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Assange vê negado adiamento de julgamento de extradição

Depois de sete anos de refúgio na embaixada do Equador e de sete meses de isolamento detido numa prisão britânica, esta segunda-feira, o fundador da Wikileaks apresentou-se confuso e com dificuldades de raciocínio numa sessão em tribunal que recusou adiar o julgamento da extradição para os EUA.
Manifestação pela libertação de Assange. Londres. Outubro de 2019.
Manifestação pela libertação de Assange. Londres. Outubro de 2019. Foto de @Isabell89726404/Twitter.

Desde maio, altura em que tinha sido condenado por não ter comparecido perante a justiça britânica, que Julian Assange não era visto em público. O fundador da Wikileaks tinha passado sete anos refugiado na embaixada do Equador em Londres, tentando evitar a extradição para a Suécia, num caso que entretanto caiu, e para os Estados Unidos. Em abril acabou por ser entregue à polícia por ordem do presidente Lenín Moreno.

Esta segunda-feira apresentou-se em tribunal sem a longa barba branca que então ostentara e saudou os seus apoiantes à entrada erguendo o punho. Mas quando questionado no início da audiência apresentou-se confuso, com dificuldades de se lembrar do seu nome e data de nascimento. No final, o mesmo tipo de complicações continuou a ser patente: a juíza perguntou-lhe se tinha noção do que tinha acontecido, Assange respondeu “não exatamente” e queixou-se de não estar a ser capaz de “pensar adequadamente”, acrescentando “não posso investigar nada, não consigo ter acesso a nenhum dos meus escritos. É muito difícil onde estou.”

A juíza Vanessa Baraitser não tomou em conta as dificuldades evidenciadas e avançou sempre com os procedimentos tendo explicado a Assange que mais tarde os seus advogados lhe poderiam explicar o que se passara.

Recorde-se que a Assange é negado o acesso a qualquer computador na prisão e que o seu isolamento na prisão tem sido questionado por vários defensores dos direitos humanos. Em solitária durante 23 horas por dia, apenas lhe são permitidos 45 minutos de exercício. Em maio as autoridades penitenciárias colocaram-no na ala médica da prisão de Belmarsh.

Em julgamento estava a tentativa de adiar o julgamento de extradição para os Estados Unidos, onde enfrentará 18 acusações, entre as quais conspiração para aceder a computadores governamentais e violação das leis de espionagem por ter divulgado milhares de documentos secretos no portal Wikileaks. Acusações que lhe poderão custar uma pena de prisão de 175 anos.

Os advogados de Assange pediam mais três meses para preparar o seu caso que consideram de “complexidade especial”, mas a juíza do tribunal de Westminster recusou. A defesa alega ainda que não tem acesso aos documentos de que necessita que estão a ser sonegados pelo governo norte-americano.

A decisão foi desfavorável a Assange e o caso será mesmo julgado no final de fevereiro de 2020.

Assange escutado por empresa espanhola na embaixada do Equador

Mark Summers, da equipa legal que defende o jornalista, acusa também os EUA de espionagem ilegal contra Assange. As conversas entre advogados e o jornalista teriam sido escutadas durante todo o período em que este esteve na embaixada do Equador.

Em Espanha, na sequência de uma investigação do jornal El País está a decorrer uma investigação judicial sobre a espionagem a Julian Assange. A empresa de segurança Undercover Global SL é acusada de ter escutado as conversas onde se planeava a estratégia de defesa e de as vender aos EUA. O sistema judicial britânico negou provisoriamente que o juiz José de la Mata ouvisse o fundador da Wikileaks como testemunha por videoconferência no âmbito deste processo. O dono da firma espanhola está acusado de violação de privacidade, suborno, lavagem de dinheiro e posse ilegal de armas.

Apoiantes de Assange falam em “tortura”

O estado em que Assange se encontrava no julgamento deixou alguns dos seus apoiantes em estado de choque. O ex-diplomata britânico Craig Murray, na descrição do que aconteceu nesta audiência que publicou no seu site, descreve que já partilhava algumas das preocupações com a saúde de Assange tornadas públicas de que já perdeu 15 quilos e que parecia ter envelhecido prematuramente.

Mas Murray sempre resistira a concordar com quem falava em tortura. Agora perante os sinais de “deterioração mental” e uma vez que exibe “exatamente os sintomas de uma vítima de tortura” a que assistira noutros casos, o diplomata chega à conclusão que “um dos mais importantes dissidentes dos nossos tempos está a ser torturado até à morte pelo Estado, ante os nossos olhos.” Concluindo que “a não ser que Julian seja libertado brevemente ele será destruído. Se o Estado pode fazer isto, então quem se segue?”

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