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Arábia Saudita pressionou para não se investigarem crimes de guerra no Iémen

Ameaças de criar obstáculos a deslocações a Meca e ajudas financeiras terão causado mudanças de sentido de voto no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Mas agora cerca de 60 organizações humanitárias tomam posição para que a ONU avance com investigação.
Manifestação contra a guerra no Iemén. Foto de  Alisdare Hickson/Flickr.
Manifestação contra a guerra no Iemén. Foto de Alisdare Hickson/Flickr.

Através do seu esforço de lóbi, a Arábia Saudita conseguiu obter uma maioria no Conselho de Direitos Humanos da ONU de forma a travar o prolongamento da investigação independente de crimes de guerra no Iémen. Foi a primeira vez que uma resolução foi chumbada pelo organismo nos seus quinze anos de história.

Segundo várias fontes consultadas pelo Guardian, o grande aliado dos Estados Unidos na região árabe usou “incentivos e ameaças” para obter este resultado. O jornal britânico revela que, por exemplo, o governo saudita terá pressionado a Indonésia através da ameaça de criar obstáculos para os cidadãos do país que pretendessem fazer a viagem a Meca ao não reconhecer os certificados Covid aí emitidos e que o Togo anunciou, na altura do voto, a abertura de uma embaixada em Riade e a chegada de fundos provenientes daquele país, supostamente para combater o terrorismo. Por sua vez, os Emirados Árabes Unidos, que têm combatido do lado saudita, também terão feito movimentações no mesmo sentido: uma semana depois da votação, este país estabeleceu um acordo para aumentar a cooperação económica com o Senegal.

Tanto a Indonésia como o Togo mudaram o seu sentido de voto: em 2020 tinham-se abstido, este ano votaram contra a mesma resolução. Não foram os únicos países que, apenas num ano, mudaram de ideias. Se o ano passado o resultado tinha sido uma aprovação com 22 votos a favor, 12 contra e 12 abstenções, este ano o panorama alterou-se substancialmente com 21 votos contra e 12 a favor.

No ano passado, o Grupo de Peritos Eminentes sobre o Iémen tinha recomendado expressamente que a comunidade internacional atentasse na responsabilidade sobre potenciais crimes de guerra e que as informações recolhidas chegassem aos procuradores do Tribunal Penal Internacional da ONU.

Em resposta a esta votação, mais de seis dezenas de organizações humanitárias e de defesa dos direitos humanos, entre as quais a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch, criticaram as “pressões” e “campanhas agressivas de lóbi” sauditas e apresentaram a proposta de que a Assembleia Geral das Nações Unidas avance para uma investigação independente de forma a “ajudar a terminar com a impunidade”.

Estas associações não confiam na “politização do Conselho de Segurança” para o fazer e pensam que são os Estados membros que “devem criar um novo mecanismo de investigação que demonstre ao povo do Iémen que as Nações Unidas não olham para o outro lado face ao seu sofrimento e que apoia a responsabilização internacional de crimes e abusos". Esta medida seria também importante para fazer passar a mensagem, em países como a Líbia, de que violações dos direitos humanos serão investigadas.

O conflito do Iémen entre o governo e os rebeldes Houthi internacionalizou-se com a intervenção de uma “coligação internacional” liderada pela Arábia Saudita e com forte presença no terreno também dos Emirados Árabes Unidos. EUA e Reino Unido vendem armas a este lado da guerra. Há notícias de numerosos crimes de guerra, estima-se que mais de 100.000 pessoas terão morrido, há quatro milhões de deslocados e a fome estende-se por grande parte do país.

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