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Argélia: em resposta à repressão, um tsunami de povo

Argel, apesar do bloqueio rodoviário feito pela polícia, teve uma das maiores manifestações de sempre. O mesmo aconteceu noutras cidades. O povo foi às ruas denunciar as eleições sem garantias democráticas e exigir a demissão do chefe do Exército. Por Luis Leiria.
As praças do centro de Ãrgel encheram-se de povo que pedia a demissão do general Gaïd Salah
As praças do centro de Ãrgel encheram-se de povo que pedia a demissão do general Gaïd Salah

Esta sexta-feira, a 31ª de manifestações em toda a Argélia, era decisiva para o futuro do país e da revolução pacífica que teve início em 22 de fevereiro deste ano. O hirak (movimento), como é conhecida a revolução, nunca fora alvo de tantas ameaças por parte de quem, desde a demissão do presidente Abdelaziz Bouteflika, assumiu o poder de facto: o Exército. Como iria reagir o povo nas ruas?

Nos últimos dias, uma onda repressiva inédita abateu-se sobre alguns dos mais importantes organizadores das manifestações, caçados em suas casas por polícias à paisana e postos em prisão preventiva. O chefe do Exército, o general Gaïd Salah, abandonou uma postura anterior de flirt com os manifestantes e passou a acusá-los de “intenções malévolas” dirigidas a romper a “tranquilidade do povo”.

Além disso, desde que ordenou ao presidente interino que convocasse as eleições presidenciais para dezembro, Salah não tem alternativa senão levar o processo eleitoral até ao fim, sob pena de desmoralização; portanto, sabe que a única solução é afrontar sem rodeios o povo na rua, que já deixou claro tantas vezes só aceitar eleições no quadro de uma transição que tem como condição prévia a demissão de todos os implicados com o regime, general Salah incluído.

Barreiras policiais nas rodovias? O povo passou a pé!

"Estado civil, não militar!", gritavam os manifestantes. Foto do El Watan
"Estado civil, não militar", gritavam os manifestantes. Foto do El Watan

Ora esta sexta-feira mostrou uma resposta contundente por parte do povo mobilizado: diante do maior dispositivo policial enviado para as ruas, a manifestação na capital cercada foi uma das maiores de sempre. O povo de outras cidades que queria juntar-se ao da capital, simplesmente entrou na cidade a pé, como explicou ao diário El Watan um grupo de jovens “vindos da Cabília e dos altos planaltos”. Porque, como disseram, a Argélia é um país indivisível.

Outras cidades, como Oran e Constantine (a 2ª e a 3ª cidades do país em população), tiveram mobilização recorde, assim como a cidade protuária e industrial de Bejaia, para onde está convocada uma greve geral na próxima quarta-feira.

O povo foi às ruas cantar: “Asmaa ya el Gaïd dawla madania machi askariya” (Queremos um estado civil e não militar), e, em resposta direta ao general: “Chaab yourid iskate Gaïd salah” (O povo exige a destituição de Gaïd Salah).

Novas palavras de ordem contestaram o encerramento de Argel: “Jina harraga lel assima” (Viemos à capital como imigrantes clandestinos) e puseram em causa as eleições convocadas para dezembro: “makache el vote” (nada de voto), ou “dirou intikhabate fel imarate” (Vão fazer a vossa eleição nos Emirados”.

Os manifestantes não se esqueceram dos seus presos, exigindo em cartazes e de viva voz a libertação, entre outros, de Karim Tabbou, Fodil Boumala, Samir Benlarbi e o moudjahed Lakhder Bouragâa (moudjahed é a designação que se dá, na Argélia, aos que lutaram contra o colonialismo francês e pela independência).

E agora?

O chefe do exército apostou na intimidação verbal, na exibição de força e na prisão de líderes. Mas se defrontou, para já, com a ineficácia dessas medidas. O povo que vai às ruas todas as semanas, famílias inteiras em festa, cantando novas e criativas palavras de ordem, “é uma massa que se sublevou”, analisa o jornal e site informativo Liberté Algérie. Desta forma, “o peso das individualidades no curso do movimento é neste caso, relativa.

Por outro lado, o jornal mostra a contradição que existe por parte daqueles que prendem cidadãos reivindicando direitos legítimos e ao mesmo tempo querem convencê-los a participar numa eleição que, asseguram, será livre e democrática. Os mesmos que, diante da convocatória de uma manifestação, retiram aos habitantes da capital o direito de ir e vir, encerrando a cidade, e impedem os restantes argelinos de visitar Argel. “Não é possível aprisionar os cidadãos porque exprimem uma opinião e querer ao mesmo tempo assegurar-lhes uma livre escolha política”, escreve o Liberté Algérie.

Algo tão simples entrará na cabeça dos generais argelinos, que controlam o 17º maior orçamento militar do mundo? Será que vão insistir na repressão e esmagar a revolução pacífica de todo um povo? Ou buscarão um recuo? Momentos decisivos.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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