Está aqui

Aprofundar o caminho contra a precariedade ou andar para trás: "cabe ao PS escolher"

Catarina Martins desafiou o PS a rever a legislação laboral com a esquerda para aprofundar o caminho contra a precariedade. Saudou também o surgimento de uma geração de novos sujeitos políticos que antes não tinham voz, no encerramento da conferência de jovens do Bloco em Lisboa.
Catarina Martins na conferência de jovens do Bloco, 2019. Foto de Marta Fonseca.
Foto de Hugo Evangelista.

Catarina Martins apelou ao PS para fazer caminho com a esquerda contra a precariedade regozijou-se com o surgimento de novos sujeitos e atores políticos, que constitui "uma das mudanças mais importantes deste tempo", em declarações na Conferência de Jovens do Bloco, que se realizou na Escola Secundária Gil Vicente, em Lisboa, e terminou este domingo. Estes novos atores dão motivos de orgulho no país, afirmou, quando uma "greve feminista sai à rua com mais força que nunca, para dizer não às sentenças do Netos de Moura", ou "os jovens negros ocupam a avenida da Liberdade contra a violência racista".

Outro exemplo de novas vozes que surgem é as trabalhadoras da limpeza: "aquelas pessoas que fazem quilómetros em transportes públicos de manhã, quando ainda é noite, para virem limpar os escritórios, e aquilo que recebem deve ofender-nos como país. Quem imaginaria há uns anos ter as mulheres da limpeza a manifestar-se no centro de Lisboa?". Também os estivadores ou trabalhadores dos call-center, "sujeitos às mesmas regras que havia na praça de jorna", mereceram elogia: "quem diria que fariam greve?".

Catarina enfatizou a relevância de se começar a ouvir vozes de gente não tinha voz, como "vítimas de violência doméstica a darem a sua própria voz, já não mulheres envergonhadas que precisem que alguém fale por elas", mas também os trabalhadores do Nepal e do Bangladeche que cultivam os campos alentejanos, e que "se manifestaram frente ao Parlamento pelo direito a ser respeitados e a ter documentos". "A lei que esses trabalhadores obrigaram a aprovar fez já com que muitos mais tivessem documentos", precisou.

Focando-se nos jovens, Catarina saudou uma nova geração que "é extraordinário ver surgir como um sujeito político determinante na greve climática estudantil", e que considerou sinal de "um novo sujeito político que sabe que não há futuro com o capitalismo". As grandes manifestações criam uma consciência crescente de que "a luta ambiental é anticapitalista e é socialista", e que "a acumulação, a desigualdade, a ganância da destruição de recursos, a profunda injustiça dos nossos tempos" são resultado do "mesmo modo de produção que está a dar cabo dos recursos do planeta".

Os jovens também são profundamente afetados pela precariedade laboral. Catarina lamentou que o governo PS tenha optado por mudar o código laboral em acordo com os patrões, "em vez de o negociar à esquerda". O resultado foi que "acabou por não revogar boa parte da legislação do tempo Troika, a acabou até por introduzir perniciosamente novas formas de precariedade: aumentou o período experimental, aumentou situações em que se permite contratos orais muito curtos, permitiu que o banco de horas continue sem contratação coletiva". "Como podemos ter um país mais desenvolvido, se o que prometemos a quem é mais novo é que vai ser pior que o era antes?", perguntou.

Pelo contrário, o caminho em matéria de trabalho deve ser "acabar com esta pressão permanente, patronal e financeira, para que os salários sejam sempre menores e a segurança social apareça como um problema", afirmou Catarina Martins.

Catarina lançou assim um desafio ao PS para aprofundar com a esquerda o caminho contra a precariedade laboral: "cabe ao PS escolher o que quer fazer: andar para trás e acordar com os patrões ou a direita, que nunca tem uma solução para oferecer, ou ter a coragem de aprofundar o caminho que responda por quem trabalha e conseguir fazer uma legislação à esquerda no parlamento”. Pela sua parte, “o Bloco cá estará para esse trabalho. Veremos o que acontece”.

Marisa Matias, presente na sessão, referiu que a cada ano, as recomendações da UE são sempre as mesmas: redução do investimento público, "que afeta e muito a educação e os serviços públicos"; e flexibilização laboral, que "afeta e muito toda a gente que trabalha, mas sobretudo os mais jovens, que não têm um trabalho com direitos garantidos". Para Marisa, esta "é também a geração que mais foi afetada pelo PEC, pelo semestre europeu, pelo Tratado Orçamental", pelo que apelou aos jovens para "desmistificar a ideia de que são uma flor na lapela que se reduz à geração Erasmus, ou à geração Interrail".

O caminho de dignificar o trabalho é também a melhor via para combater as forças de extrema-direita que crescem pela Europa. Para Catarina, estas forças "alimentam a raiva natural de quem sente a precariedade na vida", mas tudo o que fazem é "dizer ao pobre que a culpa é do miserável", e nunca apresentam projetos concretos para a segurança social, o emprego, a igualdade etc. A extrema-direita é "o idiota útil de serviço da finança, que tem vindo a concentrar cada vez mais poder contra os direitos de quem trabalha", mas também cresce por culpa do "centrão absolutamente responsável pela incapacidade de responder à vida concreta das pessoas", concluiu.

Termos relacionados Política
(...)