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Argélia, claques de futebol e revolução

Hino do movimento popular contra o regime é um cântico da claque do USMA, clube de Argel. Experiência das organizações de adeptos, inclusive o anonimato e a decisão coletiva, foi absorvida pela revolução. Por Luis Leiria.
Cartaz de uma manifestação: “Vocês vão se confrontar com uma geração que vos conhece bem e que vocês desconhecem totalmente”. Foto Algeria Watch
Cartaz de uma manifestação: “Vocês vão se confrontar com uma geração que vos conhece bem e que vocês desconhecem totalmente”. Foto Algeria Watch

Argel, sexta-feira, 8 de março de 2019. As centenas de milhares de pessoas que participam na grande mobilização contra o quinto mandato do presidente Abdelaziz Bouteflika entoam em coro o cântico La Casa del Mouradia, que por essa altura já se tornara o hino da revolução iniciada três semanas antes.

La Casa del Mouradia foi composta e gravada pelos Ouled el Bahdja (os Filhos da Radiosa, nome pelo qual é conhecida a cidade de Argel), claque do clube de futebol USMA (Union Sportive de la Médina de Alger) em abril de 2018. Quase um ano antes da revolução já era cantada nos estádios onde o USMA jogava. Para um cântico de incentivo a uma equipa de futebol, esta música pode parecer estranha: não fala de desporto, nem sequer de futebol. Só de política.

Uma das primeiras vezes em que La Casa del Mouradia foi cantada nas manifs de sexta-feira

 

La Casa del Mouradia

O título, assim mesmo, em castelhano, é um trocadilho inspirado na série espanhola “A Casa de Papel”, que nessa altura fazia muito sucesso na Argélia, e no nome do palácio presidencial de Argel, El Mouradia. La Casa del Mouradia é, assim, identificada como o lugar onde a elite argelina comete a grande fraude: o desvio de dinheiros públicos para os seus interesses particulares.

A letra fala de uma juventude castigada pelo desemprego, farta da vida que leva, perguntando-se a quem deve culpar por isso. A resposta só pode ser encontrada na longa presidência de Bouteflika: no primeiro mandato, enganou todo a gente aparecendo como o pacificador após a “década negra”, a guerra civil que mergulhou a Argélia numa orgia de assassinatos e massacres provocando a morte de 150 a 200 mil pessoas; no segundo, ficou evidente que a Presidência era em tudo semelhante à Casa de Papel; no terceiro, o país empobreceu enquanto a sua elite enriquecia, e no quarto, Bouteflika teve um AVC e se transformou num boneco nas mãos do seu círculo próximo, liderado pelo irmão Saïd.

O quinto, finalmente, já tinha tudo acertado, o passado arquivado e a voz da liberdade relegada para círculos privados.

La Casa del Mouradia

Chegou alvorada e continuo sem sono

Consumo pouco a pouco

Qual a razão?

Quem devo culpar?

Estamos fartos desta vida

[repete]


À primeira deixámos passar, enganaram-nos com a década [negra]

À segunda a história ficou clara: La Casa del Mouradia

À terceira o país emagreceu 

Por causa dos interesses pessoais

À quarta a boneca morreu, mas a história continua

[refrão]


E a quinta vem de seguida

Eles já acertaram

E o passado foi arquivado,

A voz da liberdade

O nosso canto é um lugar para conversas privadas

Eles conhecem-no quando vomitam

Uma escola onde é preciso curriculum

E um escritório anti-iliteracia

 

Origens da claque “Os Filhos da Radiosa”

O Ouled el Bahdja, na sua configuração atual, nasceu em 2010, mas considera-se herdeiro de uma história que vem de 1969, quando pela primeira vez os adeptos de clubes se sentaram organizadamente na bancada do estádio que fica atrás da baliza (le virage, em francês), onde os bilhetes são mais baratos. Um guarda-redes viria a batizá-los de Virage Électrique Orchestra, como recorda um dos porta-vozes anónimos da claque, numa rara entrevista dada ao jornalista Mickaël Correia para o site informativo francês Mediapart1.

Mais tarde, em 1993, nasceria o grupo Milano, inspirado nas claques “ultras” da Itália e na simpatia dos adeptos do USMA pela equipa italiana que usa as mesmas cores: vermelho e preto. O Ouled el Bahdja foi criado através de um processo de fusão de três grupos e a sua música destacou-se pela crítica política e social.

Nas bancadas do estádio, uma parte da claque canta uma estrofe, e a outraparte responde; e assim sucessivamente.

Logo a seguir a La Casa del Mouradia, o grupo compôs Babour Ellouh (barco de madeira), cantando a tragédia dos harraga, os argelinos que tentam atingir as costas da Itália ou da Espanha em embarcações improvisadas. Já durante a revolução, compôs ainda Ultima Verba, numa alusão ao famoso poema de Victor Hugo, em que o grande escritor francês criticava o regime de Napoleão III.

O rapper argelino Soolking adaptou uma versão desta música, a que chamou La Liberté, gravada com a participação dos Ouled el Bahdja, que já foi ouvida (clip oficial no Youtube) mais de 185 milhões de vezes!

Liberté
Soolking com Oulad el Bahdja

Parece que o poder se compra
Liberdade, é tudo o que nos sobra
Se o guião se repete, seremos atores da paz

Tão falsos, os vossos discursos são tão falsos
Sim, tão falsos, que acabamos por nos habituar
Mas acabou, o copo está cheio
Em baixo, eles gritam, ouves as suas vozes?
As vozes destas famílias cheias de dor
A voz que ora por um melhor destino
Perdoa-me por existir, 
perdoa os meus sentimentos
E se digo que estou contente contigo, estou a mentir
Perdoa-me por existir, 
perdoa os meus sentimentos
Dá-me a minha liberdade,
Peço-te com gentileza

A Liberdade, a Liberdade, a Liberdade
Está antes nos nossos corações
A Liberdade, a Liberdade, a Liberdade
A nós não mete medo
[bis]

Eles pensaram que estávamos mortos, 
Disseram “que alívio”
Acharam que tínhamos medo desse passado negro
Não há mais ninguém a não ser as fotos e as mentiras
Pensamentos que nos consomem, bom, 
levem-me para lá

Sim, não há ninguém, lá, só o povo, 
Che Guevara, Matoub, levem-me para lá
Escrevo isto numa noite para uma nova manhã
Sim, escrevo para acreditar nisso,
o futuro é incerto
Sim, escrevo porque estamos
estamos mão na mão
Eu escrevo porque somos a geração dourada

A Liberdade, a Liberdade, a Liberdade
Está antes nos nossos corações
A Liberdade, a Liberdade, a Liberdade
A nós não mete medo
[bis]

Libertem os que são reféns,
Libertem Imerhouma, Kayen Khalel f Iqada
Libertem os que são reféns,
Nós, é tudo o que temos
Só temos a Libertá
W hna homa l’ibtila, ah ya 
Houkouma, w nnar hadi ma tetfach
Esta é a nossa mensagem,
Nossa última verba
Soolking e Ouled El Bahdja

A Liberdade, a Liberdade, a Liberdade
Está antes nos nossos corações
A Liberdade, a Liberdade, a Liberdade
A nós não mete medo
[bis]

Um fenómeno generalizado

Mas a politização das claques argelinas não se restringe aos adeptos do USMA, sendo, antes um fenómeno generalizado. Os adeptos do principal clube rival, o Mouloudia Club d’Alger (MCA) também têm a sua claque, a Verde Leone, e o Grupo Torino que compõe cânticos politizados como 3am Saïd (“Bom ano”), crítica do sistema judiciário argelino e um ataque a Saïd Bouteflika, o verdadeiro presidente depois do AVC do irmão.

A vaga de músicas muito politizadas entoadas pelas claques nos estádios foi uma antecipação da revolução que estava para vir. Só isso pode explicar que se usem cânticos contra o regime para incentivar equipas de futebol. Mas como explicar que os cânticos e as claques afrontem o regime reivindicando a democracia e a revolução, em total contramão de tantas claques europeias dominadas pela extrema-direita?

“O estádio de futebol sempre foi um lugar de discurso político na Argélia, mesmo antes da independência, disse ao La Presse, do Canadá, o professor Mahfoud Amara, professor da Universidade do Qatar.

Os 11 da Independência

A primeira seleção ancional argelina, com os jogadores que saíram dos seus clubes franceses e se reuniram em Tùnis
A primeira seleção nacional argelina, com os jogadores que saíram dos seus clubes franceses e se reuniram em Túnis

O maior exemplo foi a seleção argelina de futebol, criada em 1958 no exílio pela Frente de Libertação Nacional (FLN), conhecida como “Os 11 da Independência”. Alguns dos melhores futebolistas profissionais argelinos, que jogavam no campeonato francês, abandonaram os seus clubes para dar corpo a esta seleção que, entre 1958 e 1962, data da independência, jogou 80 partidas contra equipas ou seleções de países da Europa, da Ásia e da África. E isto apesar de a França ter imposto à FIFA que não reconhecesse a equipa argelina. Cada jogo era uma eficaz ação de propaganda a favor da causa argelina e de denúncia do colonizador francês. E os argelinos jogavam um futebol de alta qualidade: entre os 11 havia mesmo cinco jogadores que tinham participado da seleção francesa.


Notícia da imprensa francesa da época: "Vários jogadores de futebol muçulmanos desapareceram...

Já nos anos 80, “os estádios tornaram-se um lugar onde os jovens exprimem as suas opiniões contra o regime, sem intermediário ou censura”, lembra Mahfoud Amara. Na opinião de Maher Mezahi, jornalista argelino que acompanha o fenómeno “ultra” nas claques argelinas, os adeptos souberam tirar proveito do facto de estarem reunidos aos milhares e fizeram do estádio um local de discussão livre. “Eles apropriaram-se de um espaço, exprimindo as suas frustrações. Nos média e na esfera pública, esta liberdade de expressão é menor”.

Experiência das claques chegou à revolução

Os cânticos das claques incomodam, evidentemente, o regime, mas a polícia evita intervir dentro do estádio, ambiente que lhe seria muito desfavorável. Os confrontos, a ocorrerem, são nas ruas, depois dos jogos. Ora esta experiência das claques, dos cânticos contra o regime e dos enfrentamentos com a polícia nas ruas, foi transposta para o Hirak. Não que haja verdadeiros choques com as forças repressivas: o Hirak tem como pilar da sua ação o caráter pacífico das manifestações. Mas se os manifestantes não atiram uma pedra que seja contra a polícia, os seus cordões por vezes conseguem pressionar as linhas policias e forçar a passagem para praças e ruas bloqueadas.

Outra característica das claques que o Hirak adotou é o caráter anónimo e coletivo das suas decisões. “Mesmo se todos os adeptos do USMA são dos nossos, o nosso grupo é composto por cerca de 500 pessoas, com um núcleo bem definido que toma em conjunto as decisões que dizem respeito ao coletivo”, explicaram os responsáveis (anónimos) dos Ouled el Bhadja numa entrevista (por mail) de Mickael Correia para a Mediapart. Nos clips oficiais no Youtube dos Ouled, aparecem os músicos mas não as suas caras.

Liderança anónima

Tal como os Ouled, não se conhece a liderança do Hirak. Mas que existe “um núcleo que toma as decisões pelo coletivo”, não há dúvida. Um núcleo que aprova as palavras de ordem do momento, muitas vezes como resposta a discursos das autoridades pronunciados na véspera.

A participação das claques de futebol nas grandes mobilizações populares não é exclusividade da Argélia. As claques da Espérance Sportive de Túnis e do Club Africain, clubes de futebol da Tunísia, estiveram em janeiro de 2011 na primeira linha das manifestações da Primavera Tunisina. No mesmo ano, em fevereiro e em novembro, foram as claques do Al-Ahly e do Zamalek, os dois maiores clubes do Cairo, que defenderam a Praça Tahrir contra as milícias do poder no Egito.


Nota:

1A maior parte deste artigo é baseada na excelente investigação de Mickaël Correia, e principalmente no artigo “En Algérie, les stades contre le pouvoir”, publicado no Le Monde Diplomatique de maio de 2019. Correia é o autor do livro Une histoire populaire du football (La Découverte, 2018), uma obra notável sobre a história do futebol vista pelo lado dos de baixo, e as suas vinculações com as lutas e as causas populares.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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