Catarina Martins apelou ao PS para fazer caminho com a esquerda contra a precariedade regozijou-se com o surgimento de novos sujeitos e atores políticos, que constitui "uma das mudanças mais importantes deste tempo", em declarações na Conferência de Jovens do Bloco, que se realizou na Escola Secundária Gil Vicente, em Lisboa, e terminou este domingo. Estes novos atores dão motivos de orgulho no país, afirmou, quando uma "greve feminista sai à rua com mais força que nunca, para dizer não às sentenças do Netos de Moura", ou "os jovens negros ocupam a avenida da Liberdade contra a violência racista".
Outro exemplo de novas vozes que surgem é as trabalhadoras da limpeza: "aquelas pessoas que fazem quilómetros em transportes públicos de manhã, quando ainda é noite, para virem limpar os escritórios, e aquilo que recebem deve ofender-nos como país. Quem imaginaria há uns anos ter as mulheres da limpeza a manifestar-se no centro de Lisboa?". Também os estivadores ou trabalhadores dos call-center, "sujeitos às mesmas regras que havia na praça de jorna", mereceram elogia: "quem diria que fariam greve?".
Catarina enfatizou a relevância de se começar a ouvir vozes de gente não tinha voz, como "vítimas de violência doméstica a darem a sua própria voz, já não mulheres envergonhadas que precisem que alguém fale por elas", mas também os trabalhadores do Nepal e do Bangladeche que cultivam os campos alentejanos, e que "se manifestaram frente ao Parlamento pelo direito a ser respeitados e a ter documentos". "A lei que esses trabalhadores obrigaram a aprovar fez já com que muitos mais tivessem documentos", precisou.
Focando-se nos jovens, Catarina saudou uma nova geração que "é extraordinário ver surgir como um sujeito político determinante na greve climática estudantil", e que considerou sinal de "um novo sujeito político que sabe que não há futuro com o capitalismo". As grandes manifestações criam uma consciência crescente de que "a luta ambiental é anticapitalista e é socialista", e que "a acumulação, a desigualdade, a ganância da destruição de recursos, a profunda injustiça dos nossos tempos" são resultado do "mesmo modo de produção que está a dar cabo dos recursos do planeta".
Os jovens também são profundamente afetados pela precariedade laboral. Catarina lamentou que o governo PS tenha optado por mudar o código laboral em acordo com os patrões, "em vez de o negociar à esquerda". O resultado foi que "acabou por não revogar boa parte da legislação do tempo Troika, a acabou até por introduzir perniciosamente novas formas de precariedade: aumentou o período experimental, aumentou situações em que se permite contratos orais muito curtos, permitiu que o banco de horas continue sem contratação coletiva". "Como podemos ter um país mais desenvolvido, se o que prometemos a quem é mais novo é que vai ser pior que o era antes?", perguntou.
Pelo contrário, o caminho em matéria de trabalho deve ser "acabar com esta pressão permanente, patronal e financeira, para que os salários sejam sempre menores e a segurança social apareça como um problema", afirmou Catarina Martins.
Catarina lançou assim um desafio ao PS para aprofundar com a esquerda o caminho contra a precariedade laboral: "cabe ao PS escolher o que quer fazer: andar para trás e acordar com os patrões ou a direita, que nunca tem uma solução para oferecer, ou ter a coragem de aprofundar o caminho que responda por quem trabalha e conseguir fazer uma legislação à esquerda no parlamento”. Pela sua parte, “o Bloco cá estará para esse trabalho. Veremos o que acontece”.
Marisa Matias, presente na sessão, referiu que a cada ano, as recomendações da UE são sempre as mesmas: redução do investimento público, "que afeta e muito a educação e os serviços públicos"; e flexibilização laboral, que "afeta e muito toda a gente que trabalha, mas sobretudo os mais jovens, que não têm um trabalho com direitos garantidos". Para Marisa, esta "é também a geração que mais foi afetada pelo PEC, pelo semestre europeu, pelo Tratado Orçamental", pelo que apelou aos jovens para "desmistificar a ideia de que são uma flor na lapela que se reduz à geração Erasmus, ou à geração Interrail".
O caminho de dignificar o trabalho é também a melhor via para combater as forças de extrema-direita que crescem pela Europa. Para Catarina, estas forças "alimentam a raiva natural de quem sente a precariedade na vida", mas tudo o que fazem é "dizer ao pobre que a culpa é do miserável", e nunca apresentam projetos concretos para a segurança social, o emprego, a igualdade etc. A extrema-direita é "o idiota útil de serviço da finança, que tem vindo a concentrar cada vez mais poder contra os direitos de quem trabalha", mas também cresce por culpa do "centrão absolutamente responsável pela incapacidade de responder à vida concreta das pessoas", concluiu.