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As assimetrias tecnológicas

Encher a boca com o “ensino à distância", num país tão desigual tecnologicamente, entra nos limites do delírio se nos dermos ao trabalho de comparar, estudar, analisar e compreender como atingimos este nível de desequilíbrio. Por Rui Moreira.
cabo ethernet
Foto Adam Blomberg/Flickr

Encher a boca com o “ensino à distância", num país tão desigual tecnologicamente, entra nos limites do delírio se nos dermos ao trabalho de comparar, estudar, analisar e compreender como atingimos este nível de desequilíbrio. O que nos é comunicado e impingido por governantes e CEO’s de multinacionais que insistem em nos fazer acreditar no impossível, raramente tem respaldo na realidade. Efetivamente, muita gente fica para trás. Miúdos e graúdos.

Não sendo (a velocidade e os consumos associados) factor diferenciador no que a produtos contratados diz respeito - os operadores já apostam, grande parte das vezes, em ofertas comerciais que possuem tráfego ilimitado na internet fixa, item importante quando subitamente aumenta o número de utilizadores e a quantidade de informação transmitida - é a qualidade e estabilidade das ligações que faz a diferença, ou a falta dela. Deixo a questão do custo de lado porque é, nesta reflexão, uma outra discussão - embora saibamos, por estudos fidedignos recorrentemente públicos - que os serviços de telecomunicações são mais caros em Portugal que em grande parte da Europa, com a enorme disparidade de rendimentos que se conhece.

Lendo a informação oficial veiculada pela ANACOM, entidade que regula o sector e que supervisiona, regista e autoriza a exploração comercial dos diferentes produtos de telecomunicações em Portugal, é dramaticamente diferente trabalhar e estudar, por exemplo, em Leça da Palmeira ou em Amares. Ou estar em Santarém ou em Torre de Moncorvo. Ou viver em Mértola ou Oeiras. De facto, não é possível comparar o incomparável. Vamos, então, a alguns exemplos (entre muitos): em todo o Algarve, no final de 2019, apenas 62% das casas tinham fibra óptica, enquanto na área metropolitana de Lisboa a fasquia já havia ultrapassado os 95%. Outro caso difícil de entender é que com pouco mais de 65 mil habitações a cobertura nos Açores esteja nos 99% mas no Alentejo estava pouco acima dos 62% para quase 155 mil habitações. Aliás, a União Europeia, no seu relatório que visava espelhar a cobertura média na Europa no que a serviços de internet e que constam na Agenda Digital, é clara a enunciar as dificuldades e disparidades que atravessam o nosso território: ter 100% do Alentejo Litoral com cobertura muito rápida de internet contrasta com os 80,2% no Alto Minho. Mas é no Alentejo e Trás-os-Montes, esse Portugal profundo claramente fustigado com níveis de penetração e acesso às redes de altas velocidades da próxima geração (NGA) verdadeiramente surreais, não atinge os 35%. É mau demais. Portugal tem 18 distritos e 308 municípios, 278 no Continente, 11 na Madeira e 19 nos Açores. Uns com mais oportunidades que outros.

A fibra óptica, tal como a conhecemos, acentua as tais disparidades. Se Portugal está no topo da cobertura, em números absolutos, também se consegue perceber que menos de 70% da população tem acesso a velocidades superiores. Ora, esmiuçando os números, chegamos à conclusão que existe uma percentagem da população que é "privilegiada" - se ter internet mais rápida fosse um privilégio - e há uma percentagem da população que é sistematicamente marginalizada. E a questão é: por quem, quem tem a responsabilidade? Se olharmos a sério para o país, percebemos a desigualdade em que se encontra toda a comunidade escolar e empresarial. Assim, a pergunta obrigatória é: quando é que nos entregam e fornecem serviços de qualidade a todos? Vão insistir em continuar a assobiar para o lado e a tentar sacar tudo o que for possível à União Europeia?  

No tal Portugal profundo - termo que não gosto muito de usar mas no que aos serviços de telecomunicações diz respeito ganha outra dimensão - muitos são os que apenas tem acesso ao básico, literalmente do século passado. Já todos ouvimos histórias dos professores a terem de se deslocar para o monte para ter rede ou de alunos a improvisar uma sala de aula dentro de automóvel, mas isso não é assim tão anormal e invulgar quanto isso. Por exemplo, os que tem apenas serviço móvel de internet e televisão - 3G ou TDT - necessitam de acreditar que a chuva não se faça sentir com muita intensidade para que possam acompanhar os seus pares em interrupções. Sim, num país em que se usa a palavra campeões por dá cá aquela palha, em que se insiste que “somos os maiores” em muita coisa, no pelotão da frente e batedores de recordes para entrada directa no Guiness, também estamos no topo da tabela dos mais desfavorecidos, neste particular. Não tentem enganar todos ao mesmo tempo, está bem?

Em cima de todas estas vicissitudes temos as escolhas empresariais que deixam imensos clientes vários dias seguidos sem serviço, se tiverem o azar de uma avaria lhes bater à porta. Noutros tempos, o período de ausência em que o serviço não era prestado (por algum problema técnico) era bastante reduzido, mas com a cegueira existente para não pagar horas extraordinárias, leva a que os clientes tenham de ficar dependentes de várias variáveis. Lamentavelmente. O ideal, seja onde for e independentemente do operador que nos fornece o serviço, é não necessitar de apoio técnico que, ou demoram muito a chegar ao terreno por causa das tais ordens superiores, ou colocam-nos em linha a receber instruções à distância porque o tal CEO não quer deslocações longas nem fora do horário normal de trabalho. Dizem-nos que é para agilizar, gerir recursos e optimizar rotas mas, lá no fundo, quem está na base do processo sofre com estas decisões a regra e esquadro, plasmadas num ficheiro de Excel que apresenta resultados extraordinários para consumo interno.

À volta disto tudo, sobram os concursos para o fornecimento (e bem) de computadores e acessos de internet às crianças e jovens dos diferentes ciclos de ensino, nomeadamente os e as mais desfavorecidas. No entanto, para além dos atrasos e recorrentes más decisões, factuais e documentadas, há também a necessidade de entendermos como esses concursos são desenhados e pensados quase à medida, passando nos intervalos da chuva o registo dos contratos, sob o pretexto bem organizado do apetrechamento tecnológico e debaixo do “chapéu” do Estado de Emergência. Sem quase nos apercebemos, os contratos no Portal Base foram ficando para trás (que é onde ficam registados todos os concursos públicos, nomeadamente os da Escola Digital) e os muitos milhões disponibilizados ficam sem rasto, temporariamente, sem dono. Se lhe disser que não houve registo de nenhum contrato entre os fornecedores e o Estado, durante muito tempo, acredita? Que por força da emergência de responder em 2 ou 3 dias era dispensada qualquer justificação adicional para aceitar o fornecimento? É verdade sim, a resposta é sim, o que prova que os lóbis feitos por quem concorre compensa, que o ajuste directo e os fake-cartéis justificam todos os meios. Basta colocar o código correcto para aceder aquele contrato público, e toda e qualquer prestação de contas prévia deixa de ser necessária para ser despachado imediatamente, sem passar pelo crivo de entidade alguma. Suspeito que ainda vamos ser surpreendidos com negócios extraordinários, dignos do tal Guiness.

Alguns julgarão que o dinheiro resolve tudo: ter a possibilidade de comprar o computador XPTO, só porque se tem poder de compra, de nada vai servir se o operador se estiver nas tintas e, na sua (deles) lógica de mercado, não investir na obrigação (pelo menos moral, mas da moralidade dos executivos estamos conversados) que é fornecer os mínimos obrigatórios para que o seu filho, o seu cônjuge, os colegas de trabalho, todos possam trabalhar com condições. E, colateralmente, de pouco ou nada valerá pensar numa lei sobre o teletrabalho fantástica se não estiverem garantidas igualdade de circunstâncias. O Governo tem a palavra e a obrigação de não se fazer de morto só porque parte do princípio que o privado é suficientemente competente e interessado em resolver os problemas que são de todos.

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