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Argentina: derrota de Macri prenuncia regresso ao poder dos peronistas

Primárias na Argentina ditaram uma pesada derrota para o presidente de direita Macri e prenunciam um regresso ao poder dos peronistas da ex-presidente Cristina Kirchner. As eleições estão marcadas para outubro.
Alberto Fernandez na concentração do Frente por Todos após vitória nas primárias, Buenos Aires, 11 de agosto de 2019. Foto: Enrique Garcia Medina/EPA/Lusa.
Alberto Fernandez na concentração do Frente por Todos após vitória nas primárias, Buenos Aires, 11 de agosto de 2019. Foto: Enrique Garcia Medina/EPA/Lusa.

O presidente da Argentina Mauricio Macri sofreu uma derrota significativa em eleições primárias este fim de semana, que está a ser lida como prenúncio de um regresso ao poder dos peronistas, da antiga presidente Cristina Fernandez Kirchner, nas eleições presidenciais marcadas para outubro.

A votação nas designadas Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO) chamou às urnas os cerca de 34 milhões de eleitores argentinos para escolher quem de entre dez equipas presidenciais irá efetivamente a votos a 27 de outubro próximo. Nessa altura, além da presidência, será renovada também metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado. O objetivo das primárias seria que os eleitores pudessem escolher diretamente os candidatos presidenciais, mas na prática todos foram escolhidos pelos partidos, servindo a votação sobretudo como um sondagem preliminar para as presidenciais. Quem tenha menos de 1,5% dos votos nas primárias, fica excluído das eleições. A participação foi de cerca de 75%.

Os resultados não auguram grandes hipóteses de reeleição ao presidente argentino. Os dados oficiais serão conhecidos apenas na terça-feira, mas para já, com 80% dos votos contados, a lista peronista Frente por Todos, liderada por Alberto Fernandez (chefe do gabinete de ministros nas presidências Kirchner) e a ex-presidente Cristina Fernandez Kirchner (no lugar de vice) saiu largamente vencedora, com 47,1% dos votos. Em segundo lugar, muito atrás, ficou a lista Juntos pela Mudança de Macri, com 32,5% de votos. Em terceiro lugar, próximo de 8%, ficou o Consenso Federal de Roberto Lavagna, ex-ministro da economia nos anos de 2002 a 2005. Em quarto lugar, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, com cerca de 3%.

A disputa central, já se sabia, seria entre a continuidade da linha neoliberal de Mauricio Macri, preferida pelos mercados e por Washington, e o regresso ao poder dos peronistas, mais dados ao intervencionismo de Estado. O que não se esperava era que a diferença entre peronistas e direita neoliberal fosse tão grande: calculava-se que ficasse entre 2% e 8%, não próximo dos 15%.

Nos anos que se seguiram ao colapso económico de 2001, o pior na história do país, o trauma com os pacotes de austeridade do FMI levaram as presidências Kirchner, primeiro de Néstor e mais tarde de sua esposa Cristina, a uma política de distância face ao FMI. Um novo período de dificuldades económicas e escândalos de corrupção acabaram por levar à sua derrota nas eleições de 2015.

A eleição de Macri em 2015 representou de certo modo o regresso da ortodoxia neoliberal ao poder, que alimentou uma tendência de viragem à direita na América do Sul, após mais de uma década de hegemonia do centro-esquerda e da esquerda. A braços com dificuldades económicas vindas da presidência anterior, Macri trouxe o FMI de volta ao país, com um pacote de 55 mil milhões de dólares de "assistência financeira" e respetivas medidas de austeridade, com cortes na despesa e aumentos de impostos. Mas apesar da luta de Macri contra o tempo para mostrar alguma melhoria económica, os eleitores ter-se-ão lembrado sobretudo da recessão que atravessam: o desemprego subiu, a pobreza também (terá passado de 27% para 35% da população no último ano, segundo a agência Reuters), a inflação no ano passado atingiu os 50%, dizimando o poder de compra.

Agora, os sinais indicam que o curso neoliberal de Macri poderá ser um episódio de curta duração no longo domínio peronista da política Argentina. E apesar de o peronismo ser uma particularidade política argentina, que mistura elementos de esquerda e direita e não é facilmente catalogável, os mercados financeiros já estão a mostrar desagrado com o seu regresso provável ao poder.

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