A epidemia da covid-19 provocou, na Argélia, aquilo que nem o(s) governo(s), nem o exército, nem a repressão, nem as condenações a penas de prisão tinham conseguido: a suspensão das grandes mobilizações populares antirregime, conhecidas como Hirak, que pontualmente se realizaram todas as sextas-feiras entre 22 de fevereiro de 2019 e 13 de março de 2020.
A Argélia registou o primeiro caso da doença em 25 de fevereiro, e a primeira morte apenas em 12 de março. No início, parecia que a doença se desenvolveria muito lentamente, ao contrário do que acontecia noutros países mediterrânicos. Mas a ilusão depressa terminou. No dia em que este artigo está a ser escrito, a Argélia regista 511 casos de infeção pelo novo coronavírus, com 31 mortes. Mas nos primeiros dias de março, a dinâmica da mobilização popular parecia imparável. Para além das sextas-feiras de manifestação e das terças-feiras reservadas às mobilizações estudantis, o Hirak decidira manifestar-se mais um dia: ao sábado. Só que, à medida em que o mês ia avançado, mais parecia inevitável que o país adotasse as mesmas medidas de confinamento adotadas noutros países, as únicas que demonstraram eficácia contra a pandemia.
Suspender ou não o movimento?
Assim, entre os ativistas começou a impor-se a ideia de que seria necessário suspender todo o movimento. No dia 16 de março, 25 professores de medicina e médicos divulgaram um apelo à interrupção das manifestações, defendendo que “o Hirak é uma ideia e uma ideia não morre. Mas os seres que perderemos não regressam jamais”. No dia 17, as principais organizações estudantis anunciaram a suspensão das marchas das terça-feiras. No dia 17, o presidente Abdelmadjid Tebboune anuncia a proibição das marchas e concentrações, quaisquer que sejam os seus motivos, alegando tratar-se de uma medida de proteção da saúde pública. E a sexta-feira 20 de março foi a primeira em que não ocorreram as tradicionais manifestações.
Para procurar compreender como se deu o processo de decisão que levou à suspensão do Hirak, o Esquerda.net entrevistou, por e-mail, o jornalista e militante Hocine Belalloufi, autor de um importante ensaio sobre a mobilização popular argelina publicado em livro pelas Editions du Croquant, com o título “Algérie 2019-2020. Le peuple insurgé – Entre Réforme et Révolution”. O livro pode ser comprado online, em formato PDF, no site da editora.
O Hirak é como o rio Nilo
“O Hirak não se assemelha a esses rios caudalosos que se precipitam no mar. Poderíamos antes compará-lo ao Nilo, que se funde na terra, formando uma multitude de braços mais e mais pequenos e que não atingem o Mediterrâneo”, diz Hocine Belalloufi, numa feliz metáfora.
Nenhuma autoridade política, nem mesmo moral, coletiva ou individual, tomou a decisão formal de suspender as manifestações, explica o jornalista argelino. “Houve um debate nas redes sociais. Nelas foram partilhadas opiniões e apelos a preservar a vida dos cidadãos para melhor retomar o movimento mais adiante”. O recuo de muitas manifestações nas últimas jornadas veio somar-se a uma tomada de consciência coletiva: “não se podia negar o perigo da pandemia, sob o pretexto de que o poder incitava os argelinos a não marchar e proibia pura e simplesmente qualquer concentração.” Finalmente, os mais obstinados convenceram-se da necessidade de suspender temporariamente as marchas semanais, bem como as reuniões, encontros e outras conferências.
Movimento será retomado
Hocine Belalloufi não pensa que a covid-19 tenha posto fim ao Hirak: “Não sou adivinho, mas a minha convicção profunda é que o Hirak vai ser retomado, exceto se houver uma catástrofe sanitária maior que ninguém deseja”, afirma o jornalista, acrescentando: “As razões da cólera popular não despareceram, Se as coisas permanecerem dessa forma, as manifestações serão retomadas com facilidade.”
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porLuís Leiria
Entretanto, os militantes e os membros mais ativos do Hirak deveriam aproveitar a suspensão para fazer um ponto da situação, retirar os ensinamentos de um ano de luta, analisar a situação e refletir sobre as perspetivas imediatas e mais longínquas. “É um debate que deve progressivamente atravessar a sociedade. Parece-me que a internet constitui o espaço ideal para estas trocas de opinião”, conclui.