em primeiro lugar o de Emmanuel Macron, que se envolveram numa ofensiva autoritária e cujas políticas anti-migração conduzem à morte de milhares de migrantes todos os anos às portas da Europa.

De que crise resulta o desenvolvimento do fascismo?

Uma outra forma de abordar o problema é interrogarmo-nos sobre o momento político em que vivemos e no qual somos levados a agir, ou seja pensar no período. Se é importante considerar de forma séria a hipótese do perigo fascista, não é apenas porque as forças políticas estejam situadas numa continuidade subterrânea e discreta com o fascismo histórico, mas porque as coordenadas políticas do período apresentam semelhanças importantes (para além das diferenças óbvias no grau de integração da economia mundial, nas estruturas de classe, no nível de organização das classes trabalhadoras, ou na relação das populações com a violência, etc.). Isto equivale a colocar a pergunta simples: como é que o projeto fascista, tal como descrito acima e como é constantemente atualizado pela extrema-direita de acordo com o contexto, conseguiu encontrar um público de massa?

Fazer a pergunta desta forma não é assumir que "as massas" quereriam conscientemente o fascismo ou teriam um desejo inconsciente de fascismo; é constatar que grandes segmentos da população já estão seduzidos por elementos centrais da ideologia neofascista, embora obviamente não se concebam a si mesmas como fascistas, não estejam neste momento preparados para se alistarem sob a bandeira de organizações de extrema-direita (e muito menos de milícias armadas), e, na grande maioria dos casos, não relacionem este ou aquele elemento do discurso com a totalidade ideológica em que ele está inserido e que lhe dá o seu verdadeiro significado. No entanto, os fascismos históricos não precisaram de obter uma maioria eleitoral para conquistar o poder político; bastou-lhes ter o apoio de uma franja significativa da população, sem que esse apoio se traduzisse num apoio ideológico inabalável, para que aparecessem aos detentores do poder como uma solução política (pelo menos em certas circunstâncias que precisam de ser especificadas). Por outro lado, o elemento de participação das massas que é peculiar ao fascismo, por oposição a outras ditaduras reacionárias que procuram, pelo contrário, desencorajar tal participação, pode ser de intensidade variável e assumir várias formas (desde o voto até à participação em milícias, passando por tornar-se um simples membro da organização ou membro de uma associação a ela ligada, etc.); para além disso, essa participação das massas é suscetível de ser fortemente estimulada pelo acesso aos recursos materiais e simbólicos associados ao exercício do poder do Estado.

A originalidade do fascismo reside no facto de ser um movimento reacionário de massas que deve ser aqui compreendido no sentido em que procura o apoio das massas (mesmo que seja sempre como ajudantes na medida em que a ideologia fascista valoriza escandalosamente o papel dos presumíveis líderes "naturais"). Mas em que circunstâncias pode este apoio ser obtido? Por outras palavras, de que tipo de crise é o desenvolvimento do fascismo o resultado? Aqui devemos deixar de lado as interpretações liberais, que tendem a fazer do fascismo um parêntese incompreensível na marcha de progresso que a modernidade capitalista constituiria, ou o efeito de um simples fracasso das elites políticas e das políticas económicas. Em vez delas, duas outras interpretações presentes à esquerda merecem a nossa atenção.

A primeira tende a reduzir o fascismo a um produto mais ou menos mecânico da crise do capitalismo. Ao fazê-lo, não considera de forma séria a diversidade das trajetórias dos países que sofreram graves crises económicas: com essa interpretação, é difícil compreender como os Estados Unidos da década de 1930 ou a Grécia da década de 2010 poderiam ter escapado ao fascismo. Se a crise económica é claramente o pano de fundo no qual a ascensão do fascismo se irá desenrolar, ela é-o como condição de possibilidade, necessária para o seu desenvolvimento mas de forma alguma suficiente para o seu sucesso e para impor o seu domínio. O fascismo só tem alguma hipótese de vitória se a crise económica se transformar numa crise política, mas esta última pode assumir formas diversas e ser caracterizada por intensidades desiguais. Uma tese comum é que o fascismo é a resposta da burguesia a uma crise revolucionária, ou seja, à ameaça iminente de uma revolta popular. Esta tese é historicamente falsa: não que o desenvolvimento do fascismo não esteja relacionado com o medo da revolução social e com o obsessivo anticomunismo da burguesia europeia nos anos que se seguiram à Revolução Russa de 1917, mas nos casos da Itália e da Alemanha os fascistas chegaram ao poder não no auge das mobilizações populares mas, pelo contrário, quando a classe trabalhadora se encontrava em regressão, desorientada e desmoralizada.

O fascismo não é assim o produto de uma crise revolucionária mas sim de uma crise de hegemonia generalizada (para utilizar uma formulação de Gramsci reelaborada por Poulantzas (iii), na qual se combinam o enfraquecimento do domínio político burguês e a fraqueza dos movimentos de emancipação. Se assim é, é porque, perante a crise do seu próprio sistema e para manter a taxa de lucro, a burguesia está a travar uma luta feroz para se livrar das conquistas sociais e democráticas da classe trabalhadora; quer isto dê ou não origem a mobilizações de massas, não pode deixar de fragilizar a dominação política da burguesia, desmoronando, em particular, a confiança da população nos seus representantes políticos tradicionais, nos partidos políticos dominantes e mesmo nas próprias instituições políticas. Mas a crise de hegemonia é generalizada no sentido em que se estende a qualquer forma de política, mesmo contra-hegemónica: com as esquerdas e o movimento operário a mostrarem-se incapazes de apresentar uma solução para a crise política, uma parte significativa das massas populares em processo de afastamento dos partidos burgueses pode dar ouvidos à chamada "terceira via" proposta pelos fascistas. Em particular, podem ser seduzidos pela sua anti-política, que pretende ultrapassar a crise multiforme (económica, política, atualmente também ambiental), pelo apelo à "libertação da Nação" dos seus "inimigos" (os estrangeiros) e dos seus aliados (o "partido do estrangeiro", ou seja – do ponto de vista fascista – de toda a esquerda e dos movimentos sociais).

França, a trajetória da catástrofe

A França constitui um caso particularmente marcante deste tipo de crise, de uma engrenagem mortal ou ainda de uma trajetória de catástrofe, não no sentido de uma linha reta que deve fatalmente conduzir ao fascismo, mas enquanto uma dinâmica histórica que já está em curso, porque está inscrita em alguns dos traços fundamentais da política francesa, mas à qual é possível resistir. Três elementos, pelo menos, devem ser salientados a fim de clarificar esta inscrição.

Em primeiro lugar, verifica-se uma instabilidade política em França que tem vindo a agravar-se desde meados dos anos 90 até se tornar extremamente aguda, ao ponto de os dois partidos que governaram em nome da burguesia nas últimas (quase) quatro décadas serem agora marginalizados (nas últimas eleições europeias, o Partido Socialista (PS) obteve 6% dos votos e Os Republicanos apenas 8,5%). Emmanuel Macron foi precisamente chamado para superar esta crise de representação política, unificando as partes do PS mais abertamente convertidas ao neoliberalismo autoritário e os segmentos da direita mais resistentes ao “sarkozismo” (ou simplesmente o mais oportunista, se se pensar em Darmanin(6)). Ora, dado que as mesmas políticas (neoliberais) produzem as mesmas reações, rapidamente Macron se tornou impopular entre a população; o movimento dos Coletes Amarelos veio cristalizar politicamente esta desconfiança e fez rebentar o balão “macronista”. Macron é visto agora por aquilo que é realmente, tanto pelos seus opositores como pelos seus apoiantes: o líder do partido da ordem, unificado pelo objetivo de uma manutenção a qualquer custo dos privilégios de classe e o projeto de uma destruição completa das conquistas sociais (segurança social, serviços públicos, código do trabalho) e democráticos (liberdades públicas em particular). Mas enquanto o bipartidarismo PS/Direita manteve uma ilusão de alternativa, a unificação macronista fragiliza qualquer solução alternativa para a burguesia e pode levá-la a olhar para a extrema direita; a linha que Bolloré(7) aplica nos meios de comunicação que possui é talvez um sintoma disso (assim como certos sinais enviados pelo Medef(8), mesmo que este último se mantenha globalmente hostil à FN/RN nesta fase).

O segundo ponto diz respeito às esquerdas e aos movimentos sociais. Longe de terem sido amorfas ao longo das últimas duas décadas, têm até sido fundamentais para enfraquecer a hegemonia burguesa: desenvolvendo e divulgando uma crítica ao neoliberalismo e à globalização financeira, e fazendo recuar os governos em certos projetos emblemáticos (a reforma Juppé(9) em 1995, que visava pôr em causa o sistema de pensões, ou o "contrato primeiro emprego"(10) em 2006, que procurava aumentar a precariedade entre os jovens). No entanto não conseguiram pôr fim ao ciclo de empobrecimento das classes trabalhadoras, nem à ofensiva racista (nomeadamente a islamofobia), nem ao processo de endurecimento autoritário. Pior ainda, não conseguiram estabelecer-se como uma alternativa política ao capitalismo neoliberal, apanhados entre lógicas de integração/cooptação no seio do "bloco burguês " (iv) (particularmente da parte do partido Europa Ecologia – Os Verdes mas também, ao nível local, do Partido Comunista Francês), tendências para o isolamento e fragmentação sectária (da parte da esquerda revolucionária), ou a tentação de se esquivar à questão do poder político (nos movimentos autónomos). A corrente de Jean-Luc Mélenchon conseguiu conquistar uma audiência de massa durante algum tempo, particularmente durante as eleições presidenciais de 2017, mas não conseguiu, não soube ou não quis dar continuidade ao seu resultado eleitoral sob a forma de uma organização política democraticamente estruturada e amplamente implantada.

Por último, mas não menos importante, a situação política em França é marcada pela presença de uma extrema-direita que está profunda e solidamente enraizada no eleitorado, através do partido União Nacional (antiga Frente Nacional), mas também ideologicamente poderosa, no sentido em que os seus próprios meios de comunicação e ideólogos dispõem de uma grande audiência, divulgando continuamente as suas obsessões (islamofóbicas, xenófobas, machistas, homofóbicas, ultra-securitárias, etc.), enquanto constroem pontes com um eleitorado de direita radicalizado pela liderança de Sarkozy (2002-2012). Embora parte deste sucesso se deva à inegável habilidade dos seus líderes políticos (Marine Le Pen em particular) e dos seus ideólogos (Zemmour(11), por exemplo, mas existem muitos outros), não podemos compreender o poder da extrema-direita sem o colocarmos em três temporalidades distintas que interagem e se reforçam mutuamente: a temporalidade de longo prazo do imperialismo francês, cujo declínio favorece uma idealização mítica da nação francesa, bem como o apelo de representações baseadas no antigo contexto de racismo colonial; a temporalidade de médio prazo da crise de hegemonia, que se tem vindo a aprofundar nos últimos cerca de vinte anos em resposta a políticas socialmente destrutivas e que está a criar tanto uma desconfiança generalizada como um vácuo político; e a temporalidade de curto prazo (2015-2021), que se refere aos ataques cometidos por grupos que se reclamam islâmicos, mas sobretudo à sua instrumentalização pelos governos num sentido autoritário e islamofóbico (que se manifesta através de uma série de leis difamatórias).

Os anti-capitalistas encontram-se assim face a múltiplos desafios e de grande amplitude. Ao contrário do que uma representação simplista poderia sugerir, a luta de classes – quando se traduz numa luta política pelo poder – é muito raramente reduzida a um jogo entre dois atores. O que o período entre as duas guerras mundiais mostra é que em situações de crise, de desestabilização súbita ou prolongada da ordem política e social, movimentos de extrema-direita independentes dos partidos burgueses tradicionais podem conquistar uma audiência de massas e depois colocar esta audiência ao serviço do capital, forjando alianças com uma burguesia politicamente enfraquecida. Mais do que nunca, precisamos de lutar em duas frentes: contra o centro extremista, cujas políticas neoliberais, autoritárias e racistas alimentam constantemente a dinâmica fascista e assim ameaçam provocar o pior; e contra a extrema-direita, que desvia a cólera popular ao visar prioritariamente as minorias, em particular, no contexto ocidental, os migrantes e os muçulmanos.


Ugo Palheta é atualmente professor na Universidade de Lille, integrado na equipa "Culturas e sociedades urbanas" do Centro de Investigações Sociológicas e Políticas de Paris, o Cresppa-CSU. É também co-editor da revista Contretemps e membro do conselho editorial da revista Sociétés contemporaines.

Texto publicado na Revue L’Anticapitaliste, n°124 (março 2020), versão ligeiramente revista de um artigo publicado no Nouveaux cahiers du socialisme. Traduzido para o Esquerda.net por Paulo Antunes Ferreira.

Notas do autor:

i- O historiador do fascismo Zeev Sternhell advertiu em 2003: "Quer fosse admirador de Petain, de Mussolini, ou de Hitler, este movimento de direita, que reuniu os intelectuais mais proeminentes e as pessoas comuns das grandes metrópoles europeias, não nasceu nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, tal como não morreu nas ruínas de Berlim. Qualquer que seja a ideia que se tenha do seu futuro, esta direita ainda faz parte do nosso mundo". Ver: Z. Sternhell, em M. Dobry, Le Mythe de l'allergie française au fascisme, Paris, Albin Michel, 2003.

ii- A transição da FN (Front national) para o RN (Rassemblement national) não é mais do que uma mudança puramente cosmética, deixando intacta a casa gerida pela família Le Pen desde 1972; daí o interesse em falar de FN/RN. É de notar, além disso, que "Rassemblement national" já era o nome que a FN tinha dado ao seu grupo parlamentar de 1986 a 1988 (para não mencionar o "Rassemblement national populaire" de Marcel Déat sob Vichy, uma organização fascista e colaboracionista).

iii- Ver: N. Ver: N. Poulantzas, Fascisme et dictature, Paris, Seuil, 1970.

iv- Bruno Amable et Stefano Palombarini, L’Illusion du bloc bourgeois, Paris, Raisons d’agir, 2017.

Notas do tradutor

1- PNS – sigla de Partido Nacional Fascista (Partito Nazionale Fascista, em italiano), um partido político italiano criado por Benito Mussolini, que apoiou o movimento fascista. Governou a Itália de 1922, quando os fascistas assumiram o poder com a Marcha sobre Roma, até 1943, quando seu fundador foi deposto. https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Nacional_Fascista

2- NSDAP - Sigla de Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (em alemão), o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazi, foi um partido político de extrema-direita, nacionalista e anti-semita, pertencente à família política do fascismo. Esteve ativo na Alemanha, entre 1920 e 1945, tendo chegado ao poder em 30 de janeiro de 1933, quando o seu líder, Adolf Hitler, foi nomeado Chanceler do Reich. https://fr.wikipedia.org/wiki/Parti_national-socialiste_des_travailleurs...

3- Falange espanhola refere-se a três partidos fascistas, que se sucederam em Espanha: 1) a Falange Española (FE) (em português: Falange Espanhola), partido político espanhol de inspiração fascista ativo em 1933 e 1934, fundado por José António Primo de Rivera; 2) a Falange Española de las Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista (FE de las JONS) (em português: Falange Espanhola das Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista), um partido político fascista fundado em 1934 como fusão da Falange Espanhola e das Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista. Deixou de existir como tal quando, durante a Guerra Civil, o General Francisco Franco fundiu-a com todos os movimentos que apoiavam o movimento militar de Direita, para criar, em 1937, a 3) Falange Española Tradicionalista y de las Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista (em português: Falange Espanhola Tradicionalista e das Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista), abrev. FET y de las JONS, que se tornou o único partido legal em Espanha até sua dissolução em 1977. A FET y de las JONS concebeu-se como o ramo político do denominado Movimiento Nacional, conceito mais amplo que se definia pelo complexo mecanismo totalitário de inspiração fascista. https://pt.wikipedia.org/wiki/Falange_Espanhola_das_Juntas_de_Ofensiva_N...

4- A Guarda de Ferro (em romeno: Garda de fier; também conhecido como "Movimento do legionário") é o nome mais comum dado a um movimento fascista e partido político romeno, desde 1927 até o início da Segunda Guerra Mundial. A Guarda de Ferro era ultranacionalista, fascista, anticomunista e promovia a fé cristã ortodoxa. https://pt.wikipedia.org/wiki/Guarda_de_Ferro

5- O Parti Populaire Français ou PPF (em português: Partido Popular Francês) esteve ativo entre 1936 e 1945. Fundado e dirigido por Jacques Doriot, foi o principal partido político de inspiração fascista em França em 1936-1939 e um dos dois principais partidos colaboracionistas em 1940-1944, juntamente com o Rassemblement National Populaire (RNP) de Marcel Déat. https://fr.wikipedia.org/wiki/Parti_populaire_fran%C3%A7ais

6- Gérald Darmanin é um político francês que já militou e/ou colaborou com quase todos os partidos e movimentos da direita e extrema-direita francesas. Envolvido em várias polémicas, desde acumulação de mandatos até acusações de assédio sexual e violação, algumas das quais se encontram ainda em processo judicial, Darmanin já apoiou, desapoiou, criticou e aceitou ser nomeado pela mesma pessoa e é atualmente o ministro do interior francês. https://fr.wikipedia.org/wiki/G%C3%A9rald_Darmanin

7- Vincent Bolloré é um industrial, empresário, proprietário dos media e bilionário francês. É o acionista maioritário do Grupo Bolloré, assim como o antigo Presidente do Conselho Fiscal da Vivendi e do Grupo Canal+. https://fr.wikipedia.org/wiki/Vincent_Bollor%C3%A9

8- O Mouvement des Entreprises de France (Medef) é uma organização patronal criada em 1998 (substituiu o Conseil National du Patronat Français - CNPF), representando empresas francesas e tendo como objetivo representar os empresários franceses nas relações com o governo e os sindicatos. https://fr.wikipedia.org/wiki/Mouvement_des_entreprises_de_France

9- O "plano Juppé" sobre pensões e segurança social propunha estender aos funcionários públicos e empresas públicas as medidas impostas aos empregados do sector privado pela reforma das pensões Balladur de 1993, no âmbito de uma política de austeridade para diminuir o défice orçamental francês. Devido às greves de 1995 em França o governo cedeu: em dezembro de 1995, o primeiro-ministro Alain Juppé retirou a sua reforma sobre as pensões, a função pública e os regimes especiais. Mesmo assim conseguiu introduzir medidas para reduzir o défice da Segurança Social. https://fr.wikipedia.org/wiki/Plan_Jupp%C3%A9_de_1995

10- Em França, o “contrat première embauche” (que se poderá traduzir por Contrato primeiro emprego) era um tipo de contrato de trabalho sem termo para pessoas com menos de 26 anos. A forte oposição e o protesto de uma parte da população fizeram recuar o governo. Ao contrário do que o seu nome indica, um empregado poderia ter estado sob o regime deste contrato, sem que este fosse o seu primeiro emprego. Este contrato tinha um "período de consolidação" de dois anos durante o qual o empregador podia rescindir o contrato de trabalho sem dar qualquer motivo; se fosse o empregado quebrar o contrato durante o "período de consolidação" considerava-se que se demitiu e não tinha direito a subsídio de desemprego. Este texto suscitou forte oposição entre um grande número de estudantes e alunos do ensino secundário, seguidos pelos sindicatos e depois pelos partidos políticos de esquerda, que sentiram que o contrato teria facilitado despedimentos injustos e insegurança no emprego. https://fr.wikipedia.org/wiki/Contrat_premi%C3%A8re_embauche

11- Éric Zemmour é um jornalista político, escritor, ensaísta e polémico francês, geralmente classificado como de extrema-direita.

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