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Argélia: Tebboune é o novo presidente, já contestado nas ruas

Candidato teve 58,15% dos votos expressos, dispensando 2º turno. Imponentes manifestações no próprio dia da eleição e nesta sexta-feira não aceitam a legitimidade nem da eleição nem do novo presidente. Por Luis Leiria.
Manifestantes mostram o cartão vermelho à eleição.
Manifestantes mostram o cartão vermelho à eleição.

Abdelmadjid Tebboune é o novo presidente da República da Argélia. Segundo os dados oficiais, o candidato independente obteve 58,15% dos votos expressos, garantindo assim a vitória à primeira volta. Oficialmente, 39,93% dos eleitores foram às urnas, isto é, houve uma abstenção de 60%, a maior desde que se realizam eleições multipartidárias na Argélia. A eleição presidencial anterior, a do quarto mandato do ex-presidente Abdelaziz Bouteflika, teve uma abstenção de 50,7%.

O parágrafo anterior seria a rotina de um artigo informando sobre uma eleição presidencial normal. Viriam em seguida as votações dos restantes candidatos, uma avaliação das maiores vitórias e derrotas, dos principais motivos da vitória, etc.

Mas a eleição na Argélia não foi uma eleição normal.

Tebboune é o escolhido dos generais

Ninguém leva a sério os resultados, e muito menos os dados da participação nas urnas.

E isto porque ninguém leva a sério a dita Autoridade Nacional Independente das Eleições (ANIE), totalmente manipulada pelos militares, que se recusaram persistentemente a admitir uma transição democrática para um novo regime e acabaram por improvisar esta “Autoridade” que de independente só ostenta o nome, sem que a ele corresponda qualquer autoridade real.

Dos cinco candidatos que se apresentaram ao voto, todos eles com notórias e assumidas ligações com o regime de Bouteflika, Abdelmajid Tebboune, de 74 anos, era o candidato mais seguro para o Estado Maior das Forças Armadas. E portanto, foi ele o escolhido dos generais. A única coisa importante neste resultado final era que o escolhido tivesse mais de 50%, para evitar o segundo turno.

Tebboune é um alto funcionário de carreira, saído da Escola Nacional de Administração da Argélia, foi presidente da câmara de várias cidades antes de ser chamado pelo presidente Bouteflika para ser o ministro das Comunicações. Depois, foi ministro do Habitat e Urbanismo, representante de Bouteflika em missões em diversos conflitos (Irão, Síria), ministro do Comércio, primeiro-ministro.

Na televisão, uma realidade; nas ruas, outra

Durante a jornada eleitoral desta quinta-feira, a ANIE foi anunciando dados fantasiosos sobre a participação eleitoral, construindo uma espécie de realidade virtual à qual só eles, e a televisão oficial, tinham acesso. A ENTV, a TV pública, mostrava filas de eleitores desejosos de votar. Mas o que se via nas ruas era outra coisa, muito diferente. Era o poder do hirak, o movimento popular que contestava a eleição e chamava ao boicote. Em Argel, enquanto a TV se afadigava a mostrar eleitores a votar, ocorria uma das maiores manifestações populares de sempre na cidade contra a farsa eleitoral. O mesmo aconteceu em Constantine, Bordj Bou Arreridj, Bejaia, Bouira, Tizi Ouzou, Tlemcen, Jijel, Constantine…

Em Bejaia e Tizi Ouzou, paralisadas por uma greve geral desde domingo, não abriram sequer os locais de votação. A própria ANIE teve de reconhecer que o índice de participação nestas cidades foi quase nulo. E que também foi muito perturbado em Boumerdès, Bouira, Bordj Bou Arreridj, Sétif et Jijel.

Não vou parar de me manifestar”

Esta sexta-feira, quando foi anunciada a vitória de Abdelmajid Tebboune, já a população estava a caminho da rua para participar na 43ª sexta-feira nas manifestações que, sem falhar uma, se realizaram desde fevereiro. Mais uma vez encheram as ruas de Argel, Bejaia, Constantine, Tizi Ouzou e outras.

Gritaram: “Tebboune o teu mandato é um nado morto” ou “O vosso presidente não me representa”. Ou ainda: “Ou vai ou racha, não vou parar de me manifestar”. Ou os velhos gritos “Estado civil, não militar”, ou “Os militares para o lixo”.

Os militares apostaram alto nestas eleições manipuladas, com a intenção de encerrar a crise política diante do cansaço das pessoas e salvar o regime. Tudo indica que não conseguiram. O hirak vai continuar.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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