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"A arte urbana amplia a liberdade criativa”

Em entrevista ao esquerda.net, o graffiter Sérgio Odeith rejeita o preconceito com que muitos ainda olham para esta forma de expressão artística e afirma não ser insensível às injustiças sociais. Por Pedro Ferreira.
Zeca Afonso retratado na empena de um prédio situado na Amadora. Foto Odeith.com
Zeca Afonso retratado na empena de um prédio situado na Amadora. Foto Odeith.com

Na sua atividade como é que gosta mais que lhe chamem: street writer, graffiter ou muralista?

Não valorizo esse tipo de rótulos até porque qualquer um deles se adequa ao que faço.

Mas não tem preferência?

Sinceramente não porque o que é relevante é o meu trabalho.

Há pessoas que ainda consideram o graffiti como um ato de vandalismo.

Esse tipo de pensamento resulta de um preconceito que está praticamente ultrapassado tanto mais que o nosso trabalho também contribui para a requalificação de áreas degradadas conferindo-lhes uma nova vida. A persistência dessa ideia é residual e um disparate que não merece comentários.

Já há muitas instituições a recorrer aos vossos serviços?

Sem dúvida. Seja para fazer trabalhos de raiz ou para melhorar o aspecto visual de determinados espaços.

Como é que se iniciou nesta atividade?

Deixei de estudar cedo e não tinha nada definido. Tenho 40 anos e depois de ter abandonado a escola tive vários trabalhos até que em 1995 comecei de forma ilegal a pintar nas paredes que se encontravam junto às linhas de comboio.

Foi um ato de rebeldia?

Não sei, mas acima de tudo senti-me atraído pela liberdade que o graffiti proporciona e a forma como os traços, as cores e as letras  se conjugam para dar sentido ao que fazemos.

Além da liberdade de que falou houve outros aspetos que o fascinaram?

Queria também ganhar o respeito da rua porque o graffiti acaba por ser também uma forma de dizermos estou aqui e este o meu nome.

Está a dizer que os graffiters funcionam como uma tribo onde é necessário mostrar trabalho para se ganhar um lugar entre a comunidade?

Para ganhar o respeito das pessoas é preciso que o trabalho que se faz seja conhecido. É assim em todas as áreas e nas artes isso ganha ainda mais relevância.

Nasceu na Damaia uma zona onde há uma enorme comunidade de imigrantes de origem africana. Essa diversidade teve alguma responsabilidade na sua opção profissional?

Eu rejeito essa lógica de getização e considero que a Damaia é uma zona como qualquer outra. A diversidade é obviamente importante porque abre os nossos horizontes permitindo que vejamos o mundo além do nosso umbigo.

Mas se tivesse nascido noutro sítio teria seguido este caminho?

Não sei. Mas não foi pelo facto de ter nascido na Damaia que tomei esta opção.

Começou por fazer crítica social.

Não sou insensível às desigualdades . Mas estas estão à vista de todos em qualquer lugar.

Mas na zona onde nasceu e vive são mais visíveis.

Admito que sim.

Um vez que não tem escola socorreu-se apenas do jeito que tinha?

O graffiter vai conquistando o seu próprio caminho. A experiência que vamos adquirindo é decisiva para, por exemplo, saber escolher a parede que melhor se adequa ao que pretendemos fazer. Mas para termos essa perceção precisamos de tempo. Acaba por ser uma realidade similar a outros setores profissionais.

O graffiter Sérgio Odeith
"Pinto na rua e sou livre", afirma o graffiter. Foto Odeith.com

Tem hoje uma projeção internacional que o coloca entre os melhores graffiters mundiais. Podemos encontrar os seus trabalhos em Moscovo, Berlim, Londres,  Dubai e também em várias cidades dos Estados Unidos. Sente o peso dessa responsabilidade?

Não. A nível nacional sou conhecido há muito tempo e dimensão que o meu trabalho ganhou a nível internacional ficou a dever-se essencialmente ao facto de ter começado a trabalhar com uma tecnologia que se chama anaformismo e que consiste genericamente em criar a sensação que o trabalho sai da parede ficando mais perto de quem o vê.

É uma técnica tridimensional?

É uma forma que nos remete para o 3D. Mas aquilo que continua a ser mais importante são as latas de spray porque sem elas não se pode fazer nada.

Mas essa técnica tem contribuído para dar ainda mais relevo aos seus trabalhos que retratam Zeca Afonso, Carlos Paredes, José Saramago, John Lenon ou Matin Luther King, entre outros.

Essa técnica é usada não só para os retratos mas também para outro tipo de criações.

Mas admite que os retratos lhe deram mais projeção uma vez que a pintura abstrata é mais difícil de decifrar?

Penso que não porque a técnica que utilizo é o que começa por chamar mais a atenção das pessoas.

Ao escolher determinadas personalidades como as que referi acima está a relembrar não só o seu percurso artístico como a sua intervenção cívica e política.

São pessoas que deixaram obra seja na música, na literatura ou na representação . Desta forma, eu não acrescento nada de novo.

Poderá estar a contribuir para que não caiam no esquecimento.

Aquilo que nos deixaram é muito importante e por isso não há esse risco.

O seu trabalho é efémero porque está exposto na rua correndo o risco de se degradar rapidamente. Isso incomoda-o?

Se me incomodasse não seria graffiter.

Pensou seguir um caminho mais convencional na pintura?

Eu já pintei alguns quadros mas não gosto do isolamento dos ateliers e das limitações de pintar em telas pequenas. Preciso de sentir o ambiente que me rodeia quando estou a trabalhar e perceber as reações das pessoas. Essa interação é para mim muito importante.

Neste caso podemos dizer que é a arte que vai ao encontro das pessoas ao contrário dos trabalhos que estão expostos em galerias ou museus.

Está nas ruas ou em espaços públicos e cruza-se com o olhar de toda a gente. Não gosto da mercantilização da arte porque esta limita a sua autenticidade. Quando uma determinada obra atinge valores elevados passa a ser tratada como um produto, como as ações na bolsa. Entra-se numa lógica de puro negócio onde os trabalhos são transacionados a pensar unicamente no seu valor comercial independentemente da sua qualidade. Para mim isto é subversivo.

Mas também vende os seus trabalhos...

A realidade é completamente diferente tanto mais que não limita as minhas opções em termos criativos.

Mas não lhe fazem encomendas para trabalhar sobre determinados assuntos?

Eu não gosto de imposições temáticas porque a liberdade é o oxigénio do artista. Sem ela confrontamo-nos com o perigo de estreitar o caminho para começar a obedecer a imposições. E quando isso acontece corre-se o risco de desvirtuar aquilo que se quer fazer.

Como é que se define como artista?

Independentemente de considerar que devem ser os outros a responder a essa pergunta posso dizer simplesmente que pinto na rua e sou livre.

Triibuto a Martin Luther King na Cova da Moura. Foto Odeith.com
Tributo a Martin Luther King na Cova da Moura. Foto Odeith.com

 

 

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