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Aprender com o E@D hoje para melhorar a Escola amanhã

Na reta final deste 3º período de Ensino à Distância, há reflexões necessárias para preparar aquilo que vai ser a abertura prevista das escolas em setembro. Texto de Jorge Humberto Nogueira, professor, mestre em Educação Especial e Inclusão.
O Ensino à Distância não é a Escola, nem tão pouco a pode substituir – imagem retirada do site do Agrupamento de Escolas da Trafaria
O Ensino à Distância não é a Escola, nem tão pouco a pode substituir – imagem retirada do site do Agrupamento de Escolas da Trafaria

Temos hoje uma boa oportunidade para aprender com o presente e organizar propostas para enfrentar o próximo ano, aproveitando para melhorar a Escola do amanhã.

Para organizar ideias e propostas partimos de três pressupostos: a) O Ensino a Distância não é a Escola, nem tão pouco a pode substituir; b) sem Escola presencial as desigualdades agravam-se em todas as áreas e c) há grupos que estão em desvantagem, pois não têm autonomia e necessitam particularmente de ensino presencial para o seu próprio desenvolvimento.

partimos de três pressupostos: a) O Ensino a Distância não é a Escola, nem tão pouco a pode substituir; b) sem Escola presencial as desigualdades agravam-se e c) há grupos que estão em desvantagem

Sobre o primeiro pressuposto, nunca é demais salientar que a Escola não é a mera transmissão do saber, mas sim um sistema complexo de relações entre alunos e professores, onde se cria um ambiente natural de aprendizagem, que não se limita ao ensino, mas que desenvolve de forma global o ser humano, em termos sociais, afetivos, comunicacionais, cognitivos e motores. É na escola que se estabelece uma identificação do eu e das regras sociais de uma comunidade e onde se vivenciam valores. É na Escola que se aprende a estar, respeitar e viver em grupo, numa intrincada teia de relações comunicacionais que promovem o desenvolvimento cognitivo. É também na Escola que adultos qualificados estabelecem os desafios necessários e atempados, que cada idade própria necessita enfrentar, numa interação que promove um ser humano mais rico, mais completo e com as ferramentas necessárias para um futuro mais empreendedor, livre, crítico e igual. É inegável o papel que os professores representam nesta situação à distância, mantendo contatos, encontrando estratégias, imaginando, ajustando e dando o seu melhor a pensar nos alunos e nas suas famílias, sendo, mais uma vez, os obreiros reais de uma situação, onde o Ministério da Educação andou a reboque, não interveio atempadamente, não organizou, demonstrando a sua impotência face à realidade. O Ensino a Distância é uma aproximação possível em situação de crise, onde professores, pais e alunos empreendem um esforço enorme, para ter acesso ao que for possível desenvolver e minimizar os efeitos nefastos do fecho das escolas. O computador, como ferramenta pedagógica, nunca poderá substituir um professor, nem tão pouco representa, por si só, qualquer melhoria no que quer que seja. É essencial não ficar satisfeito ou resignado com o que temos, mas antes apreensivo e cauteloso, em relação às consequências da possibilidade de um ano letivo inteiro nestas circunstâncias, mesmo que parcialmente.

 

O computador, como ferramenta pedagógica, nunca poderá substituir um professor, nem tão pouco representa, por si só, qualquer melhoria no que quer que seja

Em segundo lugar, não podemos ignorar que ficou a nu o papel fundamental da Escola na promoção da igualdade e na construção de uma sociedade mais justa, que previne a exclusão e desenvolve processos de equidade individual e social. A fragilidade vivida por muitas famílias e crianças, no 3º período, foi o retrato fiel do que pode acontecer quando uma sociedade pensa que pode subsistir sem uma Escola Pública forte. Ficou patente que cada cêntimo investido na escola é dinheiro bem gasto e que a valorização dos professores e funcionários é a valorização de toda uma sociedade. A escola espelha toda a sociedade e pode, em muitos momentos, ser esse reflexo; mas encerra também essa esperança luminosa, de uma transformação dessa mesma sociedade. Foi possível verificar a desigualdade de acesso de milhares de alunos, não só em termos tecnológicos, mas também de materiais, de apoio familiar, económico, acesso à cultura, ao lazer e a experiências enriquecedoras. Ficou claro que não basta um computador e sessões síncronas, para combater as desigualdades. O problema reside noutras dimensões da organização social e a Escola demonstrou ser a instituição onde se mitigam as desigualdades com medidas de equidade para os diferentes pontos de partida. Uma sociedade mais justa, mais igual e mais desenvolvida, não se constrói sem uma Escola pública presencial centrada na ciência, na liberdade, na democracia e na diversidade.

 

Por último, há que refletir sobre um conjunto de alunos, cuja não frequência da Escola, pode causar sérios problemas de desenvolvimento, que não ocorrem em idades mais avançadas. Diz-nos a ciência que, quanto mais novos, mais permeáveis somos a formar a nossa personalidade, os valores e o sistema nervoso central, de uma forma indelével e construtora do adulto que seremos. É também demonstrado que quanto mais cedo forem detetadas e apoiadas as problemáticas específicas, mais ganhos se poderão ter. Outro pressuposto do desenvolvimento humano é que há etapas e momentos do nosso desenvolvimento que se constroem sobre outras, numa progressão cumulativa baseada no confronto com os desafios e interações adequados e no tempo certo. Em idades mais jovens, as crianças não têm ainda determinadas capacidades e níveis de desenvolvimento, que lhes permitam compreender e interagir com a realidade de forma autónoma e eficaz. Estamos a falar das crianças do Pré-Escolar, 1º ciclo do Ensino Básico e dos alunos com Necessidades Educativas Especiais. Trata-se de uma população sem autonomia para aprendizagem independente e para quem a escola não é apenas o acesso ao conhecimento e aprendizagem, mas é vital para o seu desenvolvimento cognitivo global, podendo existir problemas causados pela falta de uma ação atempada e interações competentes. São também aqueles que mais aprendem pela ação, pela interação, pela socialização e pelas atividades práticas e corporais. É também nos primeiros anos de escolaridade que se desenvolvem as aprendizagens básicas essenciais de âmbito psicomotor, linguístico, socio afetivo, pensamento lógico e as ferramentas de leitura, escrita e matemática, estabelecendo uma base sólida para todo o desenvolvimento e para as exigências escolares e sociais futuras. De salientar, que se trata de uma população longe de ter adquirido autonomia no uso de ferramentas tecnológicas para aprendizagem, ou uso autónomo na vida diária, sendo os mais prejudicados no Ensino à Distância.

Ao mesmo tempo que esta população se torna prioritária em termos de ensino presencial, é paradoxalmente, aquela que enfrenta maiores riscos de contágio. Não é fácil entenderem o afastamento social e regras de isolamento e contágio, agindo de forma preventiva autonomamente; como também são naturalmente crianças em busca de interações para o seu desenvolvimento, funcionando como imanes, na descoberta do outro e nas atividades de contato e exploração escolar e social. Se a esta população juntarmos alunos com problemas graves de saúde, estamos perante um grupo a necessitar de toda a atenção na abertura das escolas.

 

Tendo por base os pressupostos anteriores, podemos contribuir como algumas ideias de base, para a programação do próximo ano letivo, tendo em conta que, se queremos uma escola presencial, há que começar hoje a planifica-la, sob pena de voltarmos a uma situação de correr atrás do prejuízo. Para além disso, estamos perante uma boa oportunidade de repensar diversas dimensões da escola para a melhorar.

1. As crianças até aos 10 anos e/ou com NEE [Necessidades Educaticas Especiais],. devem ser prioritárias na frequência escolar presencial a tempo inteiro, acedendo a aprendizagens e interações de qualidade através dos seus educadores e professores, bem como serviços adequados de Intervenção Precoce, Educação Especial e Saúde Escolar. Os recursos e medidas a desenvolver terão de ser primeiramente focados nesta população, quer em termos de prevenção, como de afastamento, criação de grupos mais pequenos, salas separadas e todo o tipo de normas a implementar, mesmo que isso signifique um redobrar de recursos.

2. A experiência mostrou que, em muitos casos, os professores reinventaram o ensino, centrando a sua ação em atividades de apoio aos alunos e famílias, tarefas mais centradas nas capacidades, criatividade, desafios e muitas outras. Sem o peso de um currículo monolítico centrado nas aprendizagens formais, foi possível libertar o ensino para o que verdadeiramente importa. No próximo ano, poderá haver lugar a grupos mais pequenos ou ser necessário estar menos tempo presencialmente, por isso, seria interessante aproveitar este recomeço, para reformular os currículos nacionais, dando espaço para atender a diversidade, melhorar a inclusão, mais colaboração, diferenciação pedagógica e desenvolvimento centrado nas capacidades, no desenvolvimento de dimensões cognitivas mais interessantes, na autonomia dos alunos e mais tempo para acomodar as aprendizagens básicas nos primeiros anos.

3. Os professores mostraram também grande criatividade, encontrando soluções, materiais e estratégias alternativas e recursos diversificados. No próximo ano seria uma ótima oportunidade para dar mais autonomia aos docentes, permitir às escolas uma verdadeira gestão curricular e flexibilidade, incluindo aqui também a tecnologia, para termos aulas mais inovadoras, experiências mais ricas com maior criatividade e diversidade de estratégias.

4. Toda a organização escolar foi posta à prova neste terceiro período, verificando-se uma adaptação repentina sem precedentes na forma de trabalhar e de gerir a Educação. Com o que se aprendeu, seria importante investir em mudanças. Turmas mais pequenas, salas fixas, menos professores por turma, permitindo mais individualização. Libertar as escolas e os professores de trabalho inútil, imposto numa organização controladora e centralista, sem ter em conta as necessidades dos Agrupamentos, nem a disponibilidade dos professores para ensinar. Libertar finalmente os professores para se dedicarem ao ensino e aos seus alunos.

5. O computador e os diferentes meios tecnológicos a usar no ensino, são ferramentas importantes, quando utilizadas de forma adequada pelos professores e alunos, necessitando de uma aprendizagem e treino no seu uso, para todos poderem usufruir com autonomia e utilidade pedagógica. O aumento do seu uso deve estar integrado numa política de melhoria qualitativa do ensino e no desenvolvimento da aprendizagem específicas do seu uso, tendo em mente que a sua simples presença não é solução para nada.

6. Por fim a avaliação. Já é tempo de revisitar o sistema de avaliação centrado na medição do saber, nas provas sumativas por escola ou nacionais, na necessidade de classificar, seriar e comparar alunos e escolas. Sem falar no acesso ao Ensino Superior. Para o ano seria interessante retomar uma avaliação contínua com caráter mais formativo, que servisse a aprendizagem e o crescimento dos alunos, libertando o ensino deste permanente machado, que condiciona todo o sistema, inclusivamente as práticas letivas. Se queremos um ensino melhor, isto algum dia terá de mudar no nosso país. Seria importante promover uma avaliação centrada na mais valia e no desenvolvimento dos potenciais individuais, usando produtos diversificados e adequados aos momentos e aos alunos.

Texto de Jorge Humberto Nogueira, professor, mestre em Educação Especial e Inclusão. Membro do Bloco de Esquerda Torres Vedras

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