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Argélia: Mobilização suspensa à espera do fim da Covid-19

Pandemia conseguiu o que governo, exército e tribunais tentaram sem sucesso: a suspensão do “Hirak”. Ouvido pelo Esquerda.net, o jornalista e militante argelino Hocine Belalloufi aposta no regresso das manifestações assim que o novo coronavírus retroceda. Por Luis Leiria.
As ruas de Argel que eram palco de manifestações de centenas de milhares de pessoas agora estão desertas.
As ruas de Argel que eram palco de manifestações de centenas de milhares de pessoas agora estão desertas.

A epidemia da covid-19 provocou, na Argélia, aquilo que nem o(s) governo(s), nem o exército, nem a repressão, nem as condenações a penas de prisão tinham conseguido: a suspensão das grandes mobilizações populares antirregime, conhecidas como Hirak, que pontualmente se realizaram todas as sextas-feiras entre 22 de fevereiro de 2019 e 13 de março de 2020.

A Argélia registou o primeiro caso da doença em 25 de fevereiro, e a primeira morte apenas em 12 de março. No início, parecia que a doença se desenvolveria muito lentamente, ao contrário do que acontecia noutros países mediterrânicos. Mas a ilusão depressa terminou. No dia em que este artigo está a ser escrito, a Argélia regista 511 casos de infeção pelo novo coronavírus, com 31 mortes. Mas nos primeiros dias de março, a dinâmica da mobilização popular parecia imparável. Para além das sextas-feiras de manifestação e das terças-feiras reservadas às mobilizações estudantis, o Hirak decidira manifestar-se mais um dia: ao sábado. Só que, à medida em que o mês ia avançado, mais parecia inevitável que o país adotasse as mesmas medidas de confinamento adotadas noutros países, as únicas que demonstraram eficácia contra a pandemia.

Suspender ou não o movimento?

Assim, entre os ativistas começou a impor-se a ideia de que seria necessário suspender todo o movimento. No dia 16 de março, 25 professores de medicina e médicos divulgaram um apelo à interrupção das manifestações, defendendo que “o Hirak é uma ideia e uma ideia não morre. Mas os seres que perderemos não regressam jamais”. No dia 17, as principais organizações estudantis anunciaram a suspensão das marchas das terça-feiras. No dia 17, o presidente Abdelmadjid Tebboune anuncia a proibição das marchas e concentrações, quaisquer que sejam os seus motivos, alegando tratar-se de uma medida de proteção da saúde pública. E a sexta-feira 20 de março foi a primeira em que não ocorreram as tradicionais manifestações.

Hocine Belalloufi
Hocine Belalloufi

Para procurar compreender como se deu o processo de decisão que levou à suspensão do Hirak, o Esquerda.net entrevistou, por e-mail, o jornalista e militante Hocine Belalloufi, autor de um importante ensaio sobre a mobilização popular argelina publicado em livro pelas Editions du Croquant, com o título “Algérie 2019-2020. Le peuple insurgé – Entre Réforme et Révolution”. O livro pode ser comprado online, em formato PDF, no site da editora.

O Hirak é como o rio Nilo

“O Hirak não se assemelha a esses rios caudalosos que se precipitam no mar. Poderíamos antes compará-lo ao Nilo, que se funde na terra, formando uma multitude de braços mais e mais pequenos e que não atingem o Mediterrâneo”, diz Hocine Belalloufi, numa feliz metáfora.

Nenhuma autoridade política, nem mesmo moral, coletiva ou individual, tomou a decisão formal de suspender as manifestações, explica o jornalista argelino. “Houve um debate nas redes sociais. Nelas foram partilhadas opiniões e apelos a preservar a vida dos cidadãos para melhor retomar o movimento mais adiante”. O recuo de muitas manifestações nas últimas jornadas veio somar-se a uma tomada de consciência coletiva: “não se podia negar o perigo da pandemia, sob o pretexto de que o poder incitava os argelinos a não marchar e proibia pura e simplesmente qualquer concentração.” Finalmente, os mais obstinados convenceram-se da necessidade de suspender temporariamente as marchas semanais, bem como as reuniões, encontros e outras conferências.

Movimento será retomado

Hocine Belalloufi não pensa que a covid-19 tenha posto fim ao Hirak: “Não sou adivinho, mas a minha convicção profunda é que o Hirak vai ser retomado, exceto se houver uma catástrofe sanitária maior que ninguém deseja”, afirma o jornalista, acrescentando: “As razões da cólera popular não despareceram, Se as coisas permanecerem dessa forma, as manifestações serão retomadas com facilidade.”

Entretanto, os militantes e os membros mais ativos do Hirak deveriam aproveitar a suspensão para fazer um ponto da situação, retirar os ensinamentos de um ano de luta, analisar a situação e refletir sobre as perspetivas imediatas e mais longínquas. “É um debate que deve progressivamente atravessar a sociedade. Parece-me que a internet constitui o espaço ideal para estas trocas de opinião”, conclui.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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