Está aqui

Ativistas climáticos têm boas razões para desconfiar dos planos do BCE

ONGs e ativistas têm defendido que o Banco Central Europeu deve adotar um programa de compra de ativos "verdes" para ajudar a financiar a transição energética. Mas os responsáveis do banco ainda parecem pouco predispostos à mudança.
Protesto pela justiça climática em Lisboa
Protesto pela justiça climática em Lisboa. Foto: Ana Mendes.

O aviso é feito pelo jornal britânico Financial Times, que contrasta as exigências feitas pelos ativistas climáticos com as medidas que o Banco Central Europeu (BCE) deverá apresentar nos próximos tempos.

O jornal nota que na altura em que se começou a discutir o papel que o BCE poderia ter na transição energética e no cumprimento dos objetivos climáticos definidos pela Comissão Europeia, o consenso sobre a necessidade de alterações de fundo nas medidas seguidas até ao presente era significativo. O problema é que esse consenso parece ter-se erodido mais recentemente.

Os sinais que têm sido dados pelo Conselho Executivo do BCE apontam para que as mudanças que o banco central tem em mente passem apenas por uma revisão das regras de modelização financeira. Esta medida tem como objetivo alterar a forma como os investimentos e os ativos financeiros são avaliados, passando a considerar o risco associado às alterações climáticas. Na prática, a ideia é mudar a estrutura de incentivos atualmente existente no mercado, penalizando a indústria dos combustíveis fósseis e favorecendo áreas como a das energias renováveis.

Mas os ativistas têm alertado que as soluções de mercado não serão suficientes para enfrentar o desafio das alterações climáticas. A organização não-governamental Positive Money lembra que “o planeta não se pode dar ao luxo de esperar que o setor privado reconheça a necessidade de combater as alterações climáticas”, e defende que o papel do BCE tem de passar também pelo financiamento de projetos de investimento em infraestruturas “verdes”, com destaque para projetos desenvolvidos pelos Estados, que são capazes de assumir maiores riscos em nome do bem-estar coletivo. Uma espécie de Quantitative Easing (QE) verde, recorrendo ao mesmo nome por que ficou conhecido o programa de compra de títulos de dívida pública lançado pelo BCE na resposta à última crise.

Mas este parece um passo pouco provável. Um membro do Conselho de Governação do BCE, citado pelo Financial Times, diz que “sobre a ideia do QE verde, ainda estamos bastante longe dela”. O mesmo membro admitiu que o banco deverá focar-se na alteração do cálculo do risco financeiro associado às alterações climáticas, o que se vai refletir nos sinais dados aos mercados. Outro membro disse que o BCE não pode ignorar os riscos de inflação se avançar com medidas mais abrangentes, isto apesar de quase uma década de injeções de liquidez no sistema financeiro não se ter traduzido no aumento generalizado do nível de preços na zona euro. Esta experiência não parece, contudo, ser suficiente para demover os mais conservadores dentro do banco central.

Termos relacionados Internacional
(...)