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Arrancou o 43º rali Dakar, versão ditadura saudita

O regime comprou a organização da prova durante cinco anos para lavar a imagem do regime denunciam várias organizações de defesa dos direitos humanos.
Pódio de abertura do rali Dakar 2021. Foto de EKSRX/Flickr.
Pódio de abertura do rali Dakar 2021. Foto de EKSRX/Flickr.

A 43ª edição do rali Dakar, outrora chamado Paris-Dakar, começou este domingo em Jedá. Os organizadores da histórica corrida, a Amaury Sport Organisation, venderam a prova à Arábia Saudita por 80 milhões de euros, durante cinco anos, e esta é a segunda vez que o evento ocorre naquele país. Vários grupos de defesa dos direitos humanos criticam aquilo que consideram ser uma operação de marketing de uma ditadura.

Ao longo de doze dias, 322 automobilistas e motociclistas percorrerão as areias sauditas numa dura prova de resistência e orientação. O rali que começou com o percurso que lhe deu nome, entre Paris e a capital do Senegal, em 1979, tinha-se mudado durante uma década para a América do Sul por razões de segurança. Há dois anos, voltou a mudar de continente.

Esta mudança foi criticada por vários grupos de defesa dos direitos humanos. Acusam Mohammed Ben Salmane, o príncipe herdeiro, de ter comprado os direitos de realização da prova como forma de promover o regime e de distrair as atenções negativas depois do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em outubro de 2018. A “visão 2030” é uma operação de promoção do país e inclui a realização de grandes provas desportivas. Também a Fórmula Um passará este ano pela Arábia Saudita.

Já o ano passado, 13 grupos internacionais de defesa dos direitos humanos tinham lançado um comunicado conjunto. Consideravam que o grupo económico que organiza o evento, um dos principais organizadores de provas desportivas em França, incluindo a Volta à França, e dono de jornais como o L'Équipe e o Le Parisien, devia tomar posição em defesa dos direitos humanos, violados no país, davam como exemplos a perseguição às mulheres que têm lutado pelo direito a conduzir, os crimes de guerra no Iémen, e a prisão e tortura de críticos pacíficos. Inès Osman, diretora do MENA, uma das ONG subscritoras, destacava a contradição patente: “mais de uma dezena de mulheres condutoras vai participar no rali Dakar enquanto há mulheres sauditas na prisão por promover o direito a conduzir.”

A Federação Internacional dos Direitos Humanos, FIDH, tinha já escrito em 2019 à empresa que detém os direitos televisivos, a France Télévisions, para esta “denunciar a sua parceria” ou, pelo menos, fazer com que “a difusão do Dakar não seja uma tribuna oferecida ao regime saudita para restaurar a sua imagem e fazer esquecer os seus crimes”, um apelo que ficou sem resposta.

No Mediapart, o jornalista René Backmann lembra vários outros atropelos aos direitos humanos num país “em que as liberdades de expressão, de reunião e de associação não existem”, em que “a promoção da democracia é um crime punido com a pena de morte, assim como a crítica do regime, o adultério, a homossexualidade ou o facto de se mudar de religião”. A pena de morte é outra das questões sublinhadas pelos grupos de defesa dos direitos humanos. A Arábia Saudita é uma das recordistas mundiais na sua aplicação. Em 2019, houve 180 execuções.

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